Colunistas

23 de fevereiro de 2018, 22h10

A Wakanda do “Pantera Negra” é um quilombo no espectro planetário de dominação

Em conversa com Douglas Belchior e Viviane Pistache, representatividade, visão colonizada da África, negritude na diáspora, táticas políticas em conflito e o privilégio dos isolados em meio à miséria

Na coluna desta semana entrevistei os intelectuais militantes do movimento negro Douglas Belchior e Viviane Pistache. Aproveito para convidar o leitor para voltar à coluna na semana que vem, quando Viviane tratará novamente do “Pantera Negra”, mas desta vez sobre a representação das mulheres no filme.

Tomaz Amorim: Douglas e Viviane, o “Pantera Negra” é um filme de ficção científica. Ele diz algo sobre a África de verdade? Nós estamos acostumados com uma representação colonial que mostra a África como lugar de miséria, de pobreza. Aí vem este filme e mostra um reino africano rico e cheio de tecnologia. É só fantasia?

Douglas Belchior: A arte imita a vida, né. É verdade que a África esconde tesouros. A África enquanto continente é uma Wakanda do ponto de vista da riqueza planetária. É por isso que ela foi sempre violentada, porque os outros queriam o usufruto das suas riquezas naturais e humanas. Um importante exemplo disso foi a experiência da República de Biafra, muito bem relatada na obra “Meio Sol Amarelo”, da escritora Chimamanda Ngozi Adichie. O projeto de país que Biafra representou foi em parte derrotado em função da potência de recursos petrolíferos, assim como se deu em toda a Nigéria, cujas riquezas naturais são, em grande medida, a razão do massacre que alçou este país à atual condição de miserabilidade tão propalada.

Viviane Pistache: Mas essa imagem de um continente desfavorecido tem sido historicamente questionada no sentido da sua superação. E esse deslocamento de imaginários proposto no filme tem importantes antecedentes, como a obra do grande pensador senegalês Cheikh Anta Diop (1923-1986), que revolucionou o pensamento mundial, ao apontar que o Egito Antigo foi uma civilização negra, abalando assim um racismo científico que fora tão bem sedimentado no imaginário ocidental. No Brasil, também temos publicações que enaltecem a riqueza intelectual do continente africano e dos povos negros na diáspora, a exemplo da obra “Gênios da Humanidade”, fruto do incansável trabalho de pesquisa do historiador Carlos Machado. Assim, no sentido de reverter os efeitos nefastos do eurocentrismo na formação na nossa consciência política, importantes segmentos intelectuais negros têm disputado a construção de novos imaginários sobre negritude, ocupando espaços seja na linha de frente ou nos bastidores. E desse modo tentar retirar das lentes brancas o arbítrio poder de definir o que o negro pode pensar sobre si próprio e reivindicar outras representações imagéticas.

Tomaz Amorim: Aí entra a questão do Afrofuturismo. A África é pensada sempre como o continente do passado primitivo e a questão do Afrofuturismo é justo mostrar e imaginar um lugar no futuro para a África, para os africanos e para os africanos na diáspora. Quando a gente pensa na África, a gente também pensa em tradição, mas no pensamento ocidental isso é muito separado. Tradição é uma coisa e tecnologia é outra, são coisas opostas. Vocês têm interesse nisso? O que acham dessa questão tecnológica, a tecnologia de uma perspectiva africana.

