Valerio Arcary

13 de abril de 2020, 23h01

O que podemos prever se tivermos mais de mil mortos por dia?

Leia na coluna de Valerio Arcary: "O que vai acontecer quando o relativo isolamento de Bolsonaro, diante da divisão da burguesia, se transformar em solidão social, restando somente o apoio das forças repressivas do Estado, e da bancada evangélica? A situação ficará muito perigosa"

Foto: Marcos Corrêa/PR

O Brasil está caminhando para uma catástrofe sem precedentes com, provavelmente, dezenas de milhares de mortos nas próximas quatro ou seis semanas. Pode ser até pior. Pode ser que estejamos na beira do abismo de um “armagedon” sanitário. Se as piores previsões sobre a escalada exponencial do contágio não for interrompida, imediatamente, com uma quarentena total, o colapso do atendimento hospitalar em São Paulo e Rio de Janeiro deve ser iminente. A decadência nacional ficará escancarada e será impossível encobri-la ou justificá-la.  

Não é possível exagerar o impacto que essa calamidade irá provocar. Não é novidade no Brasil que dezenas de milhares morram por ano assassinados ou como vítimas de acidentes de trânsito. Mas dezenas de milhares de óbitos concentrados, em poucas semanas, será uma tragédia devastadora.

A classe média permanece dividida, mas uma parcela significativa que apoiou Bolsonaro em 2018 já rompeu com o governo e foi para as janelas fazer barulho. Uma maioria da classe trabalhadora nos grandes batalhões organizados já está na oposição. O que vai acontecer quando o relativo isolamento de Bolsonaro, diante da divisão da burguesia, se transformar em solidão social, restando somente o apoio das forças repressivas do Estado, e da bancada evangélica? A situação ficará muito perigosa.

Evidentemente, por um período indefinido a esquerda não poderá recorrer à mobilização social direta, em função das condições de confinamento. Mas esta situação é transitória. A combinação de pânico diante da pandemia, e agravamento da pobreza em miséria, associada à crescente fragilidade, incompetência e impotência do governo Bolsonaro diante da crise pode ser suficiente para que prevaleça o desespero. O desespero é mal conselheiro. Explosões sociais de fúria, na forma de saques podem ser o pretexto para um contra-ataque dos neofascistas.  

Porque parece, também, improvável que Bolsonaro seja “deslocado pelo alto” sem uma poderosa reação. Estará disposto a arriscar a decretação de um Estado de Sítio? Teria condições de articular um apoio coeso das Forças Armadas? A maioria burguesa que tenta, há três semanas, construir um enquadramento de Bolsonaro, apoiada em sua influência no Congresso Nacional articulada por Rodrigo Maia, e no STF por Gilmar Mendes, estaria disposta a desafiar o mandato de Bolsonaro?

Se isso acontecer, quais seriam as hipóteses de cenários sociais e políticos? Serão diferentes do que foram os limites dos chilenos no ano passado, ou dos argentinos em 2001/02, ou dos bolivianos em 2003/05, ou dos egípcios em 2011. A pandemia abriu uma conjuntura, completamente, distinta. Qual será o grau ou limite de tolerância que a sociedade estará disposta a aceitar, quando as mortes dispararem da escala de centenas para milhares por dia?

A questão remete à possibilidade de uma crise do próprio regime, não só o destino de Bolsonaro e seu governo. Significa tentar prever até quando é possível um governo destruir as condições mais elementares de vida da sociedade, conquistadas no período histórico anterior, sem provocar uma ira, ou uma fúria tão grande que o governo tem que cair, e se perde a governabilidade, porque milhões de pessoas descobrem zangadas, enraivecidas, furiosas que era possível evitar a tragédia.

A experiência política da decadência nacional é um processo desigual. Porque as nações são distintas, com inserções diferentes no mercado mundial, com histórias recentes muito variadas e em estágios de desenvolvimento díspares. As classes sociais são, fundamentalmente, as mesmas no mundo em que vivemos, mas a sua configuração em cada país é única, particular, específica.

Espera-se das ciências sociais alguma capacidade de oferecer perspectiva sobre o que pode acontecer, a partir de modelos teóricos que têm como referência a comparação com situações mais ou menos similares no passado que permitam comparações. Essa comparação não é possível. Em 1918, quando da epidemia da gripe espanhola, o Brasil era ainda uma sociedade, essencialmente, agrária, ainda que com duas grandes cidades macrocéfalas, considerando o gigantismo dos interiores. A escala do que vamos viver será outra, muito superior, infelizmente. Até os anos sessenta ainda se morria mais por doenças infectocontagiosas do que de cardiológicas e câncer, mas isso mudou. É verdade que conhecemos o flagelo da doença de chagas, tuberculose, malária, meningite, dengue, zika, chikungunya e até influenza, mas agora vai ser diferente.  

Portanto, a rigor, a construção de cenários sociais e políticos não é possível sem margens de erro muito grandes. Porque ao contrário dos modelos dos epidemiologistas, as ciências sociais devem considerar, além dos fatores objetivos, os subjetivos. Ou a percepção que as pessoas terão do que está acontecendo. Lembremos que diferentes sociedades reagem de forma distinta diante do impacto dos mesmos fatores.

A possível queda de Mandetta, por exemplo, não será somente uma crise política “normal”. Crises políticas que resultam de desentendimentos táticos ríspidos são comuns, mesmo em situações de estabilidade social. Afinal, a sociedade contemporânea é muito conflitiva. São crises de governo que podem e, em geral, são resolvidas pelas instituições do regime político que têm elasticidade suficiente para arbitrar a disputa de interesses. São processos de rotina, para arbitrar os pequenos conflitos de gestão. E recuperar o equilíbrio que é necessário para manter a ordem, e o fluxos dos negócios. Pode haver “barulho nas alturas”, os partidos rivais podem usar uma retórica muito áspera, mas a maioria da sociedade ignora a “tempestade” nos Palácios e Parlamentos.  Como dizem os norte-americanos, “business as usual”.

Mas não será somente o impacto das mortes aos milhares por dia. Devemos considerar, também, que o desemprego dará um salto de qualidade. Se as previsões que estão sendo feitas estiverem corretas, o PIB brasileiro deverá sofrer uma contração entre 5% e 10% em 2020, o que significa que teremos uma disparada na taxa de desemprego que deverá se aproximar de 20% da população economicamente ativa.

Estudiosos do Banco Mundial, portanto, ideologicamente insuspeitos de qualquer simpatia teórica pelo marxismo, sugerem desde o final dos anos 80 do século passado que, ultrapassados certos limites de degradação das condições econômicas e sociais, em comparação com o passado recente, produz-se uma ruptura da coesão social. Claro, se não for criada uma rede de proteção social que garanta salário-desemprego, minimamente, sustentável. Acontece que, embora muito importante, o auxílio de emergência ou renda mínima para os trabalhadores informais, deve beneficiar algo além de 50 milhões de pessoas com R$600.00 por mês está previsto, somente, por três meses. E depois?

A chave da estabilidade política do regime democrático-eleitoral no Brasil desde 1985, portanto, trinta e cinco anos, foi, em primeiro lugar,  o crescimento econômico. O crescimento pérdeu o impulso dinâmico que tinha entre 1950/80, mas continou sendo o fator mais importante da preservação da coesão social que garante a estabilidade do regime de alternância eleitoral. Quando mergulharmos em uma regressão destrutiva apocalíptica as consequências sociais e políticas serão imprevisíveis. Quem aposta em um desgaste contínuo de Bolsonaro e a expectativa de derrotá-lo eme eleições em 2022, deveria repensar sua estratégia.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum


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