Valerio Arcary

19 de junho de 2020, 22h35

A Internacional

Leia na coluna de Valerio Arcary: O internacionalismo é o coração estratégico do projeto da esquerda, para que a socialização da produção e distribuição da riqueza social seja possível

A atual pandemia é uma tragédia humanitária terrível, imensurável e catastrófica, mas atinge a humanidade de uma forma diferente de todas as outras que castigaram nossos antepassados, ao longo de muitos milênios e, em grande medida, nos forjaram, biologicamente. Afinal, somos os herdeiros dos sobreviventes. Diferente, porque a humanidade nunca esteve ao mesmo tempo, tão unida e tão fragmentada.

Os impactos devastadores da pandemia em toda a dimensão só serão, plenamente, conhecidos nos próximos meses. A unidade mundial da civilização favoreceu a expansão do vírus em velocidade vertiginosa, como uma calamidade irrefreável. Mas a fragmentação da humanidade em Estados centrais imperialistas e Estados periféricos dependentes, dominadores e dominados, nunca foi tão grande.  

O destino das nações nunca foi tão distinto. Algumas enriquecem, outras mergulham em estagnação, enquanto outras degradam em crescente pobreza. O perigo de que as disputas geopolíticas se agravem em conflito internacional aumenta. A unificação mundial da humanidade nunca pareceu tão distante. Ensina a história, nações que oprimem outras nações não podem ser livres.

O desafio do combate pelo socialismo é a unificação da humanidade em uma Internacional, como exaltamos na nossa canção mais querida. O nome deste projeto deve ser socialismo. O internacionalismo é o coração estratégico do projeto da esquerda, para que a socialização da produção e distribuição da riqueza social seja possível.

A obra histórica mais importante do capitalismo foi impulsionar a formação do mercado mundial liberando a aceleração de forças produtivas, até então, inimagináveis. A humanidade estava ainda dividida em civilizações autárquicas até o século XVI. Na Europa, no Oriente Médio, na Índia, na China, no planalto do México, e na cordilheira dos Andes, entre outras, existiam culturas isoladas e fechadas. Os contatos, quando existiam, eram tênues e irregulares. Muitas nem sabiam da existência das outras.

Foi uma epopeia, ao mesmo tempo, cruel e grandiosa. Brutal, feroz e atroz porque a conquista, impulsionada pela ganância, cobiça e avareza, foi feita com o método do saque, pilhagem, e escravização. Grandiosa porque abriu um caminho para o reencontro da humanidade, depois de quase de dezenas de milhares de anos de dispersão.

Há, aproximadamente, cem mil anos, hordas de pequenos grupos humanos, morfologicamente, modernos, com não mais do que cento e cinquenta pessoas, começaram a sair do continente africano. Caçadores-coletores, eles se disseminaram, muito lentamente, pelo denominado Crescente Fértil. Alguns se dirigiram para a Europa e outros para a Ásia, e de lá, após pelo menos oitenta mil anos, para as Américas. Encontraram pelos caminhos outros grupos humanos, chamados, arcaicos, que absorveram e eliminaram.

Ao final da última glaciação começaram a sedentarização, domesticando algumas plantas e, mais tardiamente, alguns animais; a capacidade produtiva cresceu, impulsionando a divisão sexual e social do trabalho, até o surgimento de classes sociais e do Estado. Surgiram as cidades, que se articularam entre si e organizaram Reinos, depois Impérios, e com eles a escrita, o dinheiro e as heranças. Mas o que prevaleceu até quinhentos anos atrás foi a diáspora do gênero humano.

Ao estimular a crescente integração de um mercado mundial que foi se estendendo até à última fronteira, uma das tendências mais poderosas do desenvolvimento do capitalismo foi fomentar, também, a constituição de um sistema europeu de Estados e, depois, de um sistema internacional de Estados.

O nome deste sistema é ordem mundial imperialista. Esta ordem mundial quase destruiu a vida civilizada em duas guerras mundiais. O capitalismo já demonstrou, portanto, que não pode unificar a humanidade. O capitalismo é um obstáculo intransponível para a tendência mais profunda do desenvolvimento histórico que o próprio capital criou e potencializou. Mas esta tendência é uma possibilidade. Possibilidade é a forma como se manifestam as leis da história. O nome dessa tendência é a unificação da civilização humana.

A ordem mundial se estrutura, pelo menos nos últimos cem anos, como uma ordem imperialista. Mas não existe um governo mundial. O capitalismo não conseguiu superar as fronteiras nacionais dos seus Estados imperialistas e permanecem, portanto, rivalidades entre as burguesias centrais nas disputas de espaços econômicos e arbitragem de conflitos políticos.

