Yuri Martins Fontes

28 de agosto de 2019, 22h58

“Marxismo cultural”: a pós-verdade no palco da crise mundial capitalista (III)

Yuri Martins Fontes: “Há um projeto de imbecilização da sociedade que não é só patrimônio brasileiro, mas que ora se explicita como um movimento pela promoção da ignorância mundial (vide Trump, Bolsonaro, Macri...)”

Foto: Reprodução/Twitter

Como discutido nas colunas anteriores, ainda que o cientificismo moderno seja a forma de pensamento que predomina por entre os donos do poder político internacional (geopolítico-militar, jurídico, macroeconômico), porém, no meio propriamente intelectual (da filosofia e das ciências naturais e humanas), esta corrente é decadente. Isto é fato desde que viu ruir suas pretensas certezas absolutas com a “destruição racional” promovida pelas elites controladoras do sistema, nas duas “tecnológicas” Guerras Mundiais fratricidas, bem como na real ameaça nuclear de extinção da vida (Guerra Fria, que não acabou).

Esses eventos, característicos da modernidade e de sua idolatria da razão meramente “técnica”, fizeram do século XX um tempo das maiores desgraças (inclusive em números absolutos e relativos) – a ponto de o historiador Hobsbawm denominar o século passado, de tantos holocaustos (sobretudo econômicos), como “era das catástrofes”.

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Cientificismo e pós-modernismo: duas faces do discurso capitalista

Historicamente, o cientificismo se consolida conforme se desenvolvem os tempos modernos, contribuindo com a recusa de metafísicas e teologias autoritárias, conservadoras e estranhas ao ser humano. Este pragmático saber moderno teve (e tem) seu valor: na obtenção de técnicas produtivas, mecânicas, industriais.

Contudo, no campo dos saberes mais complexos (“humanos”) – sociologia, psicologia, alimentação, ecologia – a pretensa “exatidão” cientificista já é chacota há tempos. Se ainda sobrevive com tamanha força, é por sua função de respaldar o conhecimento tecnicista das oligarquias, que mantêm sob seu braço policial, mediante instrumentos de controle de massas, as populações subalternas.

De fato, com a modernidade, as minúsculas elites se especializam na “arte” de manter privilégios, dominando e reprimindo com maestria as crescentes populações miseráveis: estes seres humanos cuja função existencial “moderna” não consiste propriamente em viver e se desenvolver, mas em servir aos senhores do capital e da guerra: proprietários dos maquinários produtivos e das terras cercadas do planeta – e “donos” também das leis e juízes.

Desta contradição explícita entre o poder (militar, econômico) da tradição cientificista, e sua decadência enquanto instrumento de conhecimento humano – em um século XX no qual os socialistas ganhavam rápido espaço na política e no pensamento humano global, com suas análises que expõem as contradições da sociedade e os reais motivos da injustiça social –, surgiu à elite uma questão: como manter a hegemonia do capital também na cultura e nas artes, nas narrativas históricas, literárias, éticas? Ou mesmo: como dirigir as “escolhas” da pesquisa acadêmica natural (já que, por exemplo, ao se decidir entre o tema da malária e o dos cosméticos, o cientista “exato”, “objetivo”, toma uma decisão bastante subjetiva, humana e carregada de interesses)?

A solução dos donos do mundo foi “confundir”, fingindo uma aposta na ideia diametralmente oposta daquela que praticavam. Passam então a investir em um relativismo extremista, tão irracional, quanto frágil: o pensamento pós-moderno, cuja função seria a de relativizar a força racional das explicações socialistas do mundo. Isto se dá a partir da crítica de certos aspectos exagerados, imprecisos ou pretensiosos de algumas análises por demais “rígidas” de alguns marxistas.

Contrariamente, os pós-modernos pregam algo como: “cada ponto de vista tem sua própria verdade” – como se vivêssemos numa historinha de ficção, sem “verdades concretas” e “gerais/universais” (que valham para todos). É como se a guerra e a fome e a desigualdade social deixassem de existir se paramos de pensar nelas e falamos da nova série netflix.

A afetação positivista do socialismo no século XX

Criticar as ilusões positivistas – especialmente nos pensamentos socialistas – é algo que os marxistas já o fazem desde os próprios Marx e Engels.