Douglas Belchior: Eu acho esses esforços políticos e artísticos muito importantes. Eu não conheço muito, mas são segmentos de produção de cultura que podem e devem ser ocupados por uma perspectiva que aborda questões raciais. Eu acho ótimo, acho que a população negra também tem todo direito de produzir e consumir esses produtos de cultura, de formular e consumir, não apenas de consumir. São espaços que também precisam espelhar a diversidade do mundo. Agora, sobre a questão tecnológica da África. A África sempre foi uma reserva de riquezas naturais, mas também da experiência humana para o mundo. É preciso lembrar que do ponto de vista da produção de vários segmentos do conhecimento, a África alimentou o mundo. Matemática, Música, Filosofia, Literatura, basta ver, por exemplo, a importância do Egito para a Grécia e das próprias cidades gregas no norte da África. A importância indisputável da influência africana na música popular do mundo todo: Jazz, Soul, RAP, Rock, Samba, Bossa Nova. A África sempre alimentou o mundo para além do material humano reduzido ao trabalho compulsório, para além dos seres humanos escravizados mundo afora. A África, assim como Wakanda, é precursora de avanços tecnológicos, de conhecimentos que foram exportados ou roubados para usufruto do norte racista e elitista. Então, o filme não é só invenção, mas tem um lastro histórico, um paralelo com a realidade histórica.

Viviane Pistache: No que concerne à discussão sobre Afrofuturismo, o filme faz uma importante sugestão de cunho político: a suposta História dos Vencedores, tal como conhecemos, é também um atestado de que um projeto político branco e masculino falhou, pelo menos do nosso ponto de vista, pois só criou e aprofundou desigualdades entre os povos, violências e múltiplas misérias. O filme teve o mérito de suscitar algumas utopias, como um projeto político que seja africano, negro, que concilie tradição e modernidade; num encontro profícuo entre ancestralidade e juventude, força física e sabedoria estratégica, um projeto de governo em que as mulheres são fundamentais e não meras coadjuvantes. Saímos da sala de cinema com a sensação de que nossos passos vêm de longe, pois como diz a escritora angolana Dya Kasembe: “Entre as pernas da mulher, correm os caminhos do mundo”. Reconhecemo-nos na luta de Okoye, que bravamente lidera o exército das Dora Milaje, e em todas as mulheres negras que têm lutado historicamente, ainda que reiteradamente invisibilizadas nas múltiplas batalhas cotidianas.

Black Panther 2018, Sun Ra 1974

Tomaz Amorim: Daí chegamos em uma das questões principais em relação ao filme: representatividade. Os dois lados da moeda. A gente sabe que a representatividade é fundamental. Para as crianças negras ter um filme de alta produção de um super-herói parecido com elas é um impacto gigantesco no psicológico. É ele ou ela ali na tela, finalmente, pela primeira vez. Por outro lado, é a indústria do cinema, é um nicho de mercado, que a indústria foi forçada a reconhecer, mas é um nicho de mercado. Eu queria que vocês falassem um pouco sobre isso. De uma perspectiva só afrocentrada, o filme é um grande sucesso. Já de uma perspectiva afrocentrada de esquerda a questão é mais complexa. O que vocês acham?

Douglas Belchior: Veja, é um filme de Hollywood, é feito para lucro, é um produto formulado para um certo público dialogando com o momento. Um produtor olha para o mercado e percebe que há demanda por determinado produto, que há um nicho de mercado que não foi explorado. Então, antes de tudo, esse é o pressuposto do cara. Como não conseguiram impedir uma certa ascensão, então o Capital fez o que sempre faz, cooptar para que isso possa gerar lucro, sem romper com a lógica estabelecida. Mas mesmo considerando isso, as coisas são contraditórias, é um filme muito legal, um filme que traz a África fora do imaginário que temos dela, que eles têm dela, a África como um lugar selvagem e primitivo. Você tem um filme de longa-metragem de Hollywood, da Marvel, mostrando a África como ponta-de-lança da tecnologia mundial. É uma narrativa poderosa, que mexe com o imaginário e nós sabemos como o imaginário também é fundamental na política. Wakanda é uma experiência de autonomia, é um quilombo no espectro planetário de dominação. Após a sequência de acusações de racismo que a grande indústria cinematográfica norte-americana tem sido alvo, o debate racial já não pode ser ignorado. Após dez anos de existência e dezoito filmes, a Marvel aparentemente atingiu alguma maturidade conceitual que a permitiu experimentar construir um filme que mesclasse entretenimento e debate político.

