Valerio Arcary

03 de dezembro de 2019, 00h38

Dez notas sobre as polêmicas da tática para derrotar Bolsonaro

Valerio Arcary: “A tática eleitoral precisa ter coerência com a estratégia política, mas uma relação dialética. A independência política do PSOL nas eleições deve ser preservada”

Foto: Reprodução/TVT

1-A saída de Lula do cárcere fez mexer as peças no tabuleiro de xadrez da oposição a Bolsonaro. Lendo as declarações de Ciro Gomes (PDT) e dos líderes do PSB parece que a grande polêmica, a controvérsia estratégica, a maior divisão na oposição seria, neste momento, entre quem apoiará ou não Lula contra Bolsonaro, em 2022. Mas não é. É verdade que a fórmula Lula 2022 concentra expectativas de uma solução eleitoral como catarse contra o pesadelo de um neofascista na presidência. Essa expectativa é um viés da mente humana que tem preferência pela repetição e pela simetria. Mas 2022 não será como 2002, a história não se repete. Bolsonaro está na presidência, e isso muda tudo. As eleições de 2022 estão muito longe, e sem uma inversão qualitativa da relação social de forças, Lula não poderá ser candidato. A burguesia brasileira não apoiou “distraída” o golpe o golpe de 2016. Perón sofreu o golpe na Argentina em 1955 e só conseguiu concorrer nas eleições de 1974, depois da semi-insurreição operária e popular do Cordobazo em 1969. Não vai ser diferente no Brasil. Sem derrotar a Lava Jato nas ruas Lula não poderá concorrer contra Bolsonaro nas eleições. Não é um segredo.

2-A verdadeira disputa na oposição é entre a linha de “pacificação” ou da “polarização”. A questão de fundo é quem terá a liderança da oposição a Bolsonaro. A questão estratégica é se a oposição será ou não contra, irredutivelmente, o ajuste neoliberal que Guedes comanda. Os defensores da tática da “Frente Ampla” querem que Lula e o PT renunciem, desde já, incondicionalmente, a ter candidato em 2022. Querem que o PT assuma a tática “Cristina Kirchner”, esquecendo que no Brasil houve um golpe em 2016. Querem que Lula aceite que não poderá ser candidato, portanto, renuncie à luta contra a Lava Jato. Por isso, são contra a campanha Lula Livre. Pior ainda, querem que Lula admita, desde já, que um candidato do PT não poderá vencer em um segundo turno, e aceite transferir apoio para uma candidatura da Frente Ampla. Exigem que o PT cometa um harakiri político. O que é algo bizarro, surrealista.

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3-Dizer as coisas como são é um imperativo da honestidade intelectual. Quem não defende Lula Livre não é consequente na oposição a Bolsonaro. Fórmulas escapatórias como “Lula preso ou Lula Livre é uma questão de justiça” ou, mais dissimulada, “Lula merece um julgamento justo”, são uma capitulação imperdoável à ofensiva reacionária. Trata-se, evidentemente, de uma cortina de fumaça para explorar, também, mais uma vez, o antipetismo. Defender Lula Livre não é o mesmo que fazer campanha antecipada por Lula em 2022. O PSOL defende Lula Livre desde a sua prisão, mas lançou a candidatura Boulos em 2018. Mas é sim defender o direito de Lula poder ser candidato em 2022. A verdade nua e crua é que não se pode lutar contra todos ao mesmo tempo. Quem considera decisivo, vital e central denunciar a polarização contra Bolsonaro, e sublinhar as diferenças com Lula e o PT, enquanto se precipita um golpe na Bolívia, e o bolsonarismo ameaça com um AI-5, se a oposição se comprometer a tentar organizar mobilizações de massas contra o governo, faz uma escolha estratégica irreversível: não quer derrotar Bolsonaro antes de 2022.

4-A criminalização do PT, para avançar na destruição da esquerda, impor uma derrota histórica aos trabalhadores e ao povo, como em 1964, e facilitar o ajuste econômico social não é apenas um ataque ao PT. Somente quem entrou em estado catatônico, passou para o estado vegetal e está fazendo fotossíntese é que não sabe que Lula está solto, mas não recuperou os direitos políticos. Os direitos políticos de Lula concentram toda a luta pelas liberdades democráticas.

5-A divisão na oposição é entre quem defende, incondicionalmente, o respeito ao mandato de Bolsonaro por mais três anos, como Ciro Gomes, que lidera um campo de apoio à governabilidade, com o PSB, Rede, PV e, dissimulado, de alguns governadores do PT Camilo Santana, Rui Costa e Wellington Dias. No outro campo estão aqueles na esquerda, como uma parcela mais combativa do PT e do PCdoB, o PSOL, a Consulta Popular, o PCB, a Unidade Popular, organizações das Frentes Brasil Popular e Povo sem Medo, como o MTST, que defendem que este governo deve ser derrotado o mais rápido possível, antes de 2022, porque o perigo da ameaça neofascista é grande demais.

