Valerio Arcary

17 de junho de 2019, 06h00

Sobre a militância (4)

Criamos uma reputação. Somos vistos como militantes abnegados, mas arrogantes. Instruídos, mas sectários. Esta fragilidade tem uma história

Manifestação contra o impeachment de Dilma, no Largo da Batata, em São Paulo. (Foto: Paulo Pinto/ Agência PT)

Prevaleceu na esquerda do século XX uma tradição bárbara de resolver as diferenças políticas com métodos monstruosos. As maiores aberrações foram as agressões que o estalinismo naturalizou. Mas aqueles que foram as maiores vítimas desta violência não permaneceram imunes.

Os trotskistas valorizaram os debates teóricos. Mas, ainda que usando somente as ideias como armas, viramos especialistas em polêmicas cruéis, até desumanas. Pode ter havido, talvez, correntes tão devastadoras com as palavras nas suas discussões internas. Mas os trotskistas elevaram o masoquismo político a outro patamar. Uma nova forma de arte dramática, quase um novo gênero literário.

Criamos uma reputação. Somos vistos como militantes abnegados, mas arrogantes. Instruídos, mas sectários. Esta fragilidade tem uma história.

Quem luta contra a corrente, por muito tempo em condição de minoria, desenvolve, mais ou menos, inevitavelmente, reflexos sectários. É uma velha piada troska admitir que, entre nós, alguns são tão sectários, que nem sabem que são sectários.

Oxalá a nova geração seja capaz de nos superar. Um pouco de paixão revolucionária é bem vinda porque empolga. Excesso de entusiasmo em um debate de ideias repousa, quase sempre, no abuso dos exageros.

Há polêmicas com posições frontais, laterais e na retaguarda. Frontais são as discussões com os inimigos de classe. Laterais são aquelas que fazemos na esquerda entre as distintas correntes. E na retaguarda são aquelas no interior de cada coletivo. Em geral, elas são simultâneas. Mas não se podem fazer da mesma forma, e na mesma intensidade. As regras são diferentes. Excesso de orgulho é infantil.

Toda polêmica tem o seu tempo. Algumas se resolvem mais rapidamente, outras exigem anos, e exigem paciência. Dependem muito da evolução dos acontecimentos. A realidade que nos cerca nem sempre decanta nos prazos curtos. As hipóteses precisam passar a prova dos fatos. Mas todo debate deve ter princípio, meio e fim.

Cada discussão tem, também, o seu tom. O tom de um debate, mais amigável e fraterno, ou mais duro e áspero, é compreensível, mas dentro de limites. Quais são os limites? O respeito. Somos, na esquerda brasileira, tolerantes demais com as “desproporções”. Rigor é muito importante. Rigor não deve ser solenidade. Deve ser exatidão, concisão, precisão. Ou seja, uma boa medida de graduação, de calibragem. Somos uma fraternidade de lutadores, não precisamos de pompa. Mas equilíbrio, sim.

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A força de um debate deve depender mais da magnitude das diferenças, do que da personalidade dos militantes. Não devemos deixar um debate de ideias ser, emocionalmente contaminado. Devemos cultivar o autodomínio, a autodisciplina, a autocontenção. Diferenças de tática, nuances, e matizes são rotineiras e exploratórias. Diferenças de estratégia são intensas e programáticas. Mas toda polêmica séria exige respeito.

Não há elaboração coletiva sem luta de ideias. Toda discussão é uma crítica e, portanto, uma polêmica. A liberdade é sempre a liberdade de quem pensa diferente de nós. Não devemos ter medo de ter diferenças. Devemos ter medo de errar. Os erros têm um preço alto. Se não há democracia interna em uma organização, não há elaboração coletiva. Se a elaboração não é coletiva, erraremos mais. É inexorável.

E não vale a pena a militância em um coletivo sem direito real de participação na elaboração coletiva. Uma militância assim fica incompleta, amputada, mutilada. A militância é uma doação por inteiro. Pensamos e agimos juntos. Se numa corrente só alguns exercem os direitos democráticos de pensar, e outros só têm a obrigação de agir, algo está muito errado.

Todos devem ter o direito de dizer o que querem. Mas têm, também, o dever de ouvir o que não querem. Aprender a ouvir é um processo. É muito comum que uma ideia seja apresentada com clareza, mas não seja compreendida. E não é incomum que não seja apresentada com clareza, com resultados ainda piores. Saber ouvir, e atribuir sentido ao que foi dito, é tão importante quanto saber falar.