Viviane Pistache: Uma estratégia usada para a divulgação do filme foi conceber uma imagem do T’Challa o rei de Wakanda, sentado no trono em trajes de Pantera Negra evocando a icônica foto de Huey P. Newton, cofundador do Partido dos Panteras Negras, sentado numa cadeira de vime. O militante aparece vestindo a clássica combinação de jaqueta de couro preto e uma boina, trazendo ainda com rifle numa mão e uma lança na outra, além de estar cercado por artefatos de origem africana.

Ademais, é possível perceber que se trata de uma ficção científica alimentada por elementos de importantes documentários lançados recentemente a exemplo de “Eu não Sou Seu Negro”, de Raul Peck e 13ª Emenda, de Ava Duvernay. O resultado disso é que “Pantera Negra” figura como um filme altamente bem avaliado pela “Rotten Tomatoes”, plataforma norte-americana que agrega críticas sobre cinema de todo o mundo. Obviamente que vale problematizar até que ponto essas produções realmente revolucionaram a indústria cinematográfica; mas é inegável que está em curso uma profunda transformação no modo como são concebidas as peças criativas, bem como as personagens negras, com histórias profundamente melhores talhadas. Tudo isso graças ao fato de que cada vez mais aumenta o percentual de artistas e intelectuais negros bem formados e capacitados para atuar no setor cinematográfico tanto à frente das telas bem como, e sobretudo, nos bastidores, que é o coração da produção audiovisual. Apesar da ampliação das oportunidades que se abrem para os profissionais negros, os brancos ainda são os mandatários do processo em todas as etapas, fazendo uso do potencial revolucionário da linguagem visual reescrita numa perspectiva antirracista para continuar multiplicando suas fortunas.

Tomaz Amorim: A questão da representatividade é sempre política, né? Às vezes, as pessoas e os grupos interessados em que não se politize nada, para que as coisas sigam como elas estão, acham que a representatividade se basta em si mesma. Que com mais negros, mulheres e LGBTs em posições de poder, por exemplo, as coisas vão, por si só, se equilibrar.

Douglas Belchior: O pressuposto de um pensamento libertador descolonizado parte da análise de como o mundo se estabelece, de como ele funciona, de como essas forças interagem. No mundo moderno, do capitalismo moderno, ele se cristaliza a partir da posse da riqueza, da tomada da riqueza enquanto propriedade de um grupo. O que a gente viu se desenvolver no último século e meio foi o desenvolvimento de um sistema planetário que garantiu a partir da opressão o subjugo dos povos do Sul pelos povos do Norte. Uma superconcentração de riqueza, poder político, econômico e bélico nas mãos dos povos do Norte, nas mãos daqueles que colonizaram os territórios do Sul e o Novo Mundo. Então, é óbvio que a representação, do ponto de vista do imaginário, é importante, mas nós partilhamos da ideia daqueles que pensam descolonização e liberdade a partir do rompimento com esse sistema. É necessariamente uma leitura que reivindica a matriz de origem racial, que reivindica uma perspectiva do mundo a partir dos olhos e da vida dos povos historicamente oprimidos, africanos, ameríndios e outros, contestando a maneira como a sociedade está organizada. A representatividade sem esses valores não serve como um instrumento para libertação, é simples assim. A reivindicação da identidade racial pode ser explosiva, revolucionária, libertadora. Ou ela pode servir apenas como um souvenir narrativo, como enfeite na fachada de um shopping. Não basta que os pretos sejam considerados belos se eles continuarem sendo mortos pela polícia e se as mulheres continuarem sendo estupradas, abandonadas e subjugadas. Não adianta o fato de finalmente haver representação negra nas novelas e nos comerciais se o povo que produz aqueles produtos jamais vai ter acesso a eles. Então, eu corroboro com a ideia da valorização da representatividade, mas da luta por uma representatividade que esteja ligada a um projeto de libertação, de uma representatividade que se dá a partir do rompimento com esse modo de vida do Capital, com o sistema do superconsumo que para permanecer de pé precisa necessariamente que poucos vivam bem e uma maioria esmagadora viva mal. Nesse sentido, a representatividade por si só, a representatividade vazia que apenas faz uso dos corpos desvinculado de projetos, não resolve o nosso problema. O que adianta uma representatividade, uma representação política que não propõe solução para os nossos problemas? O Fernando Holiday é exemplo disso. É você ter uma figura negra que não propõe o rompimento, mas que, pelo contrário, retroalimenta o sistema, que oprime seu povo, que muitas vezes presta serviço ainda mais eficiente para o opressor. É muito mais eficiente um presidente operário à serviço das elites, é muito mais eficiente um afrodescendente a serviço do privilégio branco.

Viviane Pistache: Este filme certamente vem na esteira do debate puxado por importantes nomes de artistas e diretores negros tanto nos Estados Unidos e na Europa, que têm interpelado a grande indústria sobre a sub-representatividade negra histórica neste setor. O conjunto destes eventos, somados ao trabalho incansável de artistas negros, tem contribuído para que algumas mudanças aconteçam, ainda que muito aquém do necessário. Exemplo disso foi que o constrangimento quanto à ausência de figuras negras em importantes premiações como a do Oscar 2016 gerou repercussões que vão além da consagração do “Moonlight” (dirigido e protagonizado por negros) como melhor filme no ano seguinte. Vale lembrar o impacto do discurso da apresentadora Oprah Winfrey na cerimônia de entrega do Globo de Ouro, que escancarou as lacunas e potências do discurso sobre representatividade negra não apenas na indústria do entretenimento, indo muito além, no sentido inclusive de apontá-la como possível panaceia para sanar as enfermidades da combalida democracia norte-americana. Assim, uma mulher negra, que fez carreira na indústria do entretenimento, ao passo que denuncia as desigualdades de raça e gênero na representatividade no audiovisual, ocupa também um complexo papel de bússola para uma nação sem rumo. E vale lembrar que Oprah Winfrey compõe o panteão dos novos profetas do Capital, sendo eleita uma das maiores pensadoras neoliberais da atualidade. Apesar do desconforto de saber que o traje do sistema é uma camisa de força com estampa neoliberal; dentro das margens opressoras, talvez seja possível considerar que Oprah e um conjunto de artistas, diretores e empresários negros estejam ajudando a esgarçar alguns limites, colorindo de gênero e raça correntes ideológicas do entretenimento que são hegemonicamente brancas e masculinas. Se por um lado é sintomático destes tempos a noção de que devemos nos adaptar ao mundo em mudança, e não mudar o mundo em que vivemos; por outro, sujeitos negros no mundo do entretenimento estadunidense nos provocam a atentarmos para os papéis das estruturas políticas, econômicas e sociais em nossas vidas. Ainda que estejam promovendo o sonho americano como possível; o fazem exacerbando os ruídos de desigualdades de gênero e raça, que marcaram historicamente uma cidadania de segunda classe dos/das afro-americanos/as. Assim, é que surge o “Pantera Negra” que a um só tempo tenta implodir e reconstruir este malfadado sonho em novos termos.

Tomaz Amorim: Douglas, você gosta de super-heróis? Quando você era mais moleque ou adolescente, você assistia coisas assim? E a questão racial, tem algum herói de que você lembra ou você sentia falta de uma representação assim?

