sábado, 24 out 2020
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A candidatura Boulos/Erundina

Leia na coluna de Valerio Arcary: "Pela primeira vez, na mais importante cidade do país, a candidatura do PSol vê confirmado, nas primeiras pesquisas, que está na frente da candidatura do PT. A candidatura Boulos/Erundina parece cumprir um papel catalisador"

                                                          Experiência é o nome que a gente coloca nos erros

                                                                                           Sabedoria popular judaica

A campanha eleitoral em São Paulo se inicia com uma aparente surpresa. Pela primeira vez, na mais importante cidade do país, a candidatura do PSol vê confirmado, nas primeiras pesquisas, que está na frente da candidatura do PT. A candidatura Boulos/Erundina parece cumprir um papel catalisador. Catalisador é algo que aumenta a velocidade de uma reação. Candidaturas majoritárias do PSol já tinham superado as do PT, como em Belém com Edmilson Rodrigues.

Mas agora é diferente. Em Belo Horizonte, Áurea Carolina está pontuando, também, na frente de Nilmário Miranda do PT. Já tinha acontecido antes, no Rio de Janeiro, em 2016, com Marcelo Freixo. E a dinâmica da candidatura de Manuela D’Ávila, embora pelo PCdoB, parece ter semelhanças. O PT sofre um desgaste político, uma “fadiga de material”. Uma parcela do eleitorado de esquerda está se deslocando.

Construir lideranças que têm audiência e respeito de massas não é simples, ao contrário, é difícil e complexo. E Boulos, Erundina, Áurea, Manuela e Edmilson são lideranças inspiradoras. Não é, contudo, somente, pela autoridade pessoal dos candidatos que este fenômeno está acontecendo. A questão parece ser política e remete à maturação de uma experiência.

São muitos fatores que explicam esta inversão de lugar entre PSol e PT, mas ela não é um acidente. Tampouco parece um fenômeno efêmero. Tudo sugere que culmina um processo que começou vários anos atrás. Expressa uma reorganização no espaço à esquerda.

É verdade que parece paradoxal, porque o fortalecimento de uma ala mais radical da esquerda só se demonstrou, historicamente, possível depois de uma onda de lutas e, afinal, viemos acumulando derrotas desde 2016. Mas, seria miopia prestar atenção somente ao desfecho dos processos. Que a onda de lutas de resistência tenha sido até agora derrotada, não anula que ela existiu, e foi muito importante.

Mas só pode ser explicada tendo um pouco de perspectiva. A compreensão da situação brasileira exige atribuir sentido a três momentos-chave da luta de classes: as jornadas de junho de 2013, o golpe de 2016 e a eleição de Bolsonaro em 2018. Estes são os momentos-chave de confronto, porque foram qualitativos para a mudança da relação social de forças entre as classes. Perdemos, mas não foi sem luta. A esquerda radical brasileira está hoje, relativamente, mais forte porque passou a prova da história nestes três combates decisivos.

Foi desafiada, em primeiro lugar, pelas jornadas de junho. Foi um processo muito amplo, só comparável, pela escala de milhões nas ruas, com as Diretas Já em 1984 e o Fora Collor em 1992. Junho de 2013 estava social e, politicamente, em disputa. Nas ruas havia, evidentemente, de tudo, até os fascistas. Mas havia também uma nova geração da classe trabalhadora urbana, mais instruída do que a dos seus pais, fazendo o seu “batismo” político.

Junho de 2013 foi acéfalo, mas foi, também, a antessala da Primavera feminista, das imponentes mobilizações LGBT’s contra Marco Feliciano, das ocupações de escolas secundaristas, de um ascenso do movimento negro, além do impulso a outros movimentos, como o ambiental, o de Direitos Humanos, ou o de descriminalização do consumo de drogas. A esquerda mais combativa se posicionou ao lado desta onda. Dez anos depois da posse de Lula, Junho de 2013 deixou um PT envelhecido e devorado pela institucionalização burocrática, atônito, perplexo, confuso e, essencialmente, paralisado.

A ausência de uma direção política levou o PT a desconsiderar o seu caráter popular e, pior, a condená-lo como, politicamente, regressivo. Evidentemente, embriões do que veio a ser a onda conservadora se expressaram em 2013, mas ela explodiu com força somente em 2015, em função das sequelas da operação Lava-Jato, não em 2013. Tanto que ainda foi possível, vencer as eleições presidenciais de 2014. 

A esquerda radical passou por uma segunda prova de fogo complexa entre o final de 2015 e 2018. Várias correntes e organizações se dividiram, mas, se consideramos o desfecho com grandeza, sobreviveu, e hoje está mais forte do que era. O desafio era fazer, rapidamente, uma curva de reposicionamento diante da iminência de um golpe institucional. Fazer curvas políticas em alta velocidade é muito perigoso. É fácil derrapar e capotar.

