As ações de solidariedade são um exemplo revolucionário emocionante

Leia na coluna de Valerio Arcary: "Quem tem fome, tem pressa. Todo este empenho, esta doação, esta entrega, nada será em vão. Porque elas provam e ensinam que as pessoas não estão sozinhas, que a fraternidade humana ainda existe"

Milhares de militantes de esquerda estão engajados em ações de solidariedade com os desamparados. As ações que aliviam o corpo combatendo a fome são ações formidáveis, magníficas, maravilhosas. Têm um enorme valor. Quem tem fome, tem pressa. Todo este empenho, esta doação, esta entrega, nada será em vão. Porque elas provam e ensinam que as pessoas não estão sozinhas, que a fraternidade humana ainda existe.

Essas ações ficarão gravadas para sempre nas memórias das famílias assistidas. Aqui também se arrisca a própria vida, pela vida: ninguém ficará para trás! Sinto um enorme orgulho e me emociono quando vejo a militância da esquerda brasileira, atuando no campo de batalha, arriscando suas vidas na distribuição de cestas básicas e máscaras. Assim devem agir revolucionários. Nada é mais importante que a vida do próximo.

Nos últimos dois meses a crise sanitária se transformou em uma calamidade social, com mais 100.000 pessoas, confirmadamente, contaminadas, embora a sub-notificação seja, na melhor das hipóteses de 100%, e mais de 7.000 mortos, um número, também, subestimado. Para a segunda semana de maio, a previsão é que as mortes alcancem mil por dia, e entramos no momento apocalíptico da pandemia. Se for confirmado o pior dos cenários, nas próximas seis semanas, teremos dezenas de milhares de mortes, e o desemprego de mais alguns milhões de trabalhadores.

Não é improvável que o Brasil se transforme no centro mundial da pandemia. Cinquenta milhões de “invisíveis” diante do Estado receberam uma renda mínima de emergência. Mas foram mais de noventa milhões que se apresentaram para pedir o auxílio. Nesse contexto, é perturbador que em ambientes da esquerda radical exista uma diminuição do valor das ações de solidariedade que estão sendo feitas pela esquerda (muitos movimentos populares como MTST e MST, além dos partidos), durante a pandemia. Não é “assistencialismo”. Acompanhá-las com um discurso político educativo é importante, mas as ações em si mesmo possuem um enorme valor revolucionário.

Porque estamos diante de uma catástrofe humanitária mundial que ameaça a vida de milhões em todo planeta com impactos econômicos e sociais profundos, em especial sobre os mais vulneráveis. A fragilidade humana diante do vírus provocada pelo sistema capitalista (sistemas de saúde sucateados, falta de vacinas, etc) foi tanta que não restou outra coisa às pessoas, senão se trancarem em casa em busca de proteção, um último recurso na emergência.

De uma hora para outra, milhões de pessoas deixaram, ou diretamente perderam, seus empregos (e qualquer renda). Era o que tinham para viver. A renda mínima de emergência é completamente insuficiente.

Abandonados pelo “mercado” e pelo Estado, deixados à sua própria sorte, milhões se viram totalmente desprotegidos tendo à sua frente duas ameaças: a morte e a fome. É o efeito que costuma ser provocado pelas grandes catástrofes. Quem lhes pode salvar a vida? Só a solidariedade humana. Não lhes resta alternativa.

A solidariedade ou ajuda mútua cumpre nessas condições o papel que queremos que a revolução cumpra. Sim, claro, não é a revolução socialista.  Mas é uma ação que nos deve fazer recordar o mutualismo da aurora do movimento socialista no século XIX. A defesa da fraternidade humana estava na raiz do socialismo utópico. Nestas condições adquire um caráter revolucionário. Sim, trata-se de um enorme fermento na auto-organização popular. Por isso, tem sido emocionante ver a militância de esquerda mais jovem, e não poucos veteranos corajosos, saindo às ruas para recolher doações e indo entregá-las nos bairros populares e comunidades mais carentes.

Também ocorreram panelaços de solidariedade aos profissionais da saúde que arriscam sua própria vida em defesa da vida, além dos de protestos, lembrando Bolsonaro que, mesmos confinados, seguimos lutando, que não perdemos a esperança, que a luta continua: por ora, estamos em nossos casulos, mas logo sairemos em campo aberto.

São estas ações que preparam o futuro e, por isso, ainda existe esperança. O exemplo das enfermeiras em Brasília no dia 1 de maio foi, também, extraordinário. Primeiro pela coragem de sair para a Praça dos Três Poderes, em frente ao Palácio do Planalto. E depois pela grandeza, altivez e dignidade com que resistiram às provocações dos fascistas. E o mais sensacional foi a ciclista que colocou o provocador bolsonarista para correr.

Um orgulho.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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Valerio Arcary

É professor titular do IFSP. Doutor em história pela USP, estudou na Universidade de Paris e Lisboa entre 1974/78, participou da revolução portuguesa, voltou ao Brasil e se uniu à Convergência Socialista, esteve presente na reconstrução da UNE em Salvador em 1979, na fundação do PT em 1980 e da CUT em 1983, sendo secretário-geral da CUT/São Paulo entre 1985/86. Atuou na Apeoesp entre 1983/90, foi membro da Executiva Nacional do PT entre 1989/92, e foi presidente nacional do PSTU entre 1993/98 e, desde 2016 é membro da Coordenação Nacional do MAIS/PSOL. É autor de O martelo da história, entre outros livros.

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