Douglas Belchior: Cara, eu fui uma criança que adorava heróis. Mas no meu tempo não tinha nem resquício de um debate racial relacionado a isso, não tenho lembrança de nenhuma referência de super-herói. Mas também porque eu sempre acompanhei a indústria da cultura mais de massa, generalizada. Nunca fui um cara que foi procurar quadrinhos específicos, desenhos específicos. Nem tinha esse papo de canal fechado, antes o máximo que tinha era satélite, e não tinha produção mais específica a qual eu tivesse acesso. O máximo que eu consumia fora do padrão do herói americano eram os japoneses. Então, sim, eu tive heróis que não eram americanos, o Jiban, o Jiraya, o Flashman. Isso também influenciou na minha geração, da minha adolescência até os 90, era o que fazia sucesso no mercado fora desse radar da produção americana. Era a produção dos japoneses, o que não deixava de ser contra-hegemônica. Mas eu sempre gostei, sim, só não tive muita chance de acompanhar profundamente. Para falar a verdade, acho incrível que agora tem um monte de série. Claro, é uma questão de mercado, a produção industrial da cultura e do diálogo que o Capital faz com a demanda, mas hoje você entra no Netflix e eu mesmo estou assistindo umas três ou quatro séries de heróis negros: Nick Cage, Raio Negro, e tudo mais. Eu estou achando isso lindo!

Tomaz Amorim: Quando eu saí do filme eu fiquei me perguntando quem era o verdadeiro vilão da história. Porque o Killmonger, o vilão, não tem uma pauta parecida com a nossa, de luta internacional, antirracista e de esquerda? Ele é o cara que quer, com a tecnologia de Wakanda, ajudar libertar os povos oprimidos do mundo. É o caminho da violência revolucionária. Enquanto que o Pantera Negra, na tradição da família real, quer conservar a situação em Wakanda e proteger seu povo. Quem é o vilão do filme para vocês?

Douglas Belchior: Vou te dizer que o que me incomodou no filme, mas tem razão de ser, é o fato de que os vilões são invisíveis, eles quase não aparecem no filme. O que aparece são as vítimas dos grandes vilões do planeta disputando um entendimento, uma narrativa, uma compreensão do mundo. Desse modo, os verdadeiros vilões seguem imunes, com os pescoços seguramente blindados e confortáveis em colarinhos brancos; ao passo no campo das lutas antirracistas, bem como as de esquerdas, feministas ou das questões lbgtqias e tantas outras, eventualmente perdemos com o narcisismo das pequenas diferenças, que cria fraturas entre nós que acabam por fortalecer o “status quo”.

Viviane Pistache: Na contramão disso, o filme apresenta poderosas metáforas: Apesar de atuarem em campos ideológicos distintos, tanto Killmonger quanto o Pantera Negra apresentam projetos políticos para emancipação e fortalecimento dos povos pretos na diáspora. Tendo em vista que as ações de Killmonger são fortemente informadas pela noção de pan-africanismo, é complexo rotulá-lo de vilão numa acepção simplista. Ele está muito mais para antagonista, um espelho diante do qual é possível refletir de modo mais acurado, a face do protagonista desta história. Obviamente que houve uma aposta na trama de vilanizar algumas de suas ações, destacando posicionamentos equivocados ou violentos para enfraquecer, em alguma medida, o fio de empatia que o espectador cria com ele. Mas, no geral, a posição ideológica de Killmonger complementa, amplia e enriquece a do Pantera Negra.

Tomaz Amorim: As duas posições, a do Pantera Negra e a do Killmonger, são legítimas?

Douglas Belchior: Sim, são duas compreensões extremamente legítimas. A do Pantera é daquele que quer preservar seu povo e que percebe a África como ela é de fato. A África não é uma coisa só, não é país de um povo, não é uma língua, não é uma etnia, mas é uma diversidade gigantesca. A África como continente é composta por povos diferentes entre si, culturas, religiões, matrizes e que por causa dessas diferenças sempre lutaram, sempre se indispuseram, como em outras regiões do mundo. Essas diferenças são parte da cultura e da história da África. Tem uma cena muito simbólica do Pantera Negra conversando com o Killmonger, quando ele diz: “O mundo está repleto de milhões de negros, de pessoas parecidas com a gente, e vocês, com tudo isso aqui, nunca fizeram nada. É o nosso povo”. E o Pantera responde: “Não, não é o nosso povo, o nosso povo é esse aqui, esse é o meu povo”. E os dois têm razão. Os dois são heróis a partir das suas histórias e dos seus pontos de vista. Mas os dois são vítimas de um sistema. O Pantera é rei da sua tribo, então ele a defende e, em última instância, ele está certo nisso, tem razão de ser. E o outro, que é fruto da diáspora, da violação da diáspora, está correto também, a partir de uma visão pan-africanista de que somos todos um povo africano e que, portanto, essa unidade é necessária para a libertação.