A esquerda socialista estava em um campo de oposição ao governo Dilma/Rousseff/Joaquim Levy. Mas, a iminência do golpe exigia que ela se colocasse ao lado do PT contra o golpe. A mudança brusca exigia lucidez e coragem.   

Há dois perigos quando se enfrenta o desafio de fazer uma curva. Subestimá-la, e seguir o rumo anterior, diminuindo a máxima gravidade do que era o deslocamento da maioria burguesa para o impeachment, e ser cúmplice da operação reacionária. Ou superestimá-la, e perder a independência política crítica diante do PT, e ficar prisioneira da força de gravidade do lulismo. Houve quem cometesse esses erros.

Mas o MTST e o PSol passaram esta prova da história. Estiveram na defesa do mandato de Dilma e contra a prisão de Lula. Tiveram a lucidez de convergir desde então, construindo a candidatura de Boulos à presidência em 2018, mas na primeira linha da campanha de Haddad no segundo turno, da campanha Lula Livre, e da defesa de uma Frente de Esquerda na oposição a Bolsonaro.

Esta reorientação não poderia ser feita sem conflitos internos, porque sempre há forças de inércia em qualquer organização, inclusive as mais revolucionárias. Eles existiram, mas prevaleceu uma compreensão comum construída nas lutas de resistência nas jornadas de junho de 2013, e na luta contra o golpe. Sim, houve uma onda de resistência ao golpe, embora ela não tenha sido vitoriosa. Ela passou pelas ações de massas em 2016, pela luta contra Temer em 2017, e culminou com o #EleNão e o vira-voto na véspera das eleições em 2018. E a chama permaneceu viva como vimos no tsunami da educação em 2019.

Esta história oferece o contexto do apelo da candidatura do PSol. Não parece, portanto, correto dizer que Boulos/Erundina têm o mesmo programa que a candidatura do PT, ou que conquistou um lugar de destaque, somente, porque o PT “errou de candidato”. Os candidatos do PT carregam um fardo pesado nas costas.

Um programa deve ser compreendido como uma apreciação comum da situação e as lições do que fazer. Uma interpretação lúcida das posições do PSol deve admitir as diferenças com o que foram os treze anos de governos do PT. Por exemplo, um desacordo com a política econômica do Governo Dilma, com as metas do superávit primário de Levy, como a elevação dos juros. Ou o desacordo com as alianças no ministério que fortaleceram Michel Temer e o MDB.

Boulos e o PSol têm sido, também, críticos da estratégia política do PT. Desde a posse de Bolsonaro apostaram na luta pela derrubada de Bolsonaro. Alertaram que o perigo é demasiado grande para confiar que as instituições do regime são um obstáculo suficiente para deter o perigo neofascista, e se pode esperar as eleições de 2022.

A construção do PT e a liderança de Lula foram um enorme salto em frente para a classe trabalhadora nos anos oitenta, mas a classe trabalhadora brasileira mudou. E o PT também, mudou.

São muitos os fatores objetivos e subjetivos que explicam esta crise, que pode ser compreendida no marco de uma longa decadência. O PT tem como aliado principal o aparelho da CUT, mesmo debilitado, mas ainda o principal polo das organizações sindicais mais importantes nos bastiões mais organizados da classe. A implantação do PT está concentrada nos interiores do nordeste, nas periferias populares das regiões metropolitanas, e na geração veterana, portanto, envelhecida, da esquerda brasileira. Mas o PT não é mais a principal referência para juventude popular ou universitária, e perdeu autoridade nos setores médios progressistas.

O último Congresso Nacional do PT, no final de 2019, não resolveu a crise interna que o partido vive depois das derrotas acumuladas, mesmo se atenuada pela saída de Lula da prisão. Porque um dia Lula faz uma declaração “estilo Jeremy Corbin”, mas outro dia incorpora “Tony Blair”. Um dia alerta que Bolsonaro é um golpista, mas outro dia diz que aceita o direito de Bolsonaro exercer o seu mandato até o fim. Um dia defende o Fora Bolsonaro, mas outro dia se deixa fotografar com Renan Calheiros.

Não parece muito animador.   

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

Valerio Arcary
Valerio Arcary
É professor titular do IFSP. Doutor em história pela USP, estudou na Universidade de Paris e Lisboa entre 1974/78, participou da revolução portuguesa, voltou ao Brasil e se uniu à Convergência Socialista, esteve presente na reconstrução da UNE em Salvador em 1979, na fundação do PT em 1980 e da CUT em 1983, sendo secretário-geral da CUT/São Paulo entre 1985/86. Atuou na Apeoesp entre 1983/90, foi membro da Executiva Nacional do PT entre 1989/92, e foi presidente nacional do PSTU entre 1993/98 e, desde 2016 é membro da Coordenação Nacional do MAIS/PSOL. É autor de O martelo da história, entre outros livros.