O que o Fantástico não disse sobre o fascismo e Bolsonaro?

Leia na coluna de Valerio Arcary: Não mencionou Bolsonaro, o que é pitoresco, até um pouco divertido. Como se os brasileiros estivessem curiosos sobre o perigo fascista... na Hungria

No último domingo o Fantástico fez uma reportagem sobre o fascismo. Justificou a matéria pelo aumento do volume de consultas no Google sobre o que é o fascismo e o antifascismo. Não mencionou Bolsonaro, o que é pitoresco, até um pouco divertido. Como se os brasileiros estivessem curiosos sobre o perigo fascista… na Hungria. De qualquer forma, considerando tudo com um olhar equilibrado, talvez, benevolente, a reportagem foi positiva. Alertou que o fascismo é um regime autoritário.

Mas não se ouviu o mais importante: (a) que o nazi-fascismo é uma ditadura totalitária que surge como reação ao triunfo da revolução de outubro; (b) pretende impor uma derrota histórica aos trabalhadores e oprimidos; (c) pretende esmagar pelo terror dos métodos de guerra civil as organizações e lideranças populares; (d) a destruição dos direitos civis e das liberdades democráticas obedece às necessidades de preservação do capitalismo.

O nazi-fascismo liderou uma onda de contrarrevolução nos anos vinte e trinta. Não foi um fenômeno italiano: franquismo, salazarismo, nazismo são todas variações de fascismo, assim como o integralismo no Brasil. Muitos fatores estiveram na sua raiz. A guerra mundial, a crise econômica, mas, sobretudo, o perigo do triunfo de novas revoluções socialistas. O neofascismo do século XXI pertence ao mesmo gênero, embora o bolsonarismo seja peculiar à sua maneira.

Diminuir o perigo de Bolsonaro seria miopia política grave. Ele tem apoio em uma fração da classe dominante, sustentação nas camadas médias e uma base social de massas. Responde à demanda de liderança forte face à experiência de crônica corrupção no Estado; de comando diante do agravamento da crise da segurança pública; de ressentimento diante do aumento do peso dos impostos sobre a classe média; de ruína de pequenos negócios diante da regressão econômica; de pauperização diante da inflação dos custos da educação, saúde e segurança privadas; de ordem diante das greves e manifestações; de autoridade diante do impasse da disputa política entre as instituições; de orgulho nacional diante da regressão econômica dos últimos anos. Responde, também, à nostalgia das duas décadas da ditadura militar em franjas das classes médias exasperadas. Não fosse isso o bastante, conquistou visibilidade dando expressão à resistência de ambientes sociais atrasados e reacionários à luta do feminismo, do movimento negro e LGBT, ou até dos ecologistas.

Prevalece na população a ideia de que Bolsonaro é um radical, mas ainda não há clareza que ele é o líder de uma ultradireita neofascista. Está disseminada, também, a impressão de que ele seria oposição a “tudo que está aí”, porém não se entende que o seu compromisso é com a preservação da mesma ordem econômico-social que explica “tudo que está aí”.

A militância de esquerda tem, felizmente, a opinião de que Bolsonaro é um fascista. Bolsonaro é mesmo um neofascista. Esta reação é progressiva e revela boa intuição política. Confirma que no melhor da vanguarda há reservas. Elas serão vitais para poder se construir um movimento de massas antifascista.

É preciso ser rigoroso quando estudamos nossos inimigos. Quem não sabe contra quem luta não pode vencer. A qualificação de qualquer corrente política ou liderança de ultradireita como fascista é uma generalização apressada, historicamente, errada e, politicamente, ineficaz. O fascismo é um perigo tão sério que devemos ser serenos na sua definição. Toda a extrema-direita é radicalmente reacionária. Mas nem toda a ultradireita é fascista. É necessário avaliar, calibrar, e qualificar com cuidado a caracterização de nossos inimigos. A base social do conservadorismo religioso neopentecostal, por exemplo, se inclina na direção de posições muito reacionárias, em alguns aspectos, mas não é fascista.

Não obstante, Bolsonaro é um líder neofascista: sua retórica nacionalista exasperada, seus discursos exaltados em defesa da repressão, suas posições anticomunistas primitivas são expressão do fascismo contemporâneo em um país dependente. Mais importante, a estratégia de Bolsonaro é fascistizar a corrente de massas que apoia o seu governo. À partida, os bandos fascistas não organizam senão a fração mais decidida e mais desesperada da pequena burguesia (a sua fração “enraivecida”).

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Os movimentos sociais e a esquerda socialista devem ter a compreensão que a luta contra o neofascismo não deve se limitar a um combate apenas eleitoral contra Bolsonaro. Nenhuma liberdade aos inimigos da liberdade. Neste processo de enfrentamento, não se deve descartar a necessidade de brigadas de autodefesa que neutralizem a ação de intimidação fascista.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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Valerio Arcary

É professor titular do IFSP. Doutor em história pela USP, estudou na Universidade de Paris e Lisboa entre 1974/78, participou da revolução portuguesa, voltou ao Brasil e se uniu à Convergência Socialista, esteve presente na reconstrução da UNE em Salvador em 1979, na fundação do PT em 1980 e da CUT em 1983, sendo secretário-geral da CUT/São Paulo entre 1985/86. Atuou na Apeoesp entre 1983/90, foi membro da Executiva Nacional do PT entre 1989/92, e foi presidente nacional do PSTU entre 1993/98 e, desde 2016 é membro da Coordenação Nacional do MAIS/PSOL. É autor de O martelo da história, entre outros livros.

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