Viviane Pistache: Apesar das diferenças que existem quanto aos posicionamentos destes personagens, é possível encontrar pontos de convergências entre ambos. Por exemplo: A perspectiva de T’Challa, o protagonista de Pantera Negra, em alguma instância é informada pelo sentido de africanidade na obra de Frantz Fanon, uma vez que a centralidade da África para Fanon é de tal ordem, que acaba sendo não é apenas um tema, mas é o ponto de partida, a matéria, o sumo, o coração de suas proposições teóricas e de ação política. Curiosamente, é possível dizer que o personagem de Killmonger também é informado pelo legado de Fanon, no que concerne a possibilidade de adoção de ações violentas como estratégias de autodefesa e luta por parte do colonizado.

Tomaz Amorim: A leitura de uma África única já é resultado da leitura colonial da África. Mas ela também tem algo de libertária em um contexto de exploração global. E é esta leitura ao mesmo tempo colonial e libertária que o Killmonger traz?

Douglas Belchior: É curioso. Ele é o antagonista que leva a leitura colonialista da África para dentro daquela comunidade. Mas existe um sentido teórico, no sentido de um Steve Biko ou de um Frantz Fanon, de que somos todos um povo, de que deveríamos todos ter uma consciência negra. Somos todos africanos da diáspora, alvos da mesma opressão e é isso que nos unifica. Se somos diversos na África, somos um povo só fora da África, alvo da violação histórica e do racismo estrutural. Então os dois são heróis do seu ponto de vista e da sua realidade. Ambos, oprimidos pela hegemonia racial branca e capitalista do mundo.

Viviane Pistache: Apesar de Wakanda ter conotações paradisíacas, está plantada num mundo condenado pela tragédia da escravidão; secularmente alimentado pelos múltiplos frutos da violência, seja física, psíquica, ideológica, simbólica, estrutural etc. Não por acaso, a armadura do Pantera Negra absorve a violência que lhe é desferida para se tornar mais forte, numa leitura incrível do que vem a ser resiliência. Ao passo que Killmonger, à semelhança de Malcom X, redefine a violência como estratégia de luta, depois de ser reiteradamente violentado. É comovente a cena entre Killmonger criança e seu pai na dimensão ancestral: “Filho, você não vai derramar uma lágrima por mim? Não pai. Aqui morre-se muito todos os dias”. Com diálogos dessa envergadura, o filme, apesar de ser um “blockbuster”, abre espaço para reflexões sobre a necropolítica que enseja o genocídio da população negra. É uma narrativa que infelizmente soa completamente familiar para nós, brasileiros. Não por acaso, em entrevista ao jornal O Globo, Michael B. Jordan que deu vida ao Killmonger, revelou que um dos exercícios para a construção do personagem foi um aprofundado estudo sobre o filme “Cidade de Deus”. Mas tendo em vista que a violência é também prerrogativa do imperialismo, Killmonger não tem como negar sua condição de negro estadunidense. As marcas que carrega na pele certamente remetem às cicatrizes das tatuagens dos povos Mursi e Surma na Etiópia; mas são ao mesmo tempo, sinais que comprovam que Killmonger é uma eficiente máquina mortífera construída pelo sistema bélico estadunidense.

Tomaz Amorim: Mas a nossa visão, de brasileiros, acaba sendo a visão da diáspora, não é?

