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29 de Maio de 2019, 06h00

A cervejaria que cutuca (todos) os políticos

Fórum conversou com o sócio responsável pelas campanhas da cerveja Rio Carioca, que aproveita fatos políticos para criar anúncios sarcásticos onde não escapa ninguém

Foto: Reprodução

Desde o seu lançamento, em março de 2015, a cerveja Rio Carioca tem chamado a atenção pelas suas campanhas publicitárias. Com um slogan principal que diz: “O espírito carioca engarrafado”, a fábrica usa e abusa da irreverência para promover sua marca.

A mais recente das campanhas brinca com o fato do ex-juiz federal e governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), ter mentido em seu currículo na plataforma Lattes dizendo que teria feito parte da pós-graduação em “judicialização da política” que ele cumpre na Universidade Federal Fluminense (UFF) na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Sem papas na língua a cervejaria lascou no anúncio em letras garrafais: “À venda nos botequins de Harvard”. Para, em letras menores, desmentir: “Na verdade não está, mas a gente gostaria de estar”.

Foto: Reprodução

Para explicar esta e outras campanhas e contar como surgiu o tal “espírito carioca engarrafado”, a Fórum foi conversar com Luiz Vieira, que largou o Serviço Público Federal para virar um dos três sócios da cervejaria. Ele é o responsável tanto pela produção em si – é o mestre cervejeiro – quanto pela parte comercial, ou seja, pelo bom do negócio.

Os outros sócios são seu irmão e seu pai, que carregam e afinam o piano. O irmão, o João Vieira, “fica mais responsável pela operação e logística do nosso site e e-commerce, que será lançado em breve, além de cuidar do nosso ponto de venda exclusivo e sua expansão. Já é um cara mais da tecnologia, da gambiarra, que já foi desde o desenvolvimento de jogos até à aviação civil”, conta Luiz.

Os três sócios, os irmãos Luiz e João e o Luiz pai. Foto: Divulgação

O terceiro sócio, o pai, Luiz Carlos dos Santos Vieira, fica mesmo com a “parte chata” da empresa, da burocracia, da chave do cofre e dos boletos que chegam no fim do mês. “É o veterano da turma, que depois de aposentado, de mais de trinta anos na Vale e de ter sido presidente de uma grande empresa pública da área nuclear, resolveu se divertir um pouquinho no mercado da cerveja”, brinca.

As conversas de bar

As campanhas agressivas do ponto de vista comercial, que aproveitam de maneira certeira momentos políticos atuais para envolver os consumidores, têm o objetivo de levar, de acordo com Luiz, o clima do boteco para dentro da marca e vice e versa.

Nas discussões com a agência Onzevinteum, responsável pelas campanhas, ele conta que desde “lá no começo da construção da marca, sempre comentamos da necessidade de levar nossas cervejas à mesa do bar e trazer da mesa do bar o papo de bar para nossa publicidade. E é isso que temos feito, todas as peças e posts que fazemos são na mesma pegada daquela galhofa que se faz com os amigos, aquele papo bem carioca, descontraído e divertido”, revela.

“Isentão”

Foto: Reprodução

As campanhas da Rio Carioca têm, em sua maioria, um viés um tanto progressista, apesar de Luiz negar qualquer posicionamento político. Uma delas chegou a ironizar inclusive o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando recebeu a condenação, em 2017, em primeira instância.

Foto: Reprodução

Já em outra ponta do espectro político, quando a ex-primeira dama do estado do Rio de Janeiro, Adriana Ancelmo, foi condenada à prisão domiciliar, a companhia lançou o slogan: “O lançamento foi um sucesso. Só a Adriana não veio, ficou presa em casa”.

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Outro anúncio, ainda mais contundente, se referia ao fato do presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ) ordenar que seu governo comemorasse o golpe de 64. A marca não titubeou e saiu com essa: “Se for para comemorar o golpe de 64, por favor, não compre Rio Carioca”. Luiz, no entanto, escapa. “Não temos nenhum tipo de posicionamento, seja ele de direita ou de esquerda, conservador ou progressista, azul ou vermelho. Em nossas peças jamais tomamos partido de um lado ou outro, apenas trazemos o assunto à pauta”, afirma.

