Valerio Arcary

24 de junho de 2020, 22h57

Ato de sexta é um abraço de urso para a esquerda

Leia na coluna de Valerio Acary: "A disputa pela direção da oposição está em aberto. Se não houve derrota histórica a hipótese que devemos apostar é que a apatia política não vai prevalecer"

Dias Toffoli e Bolsonaro - Foto: Arquivo/Assessoria STF

Quem não sabe contra quem luta não pode vencer. A questão central na luta contra Bolsonaro é a disputa estratégica do poder. O fantasma oculto do Ato de sexta é o apoio da oposição liberal a uma tutela do Congresso e STF sobre Bolsonaro e, se não der certo, o apoio à posse de Mourão, se a crise evoluir mais gravemente, daqui a três ou quatro meses.

É o contrário da luta por Diretas Já. É uma operação ao estilo de Tancredo Neves que subiu nos palanques das Diretas, mas na verdade negociava com Figueiredo a ida para o Colégio Eleitoral. O abraço de Tancredo em Ulysses Guimaraes era um abraço de urso. Agora, outra vez, nada é o que parece ser. Estamos diante de um teatro de sombras. O FHC de hoje cumpre o papel de Tancredo de 35 anos atrás. E querem fazer com Lula, em 2020, o que fizeram com Ulysses em 1984.

O Ato de sexta é uma antecipação de posicionamentos diante do possível, senão provável, agravamento da crise social e política. Infelizmente, já atingiu um dos objetivos da oposição liberal: manipular a ideia poderosa da unidade para dividir a esquerda.

A unidade de ação democrática entre a oposição de esquerda e a oposição liberal é uma tática legítima, e até necessária contra Bolsonaro, dentro e fora do Congresso. A questão principal não é quem estará presente no Ato de sexta do Direitos Já, embora algumas presenças, como a do general Santos Cruz, sejam desconcertantes. O critério que deve definir a presença é, se o que o Ato defende é ou não progressivo e, sobretudo, o que não defende.

O objetivo central do Ato é a defesa do Congresso e do STF contra o governo. O Ato é uma defesa do papel de Maia. O mesmo Maia que não abre sequer uma CPI diante de dezenas de pedidos de impeachment. Não defende a necessidade de interromper o mandato de Bolsonaro, o Fora Bolsonaro. Quem não defende o fim do governo, se posiciona, objetivamente, pela continuidade do mandato até o fim. Apoiar esta estratégia seria um suicídio para a esquerda.

Não haveria nenhuma razão de princípios para não estar presente se o Ato fosse pelo fim do governo Bolsonaro. Mas não é. Podemos estar juntos com a oposição liberal, por exemplo, exigindo a prisão da mulher de Queiroz, a investigação até o fim de quem mandou matar Marielle, ou a transparência de dados sobre a pandemia, ou denunciando a fuga de Weintraub, ou lutando pela extensão do auxílio de emergência sem redução do valor de R$ 600 etc.

O Ato convocado pelo Direitos Já não merece o apoio da esquerda, porque é regressivo. Seu objetivo é fortalecer a pressão do Congresso e do STF sobre Bolsonaro para que aceite uma tutela, como condição para que cumpra o seu mandato até 2022. Em outras palavras, é um Ato de apoio a Maia. Não há nada de progressivo nesse projeto. O Congresso já assumiu grande parte da governabilidade, associado ao STF, nos últimos meses. E vem governando em colaboração com Bolsonaro e Guedes contra os trabalhadores e o povo.   

O álibi invocado é que o Ato seria contra as ameaças de autogolpe de Bolsonaro, em defesa das instituições. Se fosse há três meses, quando Bolsonaro estava na ofensiva, poderia ser levado mais a sério. Mas a conjuntura mudou, e estamos em novo momento. Não há, neste momento, perigo real e iminente de golpe. Bolsonaro se enfraqueceu nas últimas semanas, e está na defensiva. Mandetta renunciou, Moro se demitiu, as investigações sobre a rede subterrânea de fake news impôs um recuo à operação dos robôs e, finalmente, Queiroz foi preso. Ainda tem forças para ensaiar uma contraofensiva, procura fascistizar sua corrente de apoio, mantém posições nas Forças Armadas e polícias, é um inimigo perigoso e tem uma estratégia de subversão do regime. Mas está muito mais isolado, e a dinâmica das crises combinadas reforçam esta dinâmica.

O Manifesto Juntos foi um balão de ensaio com a defesa da “lei e da ordem”. Seu papel era pressionar a esquerda a aceitar um papel subordinado e coadjuvante na oposição. Acontece que a oposição liberal foi derrotada, também, em 2018, pelos neofascistas, não somente a esquerda. Agora o novo Manifesto evoca o “pacto social de 1988” para defender a estabilidade institucional. Temem Bolsonaro, mas têm noites de insônia pensando como estará a sociedade, inclusive a classe média, quando daqui a três meses ficar claro as sequelas da tragédia sanitária, econômica e social.   

O Ato de sexta é uma armadilha para a esquerda. A questão de fundo é que o Brasil caminha para a vertigem de uma crise nacional. As consequências apocalípticas da pandemia, superando os 100 mil mortos até setembro, associada a uma crise social catastrófica assim que for suspenso o auxílio emergencial, colocam a possibilidade de mobilizações de massas para derrubar Bolsonaro. E o Ato de sexta em defesa de Maia é também uma defesa da posse constitucional de Mourão, caso Bolsonaro caia. O grande medo é que caiam os dois e, portanto, antes do fim do ano possam acontecer eleições presidenciais antecipadas.

Os articuladores do Ato de sexta não têm uma candidatura consolidada e competitiva. Doria não sai intacto da crise da pandemia, e das sequelas da crise econômica. Huck seria uma improvisação atabalhoada. Moro não oferece garantias mínimas. E o julgamento de Lula no STF está pendente do voto de Celso e Mello. Prevalece uma incerteza tão grande que até o PSDB, que apoiou Bolsonaro no segundo turno, precisa que FHC seja, politicamente, ressuscitado para limpar sua imagem de cúmplice da eleição do neofascista.

A decisão sobre o que fazer na sexta é de inteligência tática. Na política os tempos são importantes. A esquerda deve disputar a liderança da oposição por dentro ou por fora da unidade na ação, quando e como? Nada mais, mas nada menos do que isso. Por isso é um erro que alguns quadros do PSOL tenham confirmado presença. Enquanto não há condições de mobilizações de massas, a esquerda deve aceitar que a liderança da oposição caia nas mãos de Maia? Mas, por quê?

O protagonismo da oposição liberal com o apoio da mídia é uma fotografia. A esquerda está sem as ruas. E há sinais de que a audiência da esquerda está crescendo. O apoio que ganharam as corajosas ações de rua de vanguarda. E Boulos cravou 10% em São Paulo.

O Ato de sexta é regressivo. Não é que é somente limitado porque não diz Fora Bolsonaro. Há negociações entre Gilmar e os militares, entre o governo e Alexandre de Moraes, e entre Maia e Bolsonaro, todas públicas. A disputa pela direção da oposição está em aberto. Se não houve derrota histórica a hipótese que devemos apostar é que a apatia política não vai prevalecer, e haverá reação de massas ao governo Bolsonaro. Se esta é a aposta, a luta é pela Frente de Esquerda. Com exigências e denúncias, mas por fora desta armadilha travestida de Frente Ampla. É um abraço de urso.

*Este artigo não reflete, necessariamente a opinião da Revista Fórum


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum