Valerio Arcary

02 de setembro de 2018, 09h12

Valério Arcary: Agora é guerra

O colunista Valério Arcary analisa as cinco principais candidaturas das eleições de 2018 e avalia as propostas de cada uma dessas chapas

Chegou a hora para ver quem tem unhas para tocar guitarra.
Sabedoria popular portuguesa

Vai ficar brutal, vai ficar intenso, vai ficar perigoso. A campanha eleitoral vai virar uma guerra pelas consciências. Dois grandes medos vão medir forças. Aquilo que foi disputado entre 2015 e 2018 nas ruas vai ser agora discutido nas casas e locais de trabalho. De um lado, o medo dos setores mais conscientes da classe trabalhadora e da juventude, dos movimentos feministas e negros, populares e ambientais contra todas as candidaturas que representam os cinquenta tons da herança de Temer e sua agenda. Do outro lado, os medos dos setores mais reacionários contra o que percebem como o perigo comunista e a herança do PT.

Estamos uma nova etapa com a campanha eleitoral nas TV’s. Ficará claro que há dois grandes medos, mas quatro projetos e programas, embora sejam treze candidatos, e trinta e cinco partidos. Por inúmeros fatores, as eleições no Brasil são, comparativamente, mais personalizadas que em outros países. Agora que começa o horário eleitoral nas TV’s a campanha eleitoral vai mudar de qualidade. Ela vai entrar em sessenta milhões de residências. Deixará de ser um assunto restrito somente aos setores, politicamente, mais motivados da sociedade. São quatro projetos, não são dois, nem são seis, oito ou doze.

Na classe dominante há dois campos em disputa. Alckmin e Bolsonaro não são somente duas personalidades diferentes, são dois projetos. Ambos defendem ajustes liberais severos, mas em graus e ritmos distintos. Aqueles que na esquerda se deliciam em chamar Alckmin de fascista se enganam.  Não são iguais. A linha política que nivela todos os inimigos de classe não é mais revolucionária, somente, obtusa.

A imensa maioria da Avenida Paulista sustenta um ajuste liberal gradual. Querem reduzir o deficit orçamental, e uma reforma política que começa pela reforma eleitoral com a introdução do voto distrital, no lugar da proporcionalidade direta. O discurso ideológico dominante que sustenta a candidatura Alckmin é que o os direitos garantidos pela Constituição de 1988, uma conquista da luta social e politica contra a ditadura, são demasiado caros para a capacidade do capitalismo periférico brasileiro. Os deficit primário de 2017 se aproximou de 2% do PIB, menor que o da Argentina, mas o deficit nominal, considerado os custos da dívida, alcançou 7,8% do PIB.

A narrativa da “bala de prata” que vai mudar tudo e atrair uma “chuva de dólares” para impulsionar o crescimento seria a reforma da previdência que deve começar pela introdução da idade mínima de 65 anos. Em resumo: para a economia voltar a crescer e tirar o Brasil da armadilha de países de renda média será necessário reduzir os direitos. Querem fazê-lo de forma, relativamente, gradual. A EC-95 do teto dos gastos estabeleceu variadas metas. Alckmin fala em dois anos, ou seja, chegar ao superávit primário em 2020. Todas as candidaturas que defendem este projeto estão apoiadas em uma aposta: a possibilidade de vitaminar o IED (Investimento Estrangeiro Direto) para um patamar mais elevado que os US$70 bilhões anuais, em função do reposicionamento do governo dos EUA em relação à China. Diminuem o significado das contratendências, em particular: (a) a dinâmica de crescimento nos EUA e o impacto da elevação dos juros do FED para os países periféricos; (b) a força das previsíveis lutas sociais que irão se desenvolver no Brasil, diante da mudança nos padrões de superexploração dos trabalhadores e do povo.

Bolsonaro defende um plano econômico liberal de choque antipopular, mas de forma cirúrgica, em um ano, com cortes draconianos nas despesas. Mas Bolsonaro quer, também, uma mudança no regime político. Quer mais poderes para a presidência e a desvalorização do Congresso (um giro bonapartista), e empoderar as instituições não eleitas, em particular, as Forças Armadas e as Polícias. O discurso neofascista está ao serviço desta defesa de um regime político autoritário.

 Na esquerda há, também, dois projetos diferentes. O mais influente ainda é o do PT. Ele promete voltar a “ser feliz”, ou seja, reafirma a estratégia de regulação do capitalismo através do papel indutor do Estado – o famoso multiplicador keynesiano – que incentivaria o consumo, e este dinamizaria a oferta, e de reformas apoiadas em políticas públicas.

Mas surgiu um processo de reorganização da esquerda em torno de um programa anticapitalista que se expressa através da candidatura Boulos/Sonia: um programa elaborado a partir da experiência das lutas populares, e tem como eixo a defesa da mobilização permanente contra os privilégios, superando a estratégia da conciliação.


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