sexta-feira, 25 set 2020
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Os dias mais duros não ficaram para trás, os mais perigosos estão à nossa frente

Abriu-se um novo momento na conjuntura porque, nas vésperas de atingirmos mil mortes por dia, parece que a pandemia está fora de controle, e é iminente um colapso catastrófico do sistema hospitalar em São Paulo, como já aconteceu em Manaus, São Luís, Fortaleza, Recife e Rio de Janeiro. Os dados disponíveis são insuficientes, mas não foi possível, infelizmente, com o distanciamento social parcial, conseguir desacelerar muito a velocidade da contaminação. O Brasil caminha para ser, até o fim de maio, um dos centros mundiais da pandemia.

Ao mesmo tempo, já existem dados suficientes que indicam que a depressão econômica será até maior do que 5% do PIB do ano passado. A maior da história. As duas crises serão indissociáveis nos próximos meses. Os dias mais duros não ficaram para trás.

Entretanto, a crise política ficou mais perigosa. Os dois fatores da evolução da conjuntura nos últimos dois meses foram o enfraquecimento do governo Bolsonaro e, paradoxalmente, a radicalização da corrente neofascista. São duas tendências que evoluem em direções opostas, em ritmos e intensidade diferentes, sem que até agora seja possível afirmar, de forma inequívoca, qual delas irá prevalecer, mas parece provável que vão se chocar, em algum momento. Quando vão se chocar ninguém sabe. O confronto é muito perigoso.

Porque permanece uma incógnita que é a relação do ala militar com o projeto bonapartista de Bolsonaro. Porque ninguém sabe até onde estariam dispostos a ir. Está claro que defendem que Bolsonaro deve cumprir o seu mandato até o fim. Mas permanece indefinido se apoiariam um movimento de ruptura na direção de um autogolpe, e se teriam apoio suficiente na alta oficialidade da ativa para a aventura. Como sempre, na dúvida, a melhor decisão é nos prepararmos para a pior hipótese.

 A existência de um vídeo da reunião ministerial como prova da disposição de intervenção na Polícia Federal para garantir a blindagem de proteção de sua família coloca nas mãos do STF o crime de responsabilidade. A denúncia de Paulo Marinho de que existe um celular como prova de que a família Bolsonaro foi avisada pelo delegado Ramagem da existência de uma investigação sobre Queiróz deixa Bolsonaro ainda mais acossado.

A fragilização do governo foi determinada, essencialmente, pelo: (a) afastamento dos governos estaduais, em especial, de São Paulo e Rio de Janeiro em função da defesa do distanciamento social para o combate à pandemia; (b) pela ruptura da ala LavaJato liderada por Sergio Moro em função do giro bonapartista pelo controle direto da Polícia Federal; (c) pelos limites impostos pelo STF (Supremo Tribunal Federal) à ação do governo sobre a pandemia; (d) pelo posicionamento dos grupos comerciais de mídia em oposição ao governo face as respostas à pandemia e diante da escalada autoritária; (e) pela evolução negativa da repercussão das posições do governo nas pesquisas de opinião, em especial, nas camadas médias.

Mas o governo Bolsonaro é de extrema direita, e não vai ser derrotado sem luta feroz. Não aconteceu ainda uma mudança qualitativa no regime político, que se mantém um regime liberal-presidencialista, a despeito da estratégia neofascista de subversão pelo controle interno das instituições a la Fujimori ou Orbán.

A ala neofascista que responde diretamente ao bolsonarismo se consolidou, enrijeceu, ganhou capacidade de organização e iniciativa, e tem como estratégia o autogolpe. Há um partido neofascista em construção: (a) tem uma liderança clara, forte e messiânica; (b) mantém uma estreita relação com sua base de massas e é, ideologicamente, mais homogêneo; (c) mais operacional, politicamente; (d) mais unificado, organizativamente; (e) mais motivado, moralmente; (f) possui capacidade de ação maior, exemplo dos acampamentos e das passeatas; (g) tem um programa de ação claro, o fim da quarentena (h) ramificações militares e policiais.

Não fosse isso o bastante. Bolsonaro mantém aprovação de um terço da população, mesmo depois do desgaste dos últimos meses, que indicam que é provável a formação de uma maioria de mais de 50% a favor do seu impeachment.

Mas a radicalização da corrente neofascista, que é, seguramente, uma minoria entre os 30% que o apoiam, tem como estratégia fascistizar o apoio daqueles 30% de eleitores. Fascistizar significa transformar a simpatia em paixão, exaltação, fanatismo. A estratégia de subverter o regime, reagindo ao debilitamento do governo com uma provocação, depende do endurecimento desta corrente de massas.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum

Valerio Arcary
Valerio Arcary
É professor titular do IFSP. Doutor em história pela USP, estudou na Universidade de Paris e Lisboa entre 1974/78, participou da revolução portuguesa, voltou ao Brasil e se uniu à Convergência Socialista, esteve presente na reconstrução da UNE em Salvador em 1979, na fundação do PT em 1980 e da CUT em 1983, sendo secretário-geral da CUT/São Paulo entre 1985/86. Atuou na Apeoesp entre 1983/90, foi membro da Executiva Nacional do PT entre 1989/92, e foi presidente nacional do PSTU entre 1993/98 e, desde 2016 é membro da Coordenação Nacional do MAIS/PSOL. É autor de O martelo da história, entre outros livros.