Claro que direito de participação não é só isso. É muito mais porque é preciso regular o direito de decidir. Quem são os que decidem, e sobre o que podem decidir é muito importante, também. As regras podem variar. Sejam quais forem, devem ser claras.

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Mas o direito de participação não deve ser interpretado como dever de concordância. Ninguém deve se sentir incomodado, embaraçado, constrangido porque discorda de alguém. Não pode haver pressão pela unanimidade. Se a coesão de uma organização repousa, somente, na autoridade dos líderes, ela é muito frágil. Pode parecer um castelo inexpugnável, mas é um castelo de areia.

Claro que é necessária uma educação emocional para o debate. Para participar de uma discussão é necessário maturidade para não interpretar uma discordância com nossas ideias como uma ofensa pessoal. Essa atitude tranquila, adulta, e equilibrada se aprende. Há uma dimensão subjetiva nas nossas relações políticas. Dimensão subjetiva significa o cuidado para não nos machucarmos uns aos outros.

Um coletivo socialista é uma escola de educação muito intensa. Não nos formamos somente como militantes. Construímos-nos como pessoas mais inteiras, mais responsáveis, mais íntegras. A formação de lideranças para as lutas populares é o cerne de uma organização marxista séria.

Mas, claro que há o perigo dos militantes se ofenderem. Polêmicas só são destrutivas quando são ad hominem. Uma luta passa a ser ad hominem quando pretende diminuir, desqualificar, desmoralizar a pessoa que pensa diferente de nós. Camaradas maravilhosos e de longa trajetória, que passaram por muitas provas, podem defender ideias erradas, absurdas, disparates e até aberrações. E pessoas de caráter confuso, duvidoso, ou dúbio podem ter razão. A regra número um na luta de ideias é o respeito, portanto, a honestidade intelectual. A disputa de ideias deve ser somente uma esgrima de argumentos.

O sintoma mais perigoso do sectarismo é o fracionalismo. Fracionalismo não é a formação de uma tendência. Uma tendência é uma união transitória de militantes em torno de uma plataforma sobre um ou mais temas. Ou mesmo de uma fração. Uma fração é um agrupamento interno de militantes que querem disputar a direção, e pedem o direito à proporcionalidade na representação. Em um debate, a auto-organização daqueles que defendem as mesmas ideias é o exercício de um direito. São legítimos e, em grande medida, inevitáveis. Fracionalismo é a formação de uma fração de militantes pela confiança pessoal que os une, apesar de seus membros terem ideias diferentes. Portanto, uma camarilha. O pior fracionalismo é o fracionalismos secreto.

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Construir uma teoria conspiratória é, também, um recurso comum do fracionalismo de maioria. Porque há dois tipos de fracionalismos, o da maioria e o da minoria. O da maioria é muito mais grave. Fracionalismo é uma doença política, e seu sintoma mais comum é a intolerância com a pluralidade, ou seja, as ideias dos outros.

Mas isso é somente um sintoma. O fracionalismo é um comportamento de camarilha.

A consequência inexorável é a fragmentação. Quando a doença do fracionalismo se instala, a desconfiança, a suspeição se instala. Quais são as intenções ocultas daqueles que discordam de mim? Não é difícil elaborar uma narrativa imaginária a partir de alguns grãos de verdade.
Honestidade e respeito, neste terreno, são indivisíveis. Honestidade é respeitar os outros e suas ideias, mas também admitir os seus erros quando eles acontecem. Disposição de autocrítica é essencial. Quem nunca faz autocrítica não merece confiança. Não diminui ninguém admitir que errou. Militantes e organizações que não fazem balanços críticos de suas ideias não têm futuro.

Coerência não é o mesmo que obtusidade. Coerência é manter a consistência com a defesa de um programa. Coerência não é não errar. Coerência é admitir a necessidade de se corrigir. Só obtusos não admitem erros. Isso é rudimentar, tosco, primitivo.

Respeitar as posições dos outros não é somente boa educação e bom caráter. É a humildade mais elementar. Cada organização socialista, em função da dispersão balcânica em que mergulhamos, é somente um embrião, entre outros. Toda a concepção auto-proclamatória de seu passado, por mais importante, imponente, ou grandioso é substitucionista e, incorrigivelmente, desagregadora.

O processo de reorganização da esquerda será amplo e lento. Teremos muitas discussões. Mas em uma boa discussão, não há vencedores nem perdedores.


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