O socialismo contemporâneo nasce imerso na modernidade, e não poderia estar isento desta visão “cientificista” de mundo. É o que se viu no exagerado louvor ao “progresso técnico” das primeiras tentativas de implementação de uma sociedade socialista (União Soviética), com sua perspectiva excessivamente industrial de desenvolvimento social.

Foram muitos e graves os equívocos de análise dos socialistas no século XX, especialmente no caso daqueles que conseguiram o poder. Efetivamente, na recém-fundada URSS, país acuado e alvos de ataques militares e econômicos a Leste e a Oeste (tal qual uma Venezuela de hoje em dia), o governo socialista recaiu em “cientificismos”, que hoje já fazem parte da autocrítica histórica e filosófica marxista. Veja-se por exemplo a noção eurocêntrica de “evolucionismo social” (que atrasou uma adequada estratégia política em diversas nações); ou o esquema produtivo industrial (sem autonomia dos trabalhadores), que se assemelhou a um “capitalismo sem capitalistas”, conforme analisa I. Mészáros.

Assim, o projeto soviético, em meio a multilaterais ataques das potências centrais do sistema (desde o fim da I Guerra), teve necessariamente de atrasar ou adiar seus propósitos “democráticos”, abrindo flancos a críticas por parte de capitalistas autoritários, cuja “democracia” nunca passou de discurso publicitário.

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Aliás, não deixa de soar ridículo ver o nome “democracia” ligado às potências ocidentais com suas noções tão rasas de direitos humanos e liberdade: teses abstratas que põem o direito ao voto acima do direito à vida.

E mesmo no caso do “sagrado” direito ao voto, hoje é nítido que ele só valeu enquanto serviu ao capital (até esta virada de século, quando, após duas décadas de “ajustes” neoliberais, a decadência da civilização e miséria global se fez latente). Assim, no início dos anos 2000, a força hegemônica das grandes mídias porta-vozes do capital não foi suficiente para barrar projetos minimamente humanistas (reformistas ou socialdesenvolvimentistas, como o projeto bolivariano ou o petista, guardadas as diferenças de profundidade das reformas).

Diante desse novo cenário de consciência popular, o império, sede do poder capitalista, abandona a sacralidade do direito a voto, passando a derrubar governos democraticamente eleitos: começa a “era dos golpes”.

Pós-verdade: a absoluta banalização da razão

Mas nos voltemos à história da ascensão pós-moderna. A “cultura do capital”, através de suas milionárias fundações (Fundação Ford etc), com vistas a frear o desenvolvimento intelectual crítico, patrocinou renomados projetos acadêmicos – caso da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS de Paris, entre outros) –, que passariam a promover o questionamento do valor de “verdade” do conhecimento como um todo.

Foi uma forma astuta de se contrapor ao pensamento forte e combativo marxista que, embora a passos lentos, ganhava (e ganha) terreno, dada a conscientização mínima que a humanidade vem obtendo acerca de si mesma e de seus propósitos e necessidades (ao menos enquanto o capital em crise não logra transformar a vida e o planeta em uma árida barbárie).

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O discurso pós-modernista é um renovado relativismo da razão. Embora seja hoje usado pelo projeto político exploratório, nasceu de certas fissuras que, com mérito, foram percebidas por pensadores (como os pós-estruturalistas) nas “estruturas” dos saberes técnico-científicos e críticos (dentre os quais se destaca o marxismo).

[*Sobre a noção de “estruturas”: são os padrões que regem, que restringem sob suas normas e regras os movimentos da vida social, política, cultural, das ciências].

No caso dos cientificistas modernos, esta corrente, com certa ingenuidade cognitiva, perseguiu por séculos pretensas “verdades perfeitas” e “estruturas fixas”, de modo que se pudesse entender os mecanismos naturais e sociais – e usá-los para controlar a natureza e os homens, segundo os interesses das classes detentoras do poder.

Por seu lado, a corrente crítica dialética (marxista) centra suas forças em compreender as possibilidades de se compreender e transformar as estruturas sociais (o poder, a cultura etc). Enxerga as estruturas como padrões bastante rígidos, sim! – mas com algum grau de liberdade, com algum espaço para mudanças, ainda que lentas, limitadas. Ainda que certas interpretações marxistas tenham exagerado a rigidez e poder das “estruturas”, só um completo alienado poderia supor, ainda hoje, que sua vida pessoal e profissional e cultural é livre das estruturas econômicas, sociais e culturais nas quais nasceu imerso.

