Flávio Dino e a esquerda de punhos fechados, mas com as mãos nos bolsos

"O artigo de Flávio Dino em que invoca Mandela para defender que a esquerda deve se integrar em uma Frente amplíssima para 2022 merece uma reflexão sobre a estratégia para derrotar Bolsonaro"

                                                                         As ações falam mais alto que as palavras

 Sabedoria popular árabe

Flávio Dino e o PCdoB são importantes na esquerda brasileira, e suas opiniões merecem ser consideradas, seriamente, e com muito respeito. O artigo de Flávio Dino em que invoca Mandela para defender que a esquerda deve se integrar em uma Frente amplíssima para 2022 merece uma reflexão sobre a estratégia para derrotar Bolsonaro:

“as disputas entre os progressistas giram mais sobre fatos pretéritos do que sobre propostas para o futuro. Portanto, é preciso priorizar mais o futuro dos cidadãos do que o “julgamento” de erros do passado. Necessitamos de uma ampla união progressista que livre o Brasil do bolsonarismo. Lulistas, trabalhistas, socialistas, comunistas, verdes, social-democratas, todos têm um grande papel”.[1]

Evidentemente, o contexto político-histórico é muito diferente. Mandela saiu da prisão em 1990, quando a situação na África do Sul era pré-revolucionária, e o país era, ao lado do Brasil, um dos campeões mundiais em número de greve. Foi eleito pelo CNA (Congresso Nacional Africano), em 1993, uma organização legal sem qualquer presença de representação política de frações da burguesia branca, e que tinha no seu interior um dos partidos comunistas mais poderosos do mundo. Mas é verdade que venceu após a negociação de uma transição pactuada do regime do apartheid, que oferecia garantias à classe dominante, como o controle do mandato do Banco Central. 

O centro do argumento de Flávio Dino é que uma candidatura que seja a expressão somente de uma frente de esquerda não poderá impedir Bolsonaro de conquistar um segundo mandato. 

Nas suas palavras: Se ficarmos presos à configuração política que levou ao desfecho das eleições de 2018, provavelmente ele se repetirá. É hora de olhar para o futuro”.

Em uma palavra, a defesa de uma tática Kirchner, mas ainda mais assertiva. A primeira observação que se impõe, e que é do tamanho do Pão de Açúcar, é que é impossível hoje elaborar hipóteses sobre qual será o cenário do Brasil para o próximo ano, o que dizer de qual será a relação política de forças em um segundo turno de 2022. Simplesmente, não é possível.  A segunda é que não há razões, em função da conjuntura aberta desde março, e a simultaneidade de uma calamidade humanitária e uma crise econômica catastrófica, para excluir a possibilidade de derrotar Bolsonaro antes das eleições de 2022. A terceira é que em um artigo que reduz a discussão da estratégia contra Bolsonaro ao debate da melhor tática eleitoral para 2022, Lula não é citado. 

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Acontece que a luta pelos direitos democráticos de Lula ainda não acabou. Pode-se avaliar como incerto, difícil, e até improvável, mas uma luta só termina quando acaba. Não é preciso ser lulista ou petista para concluir que a disputa está em curso. O que fizeram com Lula podem fazer com qualquer um de nós. Lula não está condenado pelos seus erros, mas pelo que representa para a classe trabalhadora. Ainda não se encerrou a luta político-jurídica do julgamento de seu Habeas Corpus no STF, que deverá acontecer até o final de outubro, e depende, sobretudo, de Celso de Melo.           

O argumento oculto no artigo é que, se vier a ser confirmado que Lula não poderá ser candidato em 2022, e não havendo nenhum candidato no PT, PSol e, presume-se, também no PCdB, com a mesma influência, a esquerda deve considerar, desde já, o apoio a uma candidatura que não venha de suas fileiras. Ou seja, quem senão Ciro Gomes?

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Anteriormente, o tema da relação da esquerda com os partidos de centro-esquerda, e até setores da oposição liberal ao governo Bolsonaro, já tinha sido evocado buscando inspiração na unidade na ação, quando da campanha pelas Diretas Já em 1984. Mas é bom lembrar que essa discussão já tem uma história, e ela começou em 2018.

No primeiro turno da campanha eleitoral de 2018 existiram três posições centrais na esquerda. Talvez seja interessante recordar aqueles debates de tática para compreender as discussões que se colocam hoje. 

Vingou no PT a ideia de defender a candidatura de Lula até o limite máximo legal, para depois substituí-lo por Fernando Haddad. Ciro Gomes não aceitou ser pré-candidato a vice-presidente de Lula, e se lançou como candidato desde o início. E o PSol apresentou a candidatura de Boulos/Sonia Guajajara, esclarecendo que não se alinhava com a defesa do balanço dos treze anos dos governos de coalizão liderado pelo PT, mas deixando claro a defesa incondicional dos direitos democráticos de Lula. No segundo turno o PSol e a candidatura Boulos/Guajajara se engajaram na campanha de Fernando Haddad, mas Ciro Gomes optou pela ausência e viajou, uma forma inescapável de neutralidade.

Nesse contexto, o PCdB apresentou a pré-candidatura de Manuela D’Ávila à presidência, porém, defendeu durante meses a necessidade de uma candidatura de Frente Ampla, que não poderia ser outra senão o apoio a Ciro Gomes para, finalmente, aceitar a indicação de Manuela D’Ávila como vice-presidente da candidatura Haddad.

O argumento principal em defesa de uma candidatura de Frente Ampla em 2018 foi que a rejeição ao PT e, em especial, a Lula, era um obstáculo intransponível no caminho de uma vitória eleitoral. A vitória de Bolsonaro tem sido esgrimida, desde então, como uma confirmação desta análise. 

