Quatro notas sobre um debate

Leia na coluna de Valerio Arcary: O primeiro debate demonstrou que existe uma possibilidade de levar Boulos ao segundo turno em São Paulo. Será muito difícil, exigirá muita inteligência tática e muita militância, mas é possível

O primeiro debate demonstrou que existe uma possibilidade de levar Boulos ao segundo turno em São Paulo. Será muito difícil, exigirá muita inteligência tática e muita militância, mas é possível. Seria uma façanha eleitoral. Seria, sobretudo, uma vitória política de toda a esquerda brasileira. Porque tirar Russomanno, o inimigo principal, do segundo turno é impor uma derrota monumental a Bolsonaro.

O debate de ontem à noite permitiu tirar quatro conclusões:

a) além de Russomanno, com uma indisfarçável cara de quem parecia estar sob efeito de algum medicamento pesado, pelo Republicanos, partido controlado pela Igreja de Edir Macedo, outros dois candidatos disputam, furiosamente, o espaço da extrema-direita, e podem se devorar em “canibalismo” politico explícito: Joice Hasselmann, candidata pelo PSL, partido que elegeu Bolsonaro, mas que seu filho deputado não tem controle em São Paulo, e Arthur do Val, ou Mamãe Falei, pelo Patriotas, que é uma legenda de aluguel que lançou o Cabo Daciolo, o “bombeiro doido” em 2018. Joice é a porta-voz da Lava-Jato e, portanto, de uma possível candidatura de Sergio Moro em 2022. Muito mais articulada que Russomanno, abusou de rompantes anticomunistas. Arthur Mamãe Falei é um aventureiro neofascista escandaloso que procura visibilidade pessoal em voo solo falando barbaridades primitivas. Ambos tiveram como tática no debate um enfrentamento com Russomano para desmascará-lo como um oportunista frouxo. A hostilidade foi brutal sinalizando que não haverá trégua. Russomanno se refugia trêmulo na imagem de cuidador e candidato de Bolsonaro prometendo um auxílio, justamente, quando o governo federal vai suspender o auxílio, e não se sabe como vai financiar o novo Bolsa Família.

b) Covas está em uma situação mais confortável e sabe disso, porque a imagem de um jovem conservador anti-petista doente dialoga com a base social histórica dos tucanos, que seria suficiente, se não houver maior turbulência, para chegar no segundo turno. Não tem ímpeto, liderança, ou qualquer carisma, mas terá muito tempo nas TVs e rádios, o benefício do fator inércia, potencializado pela pandemia, e o apoio das máquinas do Estado. Mas está pressionado por Andrea Matarazzo, pomposamente, agressivo com a imagem imaculável de aristocrata italiano em exílio no Morumbi. O candidato do Novo navega, também, em águas turvas. Felipe Sabará é uma fraude arrivista que saiu de uma festa de cocktails na Faria Lima: participou durante anos de governos tucanos, e não tem nada a dizer, a não ser que é contra impostos, e a favor de privatizar tudo. Resume-se a uma distração eleitoral. Marina Helou, pela Rede, se comportou como uma linha auxiliar de Covas, uma espécie de sub-legenda que pede votos para não perder um vereador.

c) Márcio França, pelo “centro do centro descentrado”, é o principal elemento de confusão nesta eleição. França não é de esquerda. Não é sequer de centro-esquerda. Não falou um “a” contra Bolsonaro. Acusou Boulos de “invasor”, uma agressão típica da ultradireita. Não tem qualquer intensidade, apenas uma descontração demagógica. Saiu da obscuridade em que merecia vegetar, porque as terríveis circunstâncias das eleições de 2018 lhe deram de presente, injustamente, uma montanha de votos úteis, somente, para tentar derrotar Doria. É candidato pelo PSB, que tem socialista no nome, mas se transformou em uma legenda de aluguel, controlada desde Pernambuco pelo atual governador Paulo Câmara. França foi vice-governador em chapa com Geraldo Alckmin, e estava exercendo o mandato no Palácio dos Bandeirantes, e apoiando a candidatura do PSDB em 2018. A relação com Alckmin vem de longe. Foi eleito prefeito em 1996 e reeleito em São Vicente. Em 2011 assumiu a secretaria de Esporte, Lazer e Turismo de São Paulo, no governo dos tucanos. O PSB já foi representado em São Paulo pelo presidente da FIESP, Paulo Skaf, que concorreu a governador em 2010. Nessa eleição, teve o apoio de Márcio França, que era deputado federal.

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d) São três candidaturas em disputa pelo espaço da esquerda: mas isso não significa que é impossível chegar ao segundo turno. Ainda há tempo. O mais importante a destacar do desempenho de Jilmar Tatto, Orlando Silva e Guilherme Boulos é que não se hostilizaram. Ao contrário, suas intervenções foram, essencialmente, complementares. Orlando, indômito, denunciou com força Bolsonaro, e defendeu com dignidade a justa luta da juventude negra. Tatto, com simplicidade simpática, desafiou Covas e desmascarou a crueldade antipopular de Doria que suspendeu a distribuição de leite, e ainda tentou passar uma merenda de farinhas. E Boulos assumiu o papel que lhe cabe de principal liderança da esquerda na cidade: confrontou Russomano. Foi firme quando era hora de ser firme, e foi ousado na hora de ser ousado. Ainda há tempo.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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Valerio Arcary

É professor titular do IFSP. Doutor em história pela USP, estudou na Universidade de Paris e Lisboa entre 1974/78, participou da revolução portuguesa, voltou ao Brasil e se uniu à Convergência Socialista, esteve presente na reconstrução da UNE em Salvador em 1979, na fundação do PT em 1980 e da CUT em 1983, sendo secretário-geral da CUT/São Paulo entre 1985/86. Atuou na Apeoesp entre 1983/90, foi membro da Executiva Nacional do PT entre 1989/92, e foi presidente nacional do PSTU entre 1993/98 e, desde 2016 é membro da Coordenação Nacional do MAIS/PSOL. É autor de O martelo da história, entre outros livros.

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