Douglas Belchior: Nós que somos negros da diáspora temos dificuldade em perceber o que é a realidade africana. A gente percebe isso muito nos africanos que vêm para cá, quando alguns deles preferem não se meter nos nossos problemas raciais. Porque para eles parece que não tem nenhum sentido, já que lá cada povo é um povo. Na lógica deles não tem nenhum sentido dizer que “somos uma coisa só” porque lá quem oprime os pretos são eles próprios. Então, a nossa discussão aqui não tem nada a ver com disposição na realidade deles. É contraditório, mas também tem um potencial crítico: a nossa leitura de negros da diáspora, quando entendemos que somos todos um povo africano, vítimas do racismo e do capital no mundo, é uma leitura colonizada. É uma leitura fruto da opressão colonizadora e de alguma maneira essas duas visões se opõem no filme. A visão africana de quem não foi colonizado e a visão por assim dizer pan-africana (no sentido de pan-africanista de esquerda do Fanon, de N´Krumah e das lideranças revolucionárias internacionalistas nas lutas por independência na África), que é uma visão “colonial” da realidade dos negros. No filme, os africanos não colonizados ganham. O Pantera Negra mata o Killmonger, mas vai acertar contas com seus ancestrais concordando com ele de certa forma. Ele diz: “Poxa, vocês erraram, vocês deviam ter cuidado do mundo”. Ele volta, mata o rapaz, garantindo assim a vida e a defesa do seu povo, mas termina o filme falando na ONU que seus antepassados erraram e que, sim, eles deveriam dali para frente construir um mundo melhor, construir pontes. Ou seja, é a leitura do negro que viveu a experiência da colônia e que, a partir disso, enxerga uma saída comum para o problema do mundo atual.

Viviane Pistache: É necessário pontuarmos que sendo este filme um produto da indústria do entretenimento, está completamente desobrigado de ser um tratado sobre o pensamento africano na atualidade. No entanto, “Pantera Negra” acabou suscitando reflexões sobre alguns conceitos bem caros à intelectualidade negra mundo afora. Assim, noções como imperialismo, colonialismo, neocolonialismo, consciencismo, pan-africanismo, pan-negrismo, pós-colonialismo, descolonialismo, afropolitanismo, diáspora, dentre outras, podem ser levemente pinceladas ao longo da trama. Tendo em vista o extenso e complexo fio histórico que envolve cada um destes conceitos, certamente que nas poucas linhas que nos cabe aqui, não daríamos conta de contemplar a monumentalidade deste debate teórico. No entanto, seria importante ao menos apontar estas pistas conceituais para quem quiser aprofundar o entendimento desta obra fílmica.

Tomaz Amorim: Para além da disputa entre uma visão plural da África a partir da África e de uma leitura unificadora da África vista a partir de fora, o filme também coloca uma disputa de métodos, de tática de ação. Não sei se você concorda, mas para um filme de super-heróis ele coloca a questão de um jeito muito matizado. Parece que tem ali tradições de pensamento e posturas em embate, sem que apenas uma tenha razão total. Como você vê esse aspecto mais diretamente político do filme em relação às lutas negras?