Mas este contrafactual não tem sustentação em uma interpretação serena e objetiva do que, realmente, aconteceu. Por uma razão simples: porque a derrota de Haddad no segundo turno não demonstra que, se Ciro Gomes tivesse sido o candidato teria vencido. A derrota de Haddad não prova que uma vitória de Ciro seria provável. Contrafactuais são argumentos plausíveis, mas precisam estar ancorados em um exercício lógico sério. Contrafactuais são úteis, mas pensamento mágico é perigoso. O passado deve ser compreendido como um campo de possibilidades. Um campo de possibilidades significa que, embora tenha se afirmado, finalmente, uma sequência de acontecimentos, a luta político-social poderia ter tido outros desenlaces. 

Dizer que outros desfechos eram plausíveis não autoriza concluir que qualquer resultado era possível. Três contrafactuais foram muito discutidos na esquerda, e merecem a nossa atenção: (a) Lula poderia vencer as eleições, se não tivesse sido preso? (b) se o PT tivesse apoiado Ciro Gomes, desde o primeiro turno, Bolsonaro poderia ter sido derrotado? (c) Bolsonaro teria vencido o primeiro turno, se não tivesse sido vítima do atentado da facada?

Nunca saberemos se Lula poderia ou não ter vencido, mas é razoável concluir que a disputa era possível, porque Lula conseguiu transferir dezenas de milhões de votos para Haddad. Em todas as pesquisas realizadas, Lula pontuava o dobro de Bolsonaro, e era favorito. O mesmo não se pode afirmar se Ciro Gomes tivesse sido candidato com o apoio do PT. A suposição de que a rejeição ao PT e toda a esquerda não atingiria Ciro Gomes é somente um cálculo, uma hipótese, uma conjectura. Nunca saberemos, mas o fato irrefutável que é que teve no primeiro turno cerca de um terço da votação de Haddad. Por outro lado, não parece um exagero afirmar que o atentado da facada em 6 de setembro foi, sem dúvida, o fato decisivo das eleições. Porque a condição de vítima o poupou da exposição em debates. 

Mas o artigo de Flávio Dino vai ao grão quando sugere que é necessária uma sinalização para frações oposicionistas da burguesia para uma reaproximação com a maioria das camadas médias. Uma nova iniciativa, mais contundente que a Carta aos brasileiros de 2002. Não vai ser o bastante um programa, será necessária uma cara nova: 

“Para uma nova estratégia capaz de superar o interregno em uma boa direção, é essencial ampliar a audiência do pensamento progressista, alcançando homens e mulheres não engajados em movimentos ou partidos. Este é o mais importante “centro” a ser alcançado. Ocorre que, para chegar até ele, alianças e modulações programáticas são imprescindíveis”. 

Modulações sociais é uma forma quase poética para defender um programa que possa tranquilizar a classe dominante. A relação da classe média com a esquerda é um tema importante demais para ser tratado de forma tão elíptica. Acontece que a classe média brasileira não ocupa na estrutura social brasileira um lugar semelhante ao da classe média argentina. Até porque não foi somente a maioria da classe média que votou em Bolsonaro. Ninguém vence eleições majoritárias no Brasil apoiado somente na classe média, nem em Barueri, cidade do enclave de Alphaville. Há, infelizmente, também, trabalhadores reacionários. 

A avalanche que garantiu o triufo eleitoral de Bolsonaro foi um processo muito mais profundo que as oscilações da campanha eleitoral, e remete, em primeiríssimo lugar, à ruptura da burguesia com o governo Dilma Rousseff depois da demissão de Joaquim Levy. Esta ruptura se apoiou: (a) no deslocamento radical da classe média e de setores da classe trabalhadora no sudeste e sul diante dos governos do PT; (b) numa dinâmica que começou com o mensalão, passou pela degradação da situação econômico-social depois da crise de 2008/09, deu um salto a partir de 2013 quando grupos fascistóides saíram às ruas, e agravou-se, qualitativamente com a Lava Jato.

Os fatores determinantes foram quatro: (a) a estagnação com viés de queda da renda dos setores médios com o impacto da inflação dos serviços, e o aumento dos impostos; (b) o envenenamento da consciência popular de que a vida piora porque os governos são corruptos, especialmente, o do PT, porque trabalhadores no poder se lambuzam; (c) o aumento da violência urbana, das taxas de homicídio e o fortalecimento do crime organizado; (d) a reação de um setor mais arcaico e retrógado da sociedade, mais racista, misógino e homofóbico, ao impacto da transição urbana, geracional e cultural da sociedade. 

Em resumo: não podemos assustar. Há uma esquerda de punhos fechados, mas com as mãos nos bolsos.      


[1] https://vermelho.org.br/2020/07/23/flavio-dino-caminhar-com-mandela/

*Esse artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.

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Valerio Arcary

É professor titular do IFSP. Doutor em história pela USP, estudou na Universidade de Paris e Lisboa entre 1974/78, participou da revolução portuguesa, voltou ao Brasil e se uniu à Convergência Socialista, esteve presente na reconstrução da UNE em Salvador em 1979, na fundação do PT em 1980 e da CUT em 1983, sendo secretário-geral da CUT/São Paulo entre 1985/86. Atuou na Apeoesp entre 1983/90, foi membro da Executiva Nacional do PT entre 1989/92, e foi presidente nacional do PSTU entre 1993/98 e, desde 2016 é membro da Coordenação Nacional do MAIS/PSOL. É autor de O martelo da história, entre outros livros.

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