Disse, inclusive, que já foram procurados para apoiar com cerveja eventos específicos, tanto de direita quanto de esquerda, “achando que tínhamos alguma inclinação política ou bandeira. Óbvio que refutamos a participação em todos. Um evento inclusive, após a negativa ao apoio à instituição nos ofereceu comprar as cervejas, mas exatamente para nos mantermos o mais neutro possível, recusamos a realizar a venda”, conta e ainda conclui: “quando percebemos a galera discutindo nas redes sobre nossa ação, ficamos satisfeitos porque é exatamente isso que queremos”.

Bolsonaro também não escapou quando fez a postagem de um vídeo durante o último carnaval onde aparecia uma cena de ‘golden shower’.

Foto: Reprodução

Eles não têm medo de perder público por conta de alguma campanha. “Tomamos sempre muito cuidado em analisar as peças por todos os lados. Ter empatia nesse momento é fundamental, para não ofender ninguém ou ser grosseiro em alguma colocação. Não é porque uma pessoa defende um lado ou outro que ela é melhor ou pior, todos somos iguais, temos família, amigos, gostos, vontades, bebemos cerveja. Esse entendimento é fundamental. A partir do momento que temos essa preocupação, em não machucar e ofender, não há porque temer a reação das pessoas”, diz.

A cada post, mais vendas

O melhor de tudo para eles é que a cada novo post polêmico é percebido um aumento substancial de vendas, além de novos seguidores e muitas mensagens de incentivo. “Não fazemos juízo de valor nas nossas peças publicitarias, apresentamos os fatos e cada um que faça o julgamento que melhor lhe convier e, de preferência, faça esse julgamento bebendo uma Rio Carioca”, brinca.

Agência e cliente têm uma relação de amizade e, por conta disto, as campanhas são pensadas e aprovadas com rapidez. “Pela natureza das nossas ações, de utilizar os fatos cotidianos que estão em voga, temos um acordo de aprovação imediata das peças, normalmente não mais de dez minutos entre a apresentação do material até a publicação”, conta.

É comum que consumidores enviem sugestões de posts para a cervejaria. “Infelizmente ainda não conseguimos aproveitar nenhum deles, pois normalmente eles são um pouco mais viscerais que os nossos, mas torcemos muito para que um dia isso aconteça e consigamos dar os créditos a um cliente nosso”, avisa.

Sumiço do Crivella

Luiz lembra de uma promoção que fizeram brincando com o fato do prefeito do Rio, Marcelo Crivella, nunca parar na cidade. Quem conseguisse tirar uma selfie com o prefeito ganharia um kit da cervejaria. “Imaginávamos que ninguém conseguiria, não apenas por uma eventual ausência dele na cidade, mas principalmente por todo o esquema de segurança em torno dele. No final das contas, tivemos que distribuir doze kits para pessoas que conseguiram a selfie. Se a promoção durasse mais tempo era arriscado uma distribuição maior. Mas apesar disso a repercussão foi muito legal, as pessoas entenderam o espirito e entraram na brincadeira”, comemora.

Foto: Reprodução

Muitas vezes, a agência é mais rápida que os jornais e cria anúncios sobre fatos antes mesmo de serem publicados. Foi o caso de uma votação no Senado em que as luzes do plenário foram propositalmente apagadas para evitar a continuidade de uma votação polêmica. “A agência fez o post, nós aprovamos, publicamos e só depois os sites de notícias começaram a dar. Até hoje não sei como eles conseguiram ser tão rápidos e precisos, dá até pra desconfiar se não foi a Onzevinteum que mandou apagar as luzes do plenário”, ironiza Luiz. O post foi: “Senadores, meu voto é por abrir uma Rio Carioca à luz de velas”.

Foto: Reprodução

 


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