Valerio Arcary

21 de abril de 2020, 22h46

O destino de Bolsonaro: um impasse transitório não é sustentável por muito tempo

Leia na coluna de Valerio Arcary: "Bolsonaro avança e recua, morde e assopra, mas não abandona o projeto bonapartista de se apresentar como o 'salvador da pátria'"

Foto: Guilherme Gandofi

1. Bolsonaro ambiciona a subversão do regime, ou um autogolpe, mas não tem forças para fazê-lo ainda.

Bolsonaro fez uma aposta perigosíssima ao se posicionar contra o distanciamento social, pressionado pela pequena-burguesia proprietária que é uma parte fundamental do núcleo duro de sua base social, convencido que a recessão seria mais destrutiva do que a pandemia. Errou rude, errou feio. Mudou a conjuntura com o seu enfraquecimento parcial na superestrutura política. Mas não foi derrotado.

Entretanto, Bolsonaro não esconde que sua estratégia de “fujimorização” do regime continua sendo o centro de sua estratégia. Avança e recua, morde e assopra, mas não abandona o projeto bonapartista de se apresentar como o “salvador da pátria”, o “escolhido do povo”, a “vontade da nação”, ou seja, “eu sou a constituição”.

A classe dominante se dividiu diante da iminente tragédia sanitária e social, e uma maioria se deslocou para a defesa da quarentena como uma forma de moderação do colapso do sistema hospitalar. Uma imensa maioria dos governadores passou a apoiar Mandetta contra Bolsonaro. Os seus próprios ministros se dividiram. A classe média se dividiu e uma parcela mais urbanizada e instruída rompeu, ainda que parcial e, momentaneamente, com Bolsonaro. Uma maioria na classe trabalhadora se consolidou na oposição ao governo.

Nos últimos dez dias, Bolsonaro se move, ao mesmo tempo, em várias direções para acumular forças porque, embora consciente que se debilitou, mantém resiliência e vai para a contraofensiva: (a) estimulado por pesquisas que revelam que mantém apoio de pelo menos 30%,, e que um pouco mais da metade ainda acredita que deve seguir governando, responde, presencialmente, às carreatas neofascistas que exigem o fim de qualquer quarentena, denuncia uma conspiração liderada por Maia para derrubá-lo, e se vitimiza como perseguido pela mídia; (b) reforça a participação dos militares no governo depois da demissão de Mandetta, nomeando mais um general, agora na secretaria executiva da Saúde, para garantir a lealdade da oficialidade; (c) negocia para fracionar uma ala mais reacionária do bloco do Centrão (por enquanto, 221 deputados) – os Republicanos de Crivella e Edir Macedo (31), o PSD de Kassab, Afif Domingos e Raimundo Colombo, governador de Santa Catarina (34), além do PL de Magno Malta (39) e do PP de Blairo Maggi e Esperidião Amin (40) e talvez o PTB (12), que somados têm 156 deputados, garantindo uma integração no governo para consolidar uma base mais sólida no Congresso, desidratando Rodrigo Maia.

São muitos os limites desta contraofensiva, mas o maior é o provável e dramático impacto psicossocial da pandemia que tem tudo para deixar no colo de Bolsonaro a culpa por dezenas de milhares de mortos nas próximas seis ou oito semanas.

2. A aposta burguesa na tática de enquadramento de Bolsonaro pela pressão do Congresso, do Supremo Tribunal Federal, ou até das Forças Armadas, até o momento, fracassou.

A demissão de Mandetta depois de duas semanas de conflitos confirmou que Bolsonaro é incontrolável. A versão de que Bolsonaro teria aceitado uma negociação com o núcleo militar foi um exagero, mas tinha um grão de verdade. O governo de extrema-direita tem, pelo menos, quatro alas, e tudo o que se conseguiu descobrir parece confirmar que o ministério esteve dividido em torno da estratégia de combate à pandemia. É muito pouco o que se sabe, porque se trata de um governo coeso e opaco, sem qualquer transparência. Mas parece claro que Bolsonaro não está disposto a cumprir um papel de árbitro. Ao contrário, Bolsonaro é um “animal” político agressivo, e transformou a presidência, como instância de poder, em uma alavanca de luta permanente de mobilização de sua base social.