Douglas Belchior: Considerando o pano de fundo do filme, não é a revolução, obviamente, mas dentro dos limites que estão estabelecidos o filme traz mensagens que são muito importantes. É como nessa analogia fazem entre o Professor Xavier e o Magneto dos X-Men com as ideias do Martin Luther King e do Malcolm X, em que pesem as diferenças e discordâncias, ambos são muito importantes historicamente na luta do povo negro. Diálogo e negociação quando é necessário, e radicalização quando é necessária. Entre as posições do Pantera Negra e do Killmonger, qual seria então o caminho da solução para os nossos problemas e para a mudança efetiva na realidade? Isso fica a cargo da análise, do segmento de pensamento que cada um vai fazer, mas tem muita mensagem ali que não é nem subliminar, mas explícita. Quando o Killmonger se aproxima do Pantera Negra pela primeira vez e faz a cobrança de que há muitos parecidos conosco que morrem todos os dias, que são oprimidos, é uma denúncia forte. É o Malcom X brigando com Luther King quando ele diz para ele: Você fica negociando, oferecendo a outra face, querendo compor um mundo com os assassinos do nosso povo. Então, tem muito sentido nessa cobrança. Quando na hora da morte ele diz: “Jogue o meu corpo no oceano. Como todos os meus ancestrais que pularam dos barcos porque sabiam que a morte era melhor do que o cativeiro”, é muito pesado. É uma referência direta à escravidão e às consequências da escravidão. Outra coisa triste, mas que tem que ser dita, é que o filme também mostra como quase sempre aqueles que buscam lutar com mais radicalidade são levados à morte. A mensagem é que o radicalismo é ineficiente, que no final ele perde. O radical não se apresenta como uma solução, embora ele tenha razão na pauta dele. Enfim, parece que não existe uma única solução no final do filme. Os moderados sucumbem a uma determinada demanda dos radicais, mas não são os radicais que a levam a cabo, eles morrem. A pauta deles é incorporada e levada adiante pelos moderados, por assim dizer. Então, são questões complexas que o filme coloca, é uma contribuição de reflexão muito grande, muito bonita, muito poderosa, muito pertinente para o momento.

Tomaz Amorim: Mas também é possível pensar que o filme critica Wakanda. É a pauta do Killmonger, Wakanda como um mundo de privilegiados cercado de miséria. É difícil pensar nessa metáfora historicamente do ponto de vista racial. Nos EUA talvez dê mais, lá eles têm uma pequena elite negra, já tiveram um presidente negro, etc. É interessante como o filme inverte, coloca o reino africano como um lugar de privilegiados que pode contribuir com o resto do mundo. Mas a crítica, em sentido histórico, serviria mais aos Europeus que vão se fechando na sua fortaleza, ignorando os refugiados que suas políticas externas produzem. Ou os EUA, com Trump, que quer fechar o país com muros. Isso tudo é muito presente no Brasil de maneira complexa. O que você acha?

Douglas Belchior: O filme deixa uma provocação, é possível olhar para as relações internacionais e pensar nas experiências dos países que propuseram algum tipo de rompimento com a lógica mundial estabelecida. É possível uma ilha de privilégios cercada por um deserto, cercada pela miséria, pela fome e pela desigualdade? Nesse sentido, o internacionalismo é uma necessidade. No filme, o Rei e a tradição daquele lugar tentam de se proteger através do auto isolamento, ignorando as mazelas do mundo, mas é também por ignorá-las que eles acabam reafirmando e reforçando elas até o ponto em que elas se voltam contra eles. A ideia do nacionalismo e do isolacionismo, das políticas de “autoproteção” dos países, sempre geram uma contrarreação. Os Estados Unidos, a grande potência mundial, é superprotecionista, só pensa em si e oprime as demais nações do mundo. A mesma coisa com o comunismo nacional na Rússia. Não é possível um país que consiga se sustentar cercado de inimigos. É preciso compartilhar soluções, é preciso pensar o todo, não é possível permanecer por muito tempo alheio às desigualdades do entorno. Acho que é isso que fica do filme, não é? Se eu acumulo muita riqueza aqui enquanto ao meu redor só tem pobreza naturalmente eu vou ser alvo legítimo da insatisfação e do ódio. O Rio de Janeiro é um exemplo disso, dessa riqueza que é cercada de pobreza. Ela nunca vai dormir tranquila, vai sempre precisar de guarda. A cobrança que de alguma forma é feita de Wakanda serve a todos, serve para a classe média negra americana, para a esquerda no Brasil, serve para todos aqueles que acham que é possível viver com tranquilidade em meio ao mundo em caos. Não é possível.


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