Não se confirmou a hipótese de um superimperialismo, uma fusão dos interesses imperialistas dos países centrais, mesmo na etapa político-histórica do pós-guerra, no contexto da chamada guerra fria, entre 1945/1991, quando o capitalismo sofreu a onda de choque de uma poderosa onda revolucionária que subverteu os antigos impérios coloniais.

Os conflitos entre os interesses dos EUA, Japão e Europa Ocidental levaram Washington a, por exemplo, romper, parcialmente com Bretton Woods, em 1971, e suspender a conversibilidade fixa do dólar com o ouro, desvalorizando sua moeda para defender o seu mercado interno, e baratear suas exportações. A concorrência entre corporações e a competição entre Estados centrais não foram anuladas, embora o grau em que se manifestam tenha oscilado. O ultraimperialismo nunca foi senão utopia reacionária.

Mas seria obtuso não reconhecer que o sistema conseguiu construir um centro no sistema internacional de Estados depois da destruição quase terminal da II Guerra Mundial. Ele se expressa ainda, institucionalmente, trinta anos depois do fim da URSS, pelas organizações do sistema ONU e Bretton Woods, portanto, através do FMI, do Banco Mundial, OMC, e BIS de Basileia e, finalmente, no G7. A contrarrevolução aprendeu com a história.

Neste centro de poder está a Tríade: os EUA, a União Europeia e o Japão. União Europeia e Japão têm relações associadas a Washington e aceitam a sua supremacia, desde o final da II Guerra Mundial. A mudança de etapa histórica internacional em 1989/91 não alterou este papel da Tríade e, em especial, o lugar dos EUA[1].

Embora sua liderança tenha diminuído, ainda prevalece. A dimensão de sua economia, o peso de seu mercado interno, o apelo do dólar como moeda de reserva ou entesouramento, a superioridade militar, e a iniciativa política permitiram, apesar de um debilitamento relativo, manter a posição de liderança no sistema de Estados. Mas agora ela está ameaçada pela China.

Nenhum Estado da periferia passou a ser aceito no centro do sistema nos últimos trinta anos. China e, em outra escala, Rússia são Estados que preservaram a independência política, mas ainda são países importadores de capital, dependentes, embora tenham restaurado o capitalismo. Mudanças, entretanto, ocorreram na inserção dos Estados da periferia.

Alguns têm uma situação de dependência maior, e outros uma dependência menor. O que predominou, depois dos anos oitenta, foi um processo de recolonização, ainda que com oscilações. Há uma dinâmica histórico-social em curso e ela é inversa daquela que predominou depois da derrota do nazi-fascismo.

A maioria dos Estados que conquistaram independência política na onda de revoluções anti-imperialistas que se seguiram à vitória da revolução chinesa, coreana e vietnamita perdeu esta conquista: Argélia e Egito, na África, Nicarágua, na América Central, e Vietnam na Ásia são exemplos, entre outros, desta regressão histórica, posterior a 1991. Ainda existem, porém, Estados independentes. Venezuela, Irã e Cuba são exemplos. Mas estão, permanentemente, ameaçados.

Teremos um mundo mais perigoso ao final da pandemia.


[1] Uma excepcionalidade econômica ou anomalia intrigante no mundo contemporâneo desafia nossa compreensão: há mais de vinte anos os EUA têm déficits gêmeos, o déficit fiscal e o déficit comercial. “Gêmeos” porque ambos oscilam em torno de US$500 bilhões.Por que os déficits gêmeos podem ser considerados excepcionalidades, ou anomalias? Porque repousam em um fator político. O papel de gendarme dos EUA na defesa do capitalismo. Deveriam ser, teoricamente, inflacionários, mas não. Reduzindo os custos produtivos no interior dos EUA e, em decorrência, favorecendo o barateamento de suas exportações, mas encarecendo as importações. Mas, na longa duração, o baixo crescimento teve consequências deflacionárias. Porque as outras duas forças competidoras dentro da “Tríade” aceitaram a ruptura de Bretton Woods, mas a luta pela hegemonia nunca se interrompeu, como ensina a experiência histórica: competitividade e cooperação no sistema internacional de Estados se alternam em função das relações de forças. A passagem do Mercado Comum Europeu a União Europeia foi um esforço de unificação de mercados de capitais, de consumo, de força de trabalho e de unificação jurídica que permitiu que o lançamento do Euro tivesse bases sólidas de competição com o dólar pela disputa do entesouramento mundial.A emissão de dólar sem lastro, portanto, sem conversibilidade ao ouro, desde 1972, quando da ruptura unilateral de Nixon com o acordo de Bretton Woods de 1944 que criou o FMI, permitiu o relaxamento monetário (os QE, ou Quantitative Easing), durante dois mandatos de Obama.A mudança de padrões monetários é um processo histórico dos mais complexos.Também foi lenta a passagem da libra ao dólar.  

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum


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