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Contudo, para o pós-moderno não há estrutura alguma: a opinião de cada um tem valor de “verdade” (seja ingênua, interesseira, ou mesmo mentirosa/“fake”). No campo da academia e conhecimento, cada pesquisa só tem validade extremamente reduzida, local; cada saber é desligado do outro saber vizinho e inter-relacionado; toda ciência não passa de ficção literária. E, assim, a economia neoliberal agressiva fica absolvida de toda miséria social, cultural e psíquica da sociedade capitalista, ou mesmo da criminosa devastação da Amazônia.

Esta foi a tática do capital, em seu enfrentamento da ascendente crítica social e histórica marxista: a “inofensiva” cultura pós-moderna… esta corrente “blasé-cult”, que não lhes ameaça o poder.

De fato, os pós-modernos nunca ofereceram um outro projeto racional de sociedade em substituição ao capitalismo predatório, a não ser a negação do projeto socialista de igualdade de direitos sociais e diminuição da desigualdade.

O discurso pós-moderno, sem projeto de poder, serve sempre ao capital: ora apoiando uma postura política passiva (que ao se abster promove o status quo neoliberal); ora a irracionalidade explícita, fascista, autoritária, que serve aos donos do mundo em momentos de crise social aguda.

Capitalizar é preciso, viver não é preciso

Os pós-modernos legaram certas contribuições importantes ao pensamento contemporâneo: caso da observação mais atenta das minorias sociais, questão do negro, do imigrante, da mulher (temas antes negligenciados por socialistas arcaicos ou simplórios). Todavia, de modo geral, a pós-modernidade pavimenta as veredas da recusa de qualquer razão/racionalidade/lógica.

Assim, nessa época de crise geral (estrutural) do capitalismo, cresceram as falas em defesa da ignóbil pós-verdade: o vale-tudo conceitual das “convicções” sem nenhum fundamento, das condenações sem provas.

Veja-se como ilustração o caso de Lula, líder estadista que pôs o Brasil pela primeira vez no mapa do mundo, por isto mesmo encarcerado, condenado sem nenhuma prova concreta por um anônimo Moro, juiz de quintal de província, mercenário a serviço das petroleiras dos EUA e comprovado criminoso e espião internacional (vide documentos da Vaza Jato), que anda livre e solto… ainda.

“Não há leis ou justiça”! – bradam os incautos – esquecendo-se de que “leis” e “justiça” são criações que sempre serviram, justamente, aos canalhas detentores do poder.

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Assim, o pensamento pós-moderno, relativista, e muitas vezes irracional, conseguiu dominar em grande medida o cenário cultural de nosso tempo – acadêmico, literário, intelectual, artístico –, contrapondo-se à teoria crítico-dialética fundada por Marx e Engels e continuada por tantos pensadores do campo “não místico”, nem “passivo”, do conhecimento.

Contudo, como se pode facilmente notar, são as teses positivistas, louvadoras do mito moderno do “progresso técnico”, as que seguem dominando as atividades político-estatais, militares e a administração capitalista da produção (que “racionalmente” queima as últimas florestas do planeta, e pauperiza populações inteiras com suas “reformas”, em nome da manutenção dos lucros de meia dúzia de magnatas).

Avaliando-o com profundidade, vê-se que este processo de relativização da razão, é sobretudo uma relativização da ética, ou de outro modo, de relativização da vida humana e de seu meio ambiente, considerados de menor importância diante da premissa categórica do lucro constante.

Não é preciso muita pesquisa ou estudos para se perceber que ideia capitalista de crescimento econômico “até o infinito” é uma falácia, uma impossibilidade lógica!

Apesar disso, continua a ser proclamada como a “única verdade” pelos “experts” – ideia que é vendida pela grande mídia (Globo, Estadão, Folha, El País) a uma população mundial cada vez mais inculta, embebida em diversionismos (séries, “games”), em satisfações imediatas e vãs de um consumo insustentável, quase sempre banal, senão tóxico e degradante (“tóxico” não só para o trabalhador que produz e não consome, como também para o consumidor médio de lixos e venenos).

Este é o plano capitalista da “pós-verdade”, ou de outro modo, um plano de perpetuar a crise da educação e cultura.

Um projeto de imbecilização da sociedade que não é só patrimônio brasileiro, mas que ora se explicita como um movimento pela promoção da ignorância mundial (vide Trump, Bolsonaro, Macri…).

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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