6-A soltura provisória de Lula não deve alimentar qualquer ilusão. Não foi, infelizmente, a força da mobilização popular o fator que explica a vitória democrática, pela estreita margem de um voto, na sessão do STF de 7 de novembro último. O governo Bolsonaro, aliado à Lava Jato, com o apoio da classe dominante, e respaldo da maioria da classe média exercerá pressão inflexível sobre os tribunais para impedir que Lula recupere o direito de ser candidato em 2022.

7-A primeira grande batalha do ajuste econômico-social, a reforma da Previdência Social, apesar de um conteúdo antipopular, passou com níveis de resistência insuficiente. A juventude estudantil foi a maior protagonista da única grande mobilização de massas em maio. Mas a classe trabalhadora e seus aliados sociais entre os oprimidos ainda não se colocaram em movimento. A hora das batalhas decisivas está na nossa frente, não ficou para trás. Há muita torcida na análise econômica sobre o papel do aquecimento da demanda no mercado interno, mas o que ainda prevalece é a incerteza. A deterioração ininterrupta das condições da vida material das massas desde 2015 é a determinação chave do contexto da resistência.

8-O PT está em uma encruzilhada: não pode apostar somente na tática quietista e aguardar, pacientemente, as eleições, porque Lula permanece refém da Lava Jato; mas não consegue se transformar em um ponto de apoio para uma mobilização que desestabilize Bolsonaro, porque se deformou em partido eleitoral. Não haverá um “momento Jeremy Corbyn”. Mas o último Congresso do PT confirmou, também, que ainda há na esquerda petista quem tem instinto de classe, reservas ideológicas, força moral e determinação política para lutar. Lula pode cumprir o papel de um catalisador na resistência, se ocupar um lugar na primeira linha da defesa de um programa que expresse os interesses dos trabalhadores. Em química, o catalisador é uma substância que altera a velocidade de uma reação. Se o fará ou não, veremos. Lula sempre foi uma liderança moderada. Mas é bom lembrar que os moderados também lutam. E quando estão encurralados, lutam seriamente. Lula sabe que pode voltar para a cadeia. A autoridade de Lula pode ser um ponto de apoio muito importante na luta contra Bolsonaro. Mas a construção de mobilizações de massas em grande escala não depende somente de Lula. Aqueles que fantasiam que basta um chamado de Lula para se deflagrar uma greve geral nacional e derrubar Bolsonaro se enganam. As derrotas acumuladas ainda pesam na consciência de dezenas de milhões.

9-A luta contra Bolsonaro coloca a esquerda brasileira, em especial o PSOL, diante de um desafio titânico. Desde o fim da ditadura, em meados dos anos oitenta, nunca tivemos que enfrentar um inimigo tão poderoso. Subestimar Bolsonaro e o arco de alianças sociais e políticas que o sustentam, será fatal. Nenhum partido, nenhuma Central, nenhum movimento social, nenhuma Frente, sozinha, poderá enfrentar Bolsonaro. Impõe-se a necessidade de trabalhar, leal, sincera e integralmente, por uma frente única de classe para construir a luta de massas nas ruas. E não há frente única sem o PT e as organizações onde o petismo é a força política mais influente.

10-A participação do PSOL nesta Frente Única de classe não diminui o PSOL, ao contrário, o engrandece. E devemos saber que a “geografia política” das alianças deve ser variável. A Frente única de classe contra Bolsonaro, erguida com um programa comum, é a prioridade: PT, PSOL, PCdoB, as Centrais, as Frentes Brasil Popular e Povo sem Medo, os movimentos de mulheres, negros, estudantil. É a prioridade porque são essas forças que lutam tanto contra Bolsonaro quanto contra Guedes. Mas não é incompatível com iniciativas democráticas mais amplas de unidade de ação com todos aqueles dispostos a dizer não às arbitrariedades neofascistas do governo Bolsonaro, incluindo as representações burguesas. Em defesa das liberdades fazemos unidade com todos e qualquer um. A integração do PSOL nessa Frente de classe para a resistência de massas contra Bolsonaro não é o mesmo que renunciar à apresentação de candidaturas próprias no primeiro turno das eleições municipais de 2020. As candidaturas do PSOL em 2020, como fez Boulos em 2018, não serão um obstáculo para a Frente Única de classe nas ruas, ao contrário, serão um ponto de apoio para fortalecer a esquerda de conjunto contra os neofascistas. A tática eleitoral precisa ter coerência com a estratégia política, mas uma relação dialética. A independência política do PSOL nas eleições deve ser preservada.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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