Valerio Arcary

15 de julho de 2019, 06h40

Valerio Arcary: O Congresso da UNE, quarenta anos depois de 1979

As lembranças são avassaladoras. Em 1979, tínhamos entrado na fase final da luta contra a ditadura. Não sabíamos como ia acabar a tirania. Mas parecia que era iminente. Acabou sendo mais longa a agonia

Congresso da UNE em 1979 (Arquivo)

Um céu azul lindo do tamanho do mundo. Eles são milhares, incansáveis, e o sol brilha inclemente sobre nossas cabeças. Bandeiras de todas as cores na passeata. Estou na esplanada dos Ministérios em Brasilia na marcha dos estudantes. Ontem me emocionei nos eventos aqui em Brasilia. Estar presente neste Congresso da UNE, quarenta anos depois de ter ido ao Congresso de reconstrução em Salvador, me deixa sentimental. Emocionado. A cor mais bonita é o vermelho.

As lembranças são avassaladoras. Em 1979, tínhamos entrado na fase final da luta contra a ditadura. Não sabíamos como ia acabar a tirania. Mas parecia que era iminente. Acabou sendo mais longa a agonia. Cinco longos anos, até às “Diretas Já” colocarem entre cinco e sete milhões nas ruas em 1984. Um sopro na história. Uma terrível lentidão em nossas curtas vidas.

Mas o desafio estratégico era claro. Ou o movimento estudantil, um dos movimentos sociais mais dinâmicos, abraçava a linha eleitoral da direção liberal do MDB, liderado por Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, e aceitava as condições da transição lenta, gradual e segura, e aguardava 1982; ou se deslocava para uma aliança com o movimento dos trabalhadores que ressurgia com as greves selvagens e apostava na mobilização frontal para tentar a derrubada revolucionária da ditadura. A esquerda moderada defendia a primeira tática, e permanceu no interior do MDB até 1985. A esquerda radical defendia a segunda, e se engajou na construção do PT, em 1980, e da CUT, em 1983.

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A situação em 1979 era quase oposta a de hoje. A situação contrarrevolucionária tinha ficado para trás em 1974, e estávamos em um etapa de transição. A relação de forças evoluía favoravelmente. O governo Figueiredo era um governo bonapartista decadente, quase senil, mas não menos perigoso por isso. Uma geração proletária jovem, muito concentrada e combativa, mas inexperiente se colocava confiante em movimento e aprendia, rapidamente. A classe média de deslocava, vertiginosamente, para a oposição ao regime. A classe capitalista, cúmplice com a ditadura por quinze anos, começava a desconfiar da sustentabilidade do regime diante do crescente mal estar social gerado pela super inflacao.

O que, finalmente, acabou acontecendo foi que Montoro, Tancredo e Brizola venceram as eleições de 1982, mas foi necessária a mobilização de milhões para derrotar Figueiredo. A ditadura acabou, mas não foi derrubada.

Hoje a relação de forcas entre as classes é inversa. Não estamos na ofensiva, mas na defensiva. A situação é reacionária, ainda muito desfavorável e há muitas explicações disponíveis. Aprecio as palavras suaves. Mas há que dizer as coisas como são. Porque manter a lucidez tem importância.

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Há dois grandes campos de análise sobre este tema. Ou o que aconteceu era inevitável, uma espécie de fatalismo, ou a esquerda cometeu graves erros. Se aceitamos a interpretação fatalista, descarregamos as responsabilidades de nosso trágico destino atual às grandes massas, e cultivamos um ressentimento. Este tipo de rancor, mesmo se dirigido, especialmente, contra a classe média é estéril e, politicamente, impotente.

Sejamos honestos com nós mesmos. O golpe do impeachment era previsível. A condenação e prisão de Lula era previsível. A reforma trabalhista era previsível. A eleição de Bolsonaro era previsível. A reforma da previdência, em decorrência, era previsível.

Toda esta dinâmica de derrotas repousa numa inversão geral da relação social de forces que aconteceu a partir da derrota na disputa, em 2014, da onda de protestos de 2013. Que não pode ser compreendida sem um balanço do que foram os treze anos de governos liderados pelo PT, e a derrota da estratégia de governabilidade lulista.

Não houve, portanto, surpresa alguma na votação da reforma da previdência. Sim, é muito triste. Infelizmente, é assim. A unidade burguesa prevalece. A classe média apoia ainda, em maioria o governo Bolsonaro. Entre os Trabalhadores, o sentimento predominante é de insegurança, incerteza, e até desânimo. A conjuntura aberta no 15 de maio foi um sopro para a resistência. Mas não se transformou em vento forte.

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Mas estar aqui em Brasília cercado de tantos milhares de jovens motivados confirma a percepção de que estamos acumulando forças. Lentamente. Nadando contra a corrente. Há uma disposição de luta verdadeira nos olhos dos que desfilam pela esplanada.

Eles levantam bandeiras.

Eles me emocionam.

Pronto, fiquei sentimental.

A cor mais bonita é o vermelho.


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