O Congresso não tem conseguido ser qualquer tipo de freio para Bolsonaro. Aliado aos governadores mantém apoio às medidas de quarentena. Mas isso não tem impedido que Maia e, sobretudo, Alcolumbre, no Senado, tenham colaborado com todas as iniciativas do governo, a começar pelo pacote de medidas do Ministério da Economia, que respondem às medidas exigidas pelo grande capital diante da crise econômica já instalada.

O STF tem também sido um ponto de apoio para a preservação da governabilidade de Bolsonaro. Embora tenha protegido as decisões dos governadores que organizam a quarentena, não deixou de validar a constitucionalidade da destruição de direitos trabalhistas em vigor há sete décadas.

Por último, a hipótese de que a alta oficialidade das Forças Armadas teria algum tipo de compromisso mais sério com a defesa do regime, ou um projeto estratégico distinto do de Bolsonaro, não parece ter qualquer fundamento.

3. O Fora Bolsonaro deveria ser o centro da tática da esquerda.

A decisão do Diretório Nacional do PT de recusar a proposta de agitação de Fora Bolsonaro foi errada. A luta por salvar vidas deve ser indivisível da luta para criar um movimento para derrubar Bolsonaro. Subestimaram o impacto que a pandemia já teve nas últimas quatro semanas na consciência popular.

Pior: não avaliaram que um terremoto vai colocar de cabeça para baixo a situação política, quando tivermos mais dez mil mortos por dia. As placas tectônicas vão se mexer. A conta dos mortos terá que ser colocada pela esquerda no colo de Bolsonaro.

O que deve definir se a defesa do Fora Bolsonaro é uma orientação correta não é a relação política de forças desfavorável dentro do Congresso Nacional, mas a relação social de forças na sociedade, em especial, a opinião dos trabalhadores e da juventude.

Fora Bolsonaro não era a melhor palavra de ordem, até um mês atrás, porque não existia então uma maioria na classe trabalhadora a favor. A defesa do Abaixo o governo dividia a nossa base social. A esquerda luta pela construção da unidade da classe. Uma palavra de ordem que fragmenta não é útil. Por isso, Contra Bolsonaro era mais útil. Mas, a realidade mudou.

Fora Bolsonaro passou a ser correta porque foi se formando uma maioria na classe trabalhadora que se posiciona na oposição a Bolsonaro, embora haja círculos bolsonaristas, infelizmente, em todas as grandes empresas.

A agitação de uma saída para a questão do poder oferece um horizonte que ajuda a elevar o ânimo, a confiança, e a disposição de luta da juventude e do povo. Fora Bolsonaro é uma palavra de ordem para a agitação porque não estão maduras as condições objetivas e subjetivas, por enquanto, para que ela se transforme em um eixo de ação.

A apresentação de um pedido de impeachment é somente uma tática parlamentar. Não é necessário ter uma maioria de deputados a favor para que a esquerda a defenda. Mas é necessário que haja uma maioria na classe que mais de concordar com ela, esteja disposta a lutar por ela. Não haverá derrota de Bolsonaro a “frio”. O futuro do governo não se decide em Brasília, mas nas periferias das grandes metrópoles. A solução institucional da luta pela derrubada de Bolsonaro vem depois.

Bolsonaro não tem força social para ir para o autogolpe, e a esquerda não tem força para fazer o Fora Bolsonaro se transformar em impeachment. Estamos em um impasse, mas é transitório. Porque a pandemia e a crise social e política vão ficar mais graves. A hora de medir forças se aproxima.


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