domingo, 20 set 2020
Publicidade

Trotsky, oitenta anos depois

Assassinado em 21 agosto de 1940, Trotsky foi um militante revolucionário e um pensador marxista. Sua obra é grande, variada e inspiradora. Oitenta anos depois, a história agigantou a estatura de Leon Trotsky. Celebramos a sua memória com respeito e admiração.

Mas, porque o marxismo ensina que a transformação da sociedade só é possível quando milhões de pessoas se comprometem na luta, não devemos alimentar cultos. De ninguém. O alcance da influência de uma liderança pode variar da completa irrelevância, até à máxima intensidade, dependendo das circunstâncias. Na maioria das vezes, seu papel oscila em algum ponto intermediário entre esses dois extremos.

As experiências bárbaras de culto à personalidade que se disseminaram a partir do processo pioneiro na ex-URSS, onde Stalin, ainda vivo, se fez glorificar por uma indústria de propaganda tão poderosa quanto a força do aparelho policial-militar que instituiu o terror como política de Estado, deve inspirar grande prudência, senão pudor, em relação ao tema do lugar do indivíduo na história. O ainda hoje presente regime ditatorial na Coréia do Norte que, ao garantir a transição do poder de pai para filho, instituiu a primeira monarquia que se reivindica “socialista”, convida o desprezo.

Trotsky representa um fio de continuidade central na tradição marxista. Aos 26 anos, inspirado pela experiência derrotada da revolução de 1905, formulou a teoria da revolução permanente. A teoria da revolução permanente é um desdobramento da teoria marxista da história. Ela se fundamenta na lei do desenvolvimento desigual e combinado.

Uma teoria da história é, necessariamente, uma elaboração para atribuir sentido ao passado. Evidentemente, para um marxista nada é mais importante que o destino político das lutas que se desenvolvem no presente. Mas a elaboração de Trostsky, uma teoria histórica sobre as revoluções contemporâneas, não foi feita respondendo a um desejo. A defesa da revolução permanente como programa se fundamenta na compreensão de que a teoria passou a prova no laboratório da história.

Esta elaboração foi chave para a vitória da primeira revolução anticapitalista da história, a revolução de outubro de 1917. Antecipou que em países, historicamente, retardatários, como era o Império Czarista, com uma burguesia, economicamente, poderosa, porém, social e politicamente frágil, a revolução democrática contra o czarismo teria como sujeito social decisivo a classe trabalhadora urbana aliada à maioria camponesa.

Este bloco social operário e popular não se contentaria com a conquista da república democrática e, em mobilização ininterrupta, em permanência, poderia realizar a reforma agrária, libertaria as nações oprimidas por Moscou dentro do Império, e desafiaria a propriedade privada, abrindo o caminho para a revolução europeia e a luta pelo socialismo internacional.

A história demonstrou, mais de uma vez, em diferentes experiências históricas que tinha razão ao insistir que revoluções não devem ser compreendidas, somente, pelas transformações mais urgentes impostas pela história que são a sua força motriz, mas, também, pelos sujeitos sociais ou classes que as fazem, pelos sujeitos políticos ou organizações que as dirigem, e pela natureza histórico-social da contrarrevolução com que têm que se enfrentar. Numa nossa época, a contrarrevolução é capitalista, portanto, a dinâmica do processo revolucionário é anticapitalista, portanto, objetivamente, socialista.

Como hoje a expressão “revolução permanente” está associada de forma irreversível à sua tradição política, alguns esclarecimentos são indispensáveis, para evitar confusões. O conceito “revolução permanente” era corrente nos meios esquerdistas no final dos anos quarenta do século XIX, e sua origem, ao contrário de um mito histórico recorrente, não era blanquista.

Mais do que uma referência histórica, era um slogan de uso bastante generalisado, e amplamente aceito, para além dos círculos comunistas, até entre alguns democratas, ao que parece como uma herança da literatura contemporânea da revolução francesa.

Ainda assim, o seu uso não foi, somente, um recurso literário ao final da Mensagem de Marx à Liga dos comunistas, porque se contrapunha a outras duas concepções estratégicas: (a) a dos radicais democratas (na França, o grupo Ledru-Rollin, herdeiros mais próximos da tradição jacobina) que defendiam de alguma forma uma republica social para o futuro, mas que estavam engajados, de corpo e alma, na perspectiva de que a burguesia liberal chegasse ao poder atavés de uma revolução e consolidasse a república democrática por todo um período histórico; (b) outra era a posição dos que negavam a necessidade ou mesmo a possibilidade de uma revolução burguesa, ainda que em uma primeira fase democrática do processo revolucionário, como os blanquistas, e que defendiam a iminência, sem mediações, da revolução comunista. A seguir temos o último parágrafo da famosa Mensagem:

“Mas a máxima contribuiçáo para a vitória final será feita pelos próprios operários alemães, tomando consciência dos seus interêsses de classe, ocupandó o quanto antes uma posiçao independente de partido e impedindo que as frases hi­pócritas dos democratas pequeno burgueses os afastem por um instante sequer da tarefa de organizar com toda independência o partido do proletariado. Seu grito de guerra há de ser: a revolução permanente”. (grifo nosso)[1]

Trotsky elaborou, também, uma teoria para a compreensão da degeneração do Estado na URSS ao articular a defesa do internacionalismo com a defesa da democracia socialista. Publica “A Revolução Traída”, em 1936, quando apresenta a caracterização da URSS como Estado operário, burocraticamente, degenerado.

Neste livro sobre o processo de transição, Trotsky defende que a URSS, em função do seu atraso e isolamento após a derrota da revolução alemã, era um híbrido, necessariamente, transitório: uma combinação contraditória, e insustentável de formas históricas incompatíveis: (a) uma infraestrutura econômica pobre, muito atrasada em relação aos países capitalistas centrais, predominantemente, agrária; (b) uma estrutura de relações de produção pós-capitalistas, definidas pela propriedade estatal e planejamento, conquistadas pela revolução de outubro, que eram as mais avançadas do mundo; (c) uma superestrutura estatal arcaica e, desproporcionalmente, agigantada, capturada por uma casta de funcionários para a defesa de seus próprios privilégios.

Esta análise do processo de burocratização da URSS sustenta a previsão de que, ou os trabalhadores fariam uma revolução política democrática, ou o capitalismo seria restaurado. Infelizmente, foi o que acabou acontecendo.

Mas a história não para. A luta contra o capitalismo permanece o desafio mais grandioso do tempo que nos cabe viver. A geração socialista mais jovem retomará o fio de continuidade dos combates que vieram do século XX. Encontrarão na obra de Leon Trotsky uma inspiração para os combates decisivos, que são sempre aqueles que  estarão à nossa espera no future, não os que ficaram para trás.


[1] MARX, Karl e ENGELS, Friedrich.Mensagem do comité central à Liga dos comunistas” In Obras Escolhidas. São Paulo, Alfa-Omega, p.92.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

Valerio Arcary
Valerio Arcary
É professor titular do IFSP. Doutor em história pela USP, estudou na Universidade de Paris e Lisboa entre 1974/78, participou da revolução portuguesa, voltou ao Brasil e se uniu à Convergência Socialista, esteve presente na reconstrução da UNE em Salvador em 1979, na fundação do PT em 1980 e da CUT em 1983, sendo secretário-geral da CUT/São Paulo entre 1985/86. Atuou na Apeoesp entre 1983/90, foi membro da Executiva Nacional do PT entre 1989/92, e foi presidente nacional do PSTU entre 1993/98 e, desde 2016 é membro da Coordenação Nacional do MAIS/PSOL. É autor de O martelo da história, entre outros livros.