Memórias frágeis (3): 1973, o movimento secundarista – Por Valerio Arcary

"Minha primeira manifestação foi aos dezesseis anos. Foi glorioso desafiar a ditadura, e não há palavras para descrever a excitação moral e a euforia juvenil que tomou conta de nós"

Tive a mais comum das iniciações no movimento estudantil pós-68, debaixo de um regime ditatorial. Fui a assembleias, distribuí panfletos, participei de passeatas, e corri muito da polícia. E também fiz bobagens infantis ou, como se diz em Portugal, disparates. Alguns, inúteis.

Mas assisti episódios sensacionais. Existem histórias tão incríveis que não importa se, rigorosamente, verdadeiras ou não, porque expressam o espírito da época. Parece que a reunião do movimento estudantil tinha chegado, depois de horas de discussões insolúveis, e das questões de ordem de praxe mais esdrúxulas a um impasse.

Os membros das tendências mais à esquerda, as correntes revolucionárias, tinham esgotado os seus argumentos. E sabiam que iam, quase certo, perder a votação. Já estavam resignados. Eram, naqueles tempos, uma pequena minoria e, se de vez em quando, conseguiam algum eco para suas propostas, era somente em situações excepcionais, porque a pressão pela mobilização tinha subido de temperatura a tal ponto que os reformistas, ou moderados, não podiam deixar de procurar uma solução com o receio de perder a sua liderança.

Ninguém se lembra ao certo se o que se discutia era fazer ou não uma passeata, ou pior, se se tratava de algo mais trivial, como o local de concentração. Mas, não restam dúvidas que uns e outros se atacavam implacável e impiedosamente. E sem qualquer cuidado de poupar as palavras: de “provocação” a “traição” tinham se insultado, sem pudores, durante horas.

Foi então, que em nome dos “esquerdistas”, ele pediu a palavra: “Muito bem, acho que finalmente entendi o porquê de nossas diferenças. E me vejo obrigado a retirar todas as críticas que acabei de fazer: faço a autocrítica. Vocês têm razão, não entendo como não percebi antes. Damos um passo em frente, e depois dois passos atrás. Em seguida damos de novo um passo em frente e, para surpresa de nossos inimigos, damos cinco passos atrás. E continuamos assim, dez passos atrás, cinquenta passos atrás. Eles vão se iludir pensando que estamos mais fracos, e por isso, recuamos ou batemos em retirada. Pode até parecer uma fuga… Mas não importa, como o mundo é redondo, um dia desses, a gente surpreende o salazarismo pelas costas.”

Minha primeira manifestação foi aos dezesseis anos. Foi glorioso desafiar a ditadura, e não há palavras para descrever a excitação moral e a euforia juvenil que tomou conta de nós. Em minutos, estávamos cercados pela polícia, que quase sempre sabia quando e aonde iam ser as passeatas, porque o movimento estudantil era vigiadíssimo, e estava infiltrado. Invariavelmente, alguns dos nossos eram detidos, para serem soltos no dia seguinte. Claro que éramos dominados pelo medo. Além de ser preso, a detenção envolvia uma convocação dos pais, a informação da lista era repassada ao reitor de cada liceu, mas todos tínhamos a certeza que os riscos valiam a pena. A recompensa, uma sensação de plenitude e orgulho, era incrível. Nossa ousadia só perdia para nossa ingenuidade.  

No início de 1973 iniciei um ativismo no MAEESL (Movimento Associativo dos estudantes do ensino secundário de Lisboa), onde atuavam duas correntes, a juventude do PC pró-soviético e uma corrente maoísta pró-albanesa. Os socialistas de Mário Soares inexistiam. Tendo amigos do tempo do primário nas duas correntes, permaneci independente, e não me alinhei com nenhuma.

No final do ano uma Assembleia Geral de Estudantes de todos os liceus foi convocada para o porão do Hospital de Santa Maria, vinculado à Universidade e ao curso de medicina. A reunião decorria sob alguma tensão. A disputa entre as diversas tendências já organizadas em grupos associativos distintos: a tendência “por um ensino popular” (maoísta), as tendências Grito e Outubro e Grupo de Estudantes (ambas trotskistas, a quem me uni) e a tendência “unidade estudantil” (PCP).

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Estava intensa a discussão e chega a informação de que um grande contingente policial, de várias dezenas de policias, estava a cercar o Hospital de Santa Maria. Mas descobrimos que estávamos cercados pela PIDE que invadiu e prendeu todos que conseguiu. Em um momento de lucidez angustiada, mergulhei dentro de um enorme cesto da lavanderia hospitalar e ali fiquei por uma hora coberto por lençóis sujos. Uns cento e cinquenta colegas, rapazes e moças, entre os quinze e dezoito anos tiveram menos sorte e foram presos. Os rapazes sofreram a raspagem do cabelo, naquilo que ficou conhecido como a “carecada” e que, em vez de surtir o efeito de desmoralização ou vexame, acabou sendo um símbolo de orgulho.

O perigo de um serviço militar de quatro anos e da convocação para a guerra colonial incendiava a revolta. Alguns se preparavam para fugir do país. Desde 1972 o movimento universitário estava em ebulição depois que a PIDE assassinou Ribeiro dos Santos numa reunião na Faculdade de Economia. Em alguns liceus de Lisboa, as ações de grupos estudantis eram regulares.

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Constituí com meus amigos no D. Pedro V um grupo próprio que publicava um boletim chamado “Luta”. Não tínhamos contato com nenhuma organização política. Devorávamos, sozinhos, os livros básicos de introdução ao pensamento socialista: Manifesto Comunista, de Marx e Engels, e o capítulo Socialismo Utópico e Socialismo Científico, do Anti-Duhring, de Engels, entre outros. Éramos completamente autodidatas em marxismo.

Nessa época tive o primeiro contato com a obra de Leon Trotsky, através de “A Revolução Traída”, que não fui capaz de compreender, mas que me impressionou. Lembro até hoje a livraria em que o achei, o que não era fácil em Lisboa. E fiquei completamente seduzido e fascinado por um pequeno livro de Mandel, “Dez perguntas e dez respostas sobre a história do Partido Comunista da URSS”, que relatava de forma muito mais simples as condições históricas e o processo político que conduziu à supremacia do estalinismo. Era-me apresentada uma bandeira socialista sem manchas, e isso foi o bastante.

Por que a militância? Talvez tenha me sentido convocado porque era um jovem muito sério. Não sei explicar porque fiquei tão intensamente motivado pela necessidade inadiável de mudar o mundo. A luta contra a ditadura me parecia, simplesmente, um imperativo moral incontornável.

Não tinha ressentimentos sociais, e não era especialmente inconformado. Era rebelde, mas não me recordo de ter sido um revoltado, como se diz. Não tinha me alienado das necessidades de convivência social dos jovens de minha geração. Frequentava os bailinhos e ensaiava uma aproximação com as garotas.

Já antes do 25 de abril havia assimilado a Revolução de Outubro como uma referência, mas não alimentava simpatia pela gerontocracia soviética, e desprezava a forma ditatorial dos regimes que se reivindicavam socialistas. Resumo da ópera: cheguei ao marxismo por uma das suas tendências mais minoritárias e mais críticas. Aos dezesseis anos já me definia como comunista, mas minha simpatia era pela Quarta Internacional, embora não tivesse senão uma apreciação romântica de que o socialismo deveria significar com mais igualdade e mais liberdade. Presumia, também, que o socialismo que eu queria não existia ainda em nenhum país. Tampouco tinha qualquer contato orgânico com organizações revolucionárias.

Com o 25 de Abril nasci uma segunda vez, como se diz, diante de grandes vendavais históricos que arrastam nossas vidas. A revolução portuguesa mudou e marcou, severamente, o meu destino. Durante esses anos, entre 1974/78, a revolução foi a minha passagem para a vida adulta, a minha escola. O que existiu de extraordinário na revolução dos cravos não foi o colapso da ditadura na madrugada do 25 de Abril, embora tenha sido espetacular, mas a entrada em cena de milhões de pessoas, em sua maioria trabalhadores e jovens, como protagonistas.

Quando começou o ano de 1974, tinha dezessete anos e estava diante de escolhas muito importantes e hesitava. Na minha cabeça de adolescente a referência de profissão ainda era o Itamaraty, onde afinal minha mãe trabalhava. Não tinha, é claro, nenhuma simpatia pelo Governo Brasileiro de então, mas compreendia, sob a influência de minha mãe, que a diplomacia servia ao País e não, estritamente, ao governo em Brasília.

Aliás, apesar de minha adaptação bem sucedida ao país, nunca tinha perdido a identidade como brasileiro, embora, naquela época, fossemos muito poucos em Portugal. Esse processo não ocorreu com meu irmão mais novo. O que, aliás, é comum em jovens que ficaram muito tempo no exterior e depois se sentem desenraizadas.

Eu sabia muito bem qual era minha identidade nacional. Eu não somente era, mas tinha escolhido e me orgulhava de ser brasileiro. Aliás, a situação não me permitia ter ligeireza sobre o tema, entre outras razões, porque sentia o pânico que se apoderava de meus amigos mais próximos com a proximidade do alistamento militar, sofrimento do qual estava poupado.

Decidi me apresentar para o exame final do secundário, o Baccalauréat, no Consulado Francês. Prestei, simultaneamente, o exame de língua inglesa no British Council de Lisboa, onde era oferecido um curso igual ao que no Brasil é da responsabilidade da Cultura Inglesa, e tirei o Lower Certificate, emitido pela University of Cambridge.

Fui aprovado no Bac, e terminei em Junho de 1974, dois meses depois da queda da ditadura, o ensino secundário, com médias que me garantiam acesso direto à Universidade Clássica de Lisboa. Deveria ficar e acompanhar o processo revolucionário, abandonando a perspectiva de um curso superior em França, ou partir? Com direito às duas matrículas, viajei no final de Agosto para Paris.

Essa decisão se demonstrou depois efêmera. Olhando para trás, acho que a inércia venceu. Hesitei muito entre a História e a Sociologia, e acabei me decidindo pela segunda. Mas havia, naquelas circunstâncias, outras escolhas, mais sérias, e que envolviam a relação futura com o compromisso político. Não queria tomar uma decisão prematura.

Um semestre depois, abandonei a Universidade de Paris e escolhi voltar para Lisboa. A revolução portuguesa me chamava.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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Valerio Arcary

É professor titular do IFSP. Doutor em história pela USP, estudou na Universidade de Paris e Lisboa entre 1974/78, participou da revolução portuguesa, voltou ao Brasil e se uniu à Convergência Socialista, esteve presente na reconstrução da UNE em Salvador em 1979, na fundação do PT em 1980 e da CUT em 1983, sendo secretário-geral da CUT/São Paulo entre 1985/86. Atuou na Apeoesp entre 1983/90, foi membro da Executiva Nacional do PT entre 1989/92, e foi presidente nacional do PSTU entre 1993/98 e, desde 2016 é membro da Coordenação Nacional do MAIS/PSOL. É autor de O martelo da história, entre outros livros.

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