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06 de junho de 2020, 14h23

Felipe Neto: “Jornalistas, ajam. O Brasil nunca precisou tanto de vocês”

"Para cada Leandro Narloch que surge, também surge um Laurentino Gomes. É papel do jornalismo desmascarar pessoas nocivas ao conhecimento científico e histórico", disse Felipe em entrevista à Folha

Felipe Neto (Foto: Divulgação)

O YouTuber Felipe Neto virou a principal voz de oposição ao governo Bolsonaro nas redes. Um estudo apresentado pela empresa de pesquisa Quaest e publicado pelo jornal O Globo na quarta (3) mostrou a popularidade de 15 personalidades na internet, e Felipe Neto é o segundo no ranking, atrás apenas do Presidente Jair Bolsonaro e à frente de Anitta e Luciano Huck.

Felipe deu uma entrevista ao jornal Folha de S. Paulo e usou sua experiência na internet para analisar as táticas de comunicação tanto da nova direita quanto da esquerda. Ele também avalia a capacidade de engajamento do conteúdo de ódio nas redes, os memes e as estratégias online da imprensa .

Ao ser perguntado sobre a estratégia online do bolsonarismo, Felipe diz que é simples, mas extremamente eficaz. “Foi ensinada a eles pelo Steve Bannon e seus assistentes, o que faz muita gente imaginar uma gigantesca teia de hackers e especialistas trabalhando 24 horas por dia em salas mal iluminadas no subterrâneo de um solo russo”, diz o youtuber, “mas a realidade é que a estratégia é simplesmente esta: milhares de grupos de Whatsapp e Telegram comandados por funcionários que trabalham para comandar os grupos.”

“Esses grupos são compostos por centenas de apoiadores, cooptados ‘soldados digitais’, e cada um deve ter uma ou múltiplas contas de Twitter e Facebook. É a partir desses grupos que eles criam todas as notícias falsas, normalmente em sites que se denominam ‘imprensa de verdade’, e espalham os links compulsivamente. É também lá que eles criam as hashtags e ensinam os ‘soldados’ a tuitar. É também lá que sincronizam os ataques para tentar destruir a reputação de opositores, espalhando vídeos falsos, montagens ou hashtags de silenciamento. Isso é o que chamamos de gabinete do ódio. Tudo que nasce ali se espalha rapidamente em todas as redes sociais.” , diz o influenciador.

Ele frisa que há também a estratégia de comunicação do presidente e seus ministros de fomentar o caos o tempo inteiro. “Por meio da polarização constante e da ideia de estarmos numa guerra contra o comunismo, eles conseguem deixar seu séquito de admiradores sempre com medo e motivados para a batalha”, falou Neto.

Ao ser perguntado do porquê as táticas são tão eficazes, Felipe acredita que é porque são trabalhadas em cima de conteúdo viral que motiva o ódio. “Em vez de o gabinete do ódio tentar mostrar medidas positivas e efetivas do bolsonarismo, eles operam pra tentar destruir tudo o que se opõe a eles”.

“Conteúdo destrutivo tem sempre grande tração nas redes sociais. Por exemplo: uma vez, o gabinete do ódio criou um vídeo-montagem meu, dando a entender que eu ensinava crianças a praticar sexo. A montagem foi bem feita, nível profissional. Quando alguém vê isso no Facebook, qual é a primeira reação? Compartilhar”, acredita o Youtuber.

Ele conta que recentemente criaram um print falso de seu Twitter, como se ele tivesse postado: “a culpa da pedofilia é dessas crianças gostosas”. “O post teve milhares e milhares de compartilhamentos pelo Facebook e só Deus sabe quantos envios por Whatsapp. Isso acontece todos os dias, com todo tipo de alvo, o tempo inteiro”.

Sobre a oposição, Felipe diz que, antes de tudo, é necessário desmembrar o gabinete do ódio e colocar na cadeia quem criou e trabalhou todo esse sistema. “Não é possível combater esse tipo de crime apenas com a verdade, é preciso investigar e cortar o mal pela raiz”.

“Enquanto isso não acontece, o que podemos fazer é usar as armas a nosso dispor, tentando mostrar a verdade e levando à justiça os infratores. Eu tenho processos abertos contra deputados e um policial militar que publicaram fake news assombrosas a meu respeito. É preciso que todos que forem alvos façam o mesmo”

A opinião polêmica de Felipe é que, nesse momento, não adianta pensar em partido ou candidaturas, é necessária a união de todos que são antifascistas, sejam eles de esquerda ou de direita, “para que possamos derrubar esse genocida que está no poder e fazer ruir todo o sistema bolsonarista”.

Ao ser perguntado sobre humor e memes, Felipe crê que O MBL enxergou o potencial desse tipo de comunicação e conseguiu ganhar grande notoriedade por meio das redes sociais.

“O povo ainda é muito suscetível a humor partidário e com interesse político, as pessoas sentem grande dificuldade em enxergrar as estratégias e acabam caindo nesse tipo de uso político do humor”, declara Neto.

“No Twitter, há vários perfis de ‘personalidades anônimas engraçadinhas’ que são, na realidade, financiadas por partidos ou políticos específicos. Desde um ‘senhor de idade direitista’ até, antigamente, a Dilma Bolada, que todo mundo sabe o que aconteceu. Pra mim, humor é humor. Se for engraçado, está valendo, mas que seja feito com rosto, nome e sobrenome.”

“Perfil de personalidade anônima ganhando dinheiro de partido e fingindo que é apenas um perfil de humor sem viés político, aos meus olhos, precisa ser criminalizado. As pessoas devem saber quando estão vendo conteúdo patrocinado, seja esse patrocínio de uma marca de chocolates ou de um partido político”.

Sobre os temas morais que geram engajamento, ele diz: “Dentro da comunicação, sabemos que há sempre assuntos que despertam determinados gatilhos no público que consome o conteúdo. Cada rede social proporciona um tipo de exploração desses gatilhos de maneira diferente e é preciso estudar de forma profunda como cada uma funciona e como o público se relaciona com ele pra poder explorar isso da melhor maneira”.

“O ser humano tende a se sensibilizar e denunciar mais um vídeo de um homem agredindo um cão do que um vídeo de esgoto a céu aberto numa comunidade, com pessoas sendo contaminadas em função da falta de saneamento. Por quê? Pela manipulação dos gatilhos emocionais e necessidade de ação imediata que despertam em quem assiste. Uma agressão é algo instantâneo que requer uma resposta na hora, um esgoto a céu aberto é algo que já acontece há muito tempo e todo mundo sabe que vai levar tempo para corrigir”, analisa Felipe.

“Essa é uma analogia pertinente com a diferença entre temas morais e políticas públicas. Quando se trata de conceitos de moralidade, a sensação de quem recebe a informação é de urgência, de ação imediata, enquanto que políticas públicas podem ser debatidas e ponderadas. Obviamente, isso está errado”.

Sobre a “cultura do cancelamento”, Felipe acredita que é preciso educar as pessoas a não tentarem arruinar a vida de quem erra, “mas também criticar de maneira civilizada, compatível com o tamanho do erro, para que a pessoa saiba que cometeu um erro e se disponha a aprender com isso. Mas não devemos ter tolerância com os intolerantes. Figuras como Bolsonaro, seus filhos, Olavo de Carvalho, Weintraub, Ricardo Salles e outros, são agentes de pensamentos fascistas que flertam constantemente com o autoritarismo e a opressão. Aos fascistas, combate”, crava ele.

Felipe também falou sobre o uso de paywalls: “É extremamente necessário para a imprensa. Não há jornalismo sem assinaturas. A questão não é se devemos usá-lo, mas como. A informação não pode ser elitizada, esse é o primeiro ponto”.

“É necessário investir em tecnologia para fazer com que a inteligência artificial detecte quem são os verdadeiros potenciais assinantes de um veículo e consiga captar essas pessoas. O que há hoje é um sistema de paywall pouco inteligente, que mede todo mundo com a mesma régua e exige assinatura de maneira universal em diversos veículos. Isso está errado”.

E questionou: “Como podemos combater a desinformação se, ao mandarmos o link de uma notícia precisa a respeito da cloroquina, o indivíduo é imediatamente bloqueado por uma página pedindo para se tornar assinante? É preciso ter tecnologia de ponta para mapear isso de maneira eficiente e, principalmente, entender que há notícias que não podem, sob nenhuma hipótese, ficar escondidas atrás de um paywall, pois prestam serviço essencial de informação à população. O paywall tem que existir, mas é preciso evoluir muito”, acredita ele.

Sobre a CPMI das Fake News, Felipe critica sem dó: “Chamaram membros do gabinete do ódio para serem praticamente interrogados na CPMI e conseguiram tomar um banho de sujeitos cujo QI é comparável ao de uma geladeira frost-free. Por que isso aconteceu? Porque ninguém ali entende sequer medianamente sobre comunicação digital, enquanto que o frost free faz isso 24 horas por dia, há anos. Deixo uma pergunta em paralelo, sem traçar analogias: se você tivesse a oportunidade de interrogar o Pablo Escobar, você enviaria o melhor oficial especializado em tráfico de drogas da DEA ou o escrivão da 47ª delegacia de Macaé?”

Sobre o apelo emocional