Valerio Arcary

07 de novembro de 2019, 20h38

Impeachment é uma tática parlamentar errada e obedece a uma estratégia política precipitada

Valerio Arcary: "Sim, temos pressa. Mas devemos aprender a cultivar a paciência revolucionária de acompanhar o povo, e lutar ao seu lado"

Foto: Reprodução/TV Globo

A discussão sobre o uso da tática do impeachment de Bolsonaro voltou pelas mãos de um deputado do MES, corrente interna do PSOL. O pedido de impeachment desperta simpatia, o que é fácil de compreender depois de 300 dias terríveis de Bolsonaro.

Aliás, já foram apresentados três, desde janeiro, todos engavetados. Trata-se de uma iniciativa improdutiva, portanto, um erro, porque será arquivado, sumariamente, por Rodrigo Maia. Sim, essa é uma prerrogativa da presidência da Câmara dos Deputados. Enquanto a relação social e política de forças não mudar, favoravelmente, todos os novos pedidos terão o mesmo destino. Serão manchete de um dia na internet, e nada mais. Os Atos de 5 de novembro foram muito combativos, especialmente o de São Paulo, debaixo de um dilúvio bíblico, porém, ainda apenas alguns milhares.

Estamos próximos do fim do ano e o balanço da capacidade de mobilização da esquerda contra o governo, até agora, não é muito animador. Mas isso não se deu, como alguns pensam, porque a esquerda só se dedica à campanha pela liberdade de Lula, e não está disposta a lutar pelo Fora Bolsonaro. A verdade nua e crua é que a campanha por Lula Livre teve, também, imensas dificuldades de mobilizar.

Qualquer avaliação honesta das dificuldades de construir mobilizações de massas contra o governo deve partir da realidade incontornável de que a autoridade da esquerda diminuiu, a desmoralização social pesa e só conseguimos peso de massas em torno de bandeiras de direitos ameaçados, ou reivindicações concretas defensivas.

A idealização de que a classe trabalhadora ou a juventude estão sempre dispostas à luta política é uma forma de pensamento mágico. A busca do caminho da luta coletiva só ganha corações e mentes em situações especiais. Pensamento mágico é deixar contaminar o estudo racional da realidade pelo nosso desejo.

Os sindicatos, que ainda são as organizações mais importantes, estão com pouquíssima capacidade de mover os trabalhadores para as lutas. Não foi diferente nos movimentos por moradia, nos movimentos de mulheres, no movimento negro, no movimento ambiental, nos movimentos culturais. Só o movimento dos estudantes em maio foi exceção. As derrotas acumuladas desde 2015/16 deixaram sequelas.

Isso não que dizer que não há balanços severos a serem feitos na esquerda. Governadores do PT, como Rui Costa na Bahia, ou do PCdoB, como Flávio Dino, no episódio da Base de Alcântara, recusam-se a ser um ponto de apoio para a mobilização de massas. Alguns têm se posicionado pela defesa da governabilidade de Bolsonaro até 2022. Não se engajaram de verdade diante dos ataques às universidades, da reforma da Previdência, dos incêndios na Amazônia e no Cerrado e por aí vai. A Executiva Nacional do PT, ao silenciar, é cúmplice. Mas esta crítica não autoriza a conclusão de que teria sido possível colocar milhões nas ruas pelo Fora Bolsonaro, se tivessem agido de outra forma.

São três, essencialmente, as posições em debate. Há aqueles que defendem o quietismo, os que defendem a ofensiva permanente e os que defendem a Frente Única. Estes conceitos têm uma história e remetem ao repertório acumulado pela esquerda marxista mundial. O quietismo está associado à orientação do SPD o partido da socialdemocracia alemã sob a orientação de Kautsky. A ofensiva permanente era a posição de Bela Kun, líder húngaro da III Internacional para a situação alemã, que resultou na derrota da revolução em 1923. A tática da Frente Única foi elaborada sob a inspiração de Lênin e Trotsky.

Os que defendem o quietismo partem da premissa que sofremos uma derrota histórica. Concluem que a situação é contrarrevolucionária, e exigirá anos para uma recuperação da capacidade de luta e o maior perigo é um autogolpe, portanto, não podemos provocar.

Os que defendem a ofensiva permanente partem da premissa que a derrota foi, essencialmente, eleitoral, as forças da classe trabalhadora estão intactas, a situação é pré-revolucionária e a expectativa é uma derrubada, mais ou menos iminente, do governo, e não podemos hesitar.

Por último, estamos aqueles que consideramos que ocorreu uma derrota político-social grave, de tipo estratégico, avaliamos a situação como reacionária e temos a expectativa de um período defensivo, em que a resistência precisa acumular forças para ter capacidade de contraofensiva, e não podemos vacilar.

A proposta de impeachment é sustentada por uma minoria de partidos, organizações, correntes e lideranças que defendem a ofensiva permanente e, embriagados com a popularidade do Fora Bolsonaro na militância mais combativa, descuidam de fazer uma análise séria da relação social ou política de forças.

Se o fizessem, teriam que considerar que o governo mantém uma devastadora ofensiva, até o momento, incontível. Porque apoiado, em primeiro lugar, na embaixada norte-americana, no apoio da imensa maioria dos capitalistas animadíssimos com os pacotes sucessivos de Paulo Guedes; nas Forças Armadas e nas polícias; na maioria reacionária no Congresso Nacional; no Supremo Tribunal Federal e na maioria da classe média abastada. Enquanto na classe trabalhadora e no povo ainda prevalece o desânimo e a insegurança, quando não a confusão.

Nos Atos dos últimos meses – ações de vanguarda com alguns milhares de abnegados ativistas – tem tido ampla adesão o Fora Bolsonaro, como expressão de Basta, Chega, e isso alimenta ilusões. Ao que parece teve repercussão no Rock in Rio, o que é ótimo. O Fora Bolsonaro como palavra de ordem de agitação, sinônimo de Basta, chega, é útil.

Mas abraçá-lo como eixo da estratégia política, ou seja, Abaixo o Governo, significa que se considera que estão reunidas as condições objetivas e subjetivas para tentar derrubar Bolsonaro, aqui e agora, E isso é precipitado. Porque essas condições, infelizmente, ainda não existem. E dedicar todas as forças empenhadas em uma campanha que não podemos vencer, porque não temos forças, só pode gerar desmoralização. Oxalá a situação evolua, rapidamente, e então será correto e oportuno.

Enquanto a experiência prática das massas não se esgotar, é imprudente. Isso exige tempo, e os 300 dias não foram, infelizmente, suficientes. Sim, temos pressa. Mas devemos aprender a cultivar a paciência revolucionária de acompanhar o povo, e lutar ao seu lado.

Mas vale a pena lembrar que o impeachment e o Fora Bolsonaro são duas dimensões de luta políticas diferentes, embora conectadas. A tática do impeachment é somente uma tática parlamentar. Porque sendo parlamentar ela é uma iniciativa dentro do Congresso, aproveitando um dispositivo legal, que deve estar articulada e, sobretudo, subordinada a uma estratégia política para a questão do poder.

Mas, esse estado de ânimo vai passar.

Não há razão para desespero, a mobilização social e política contra Bolsonaro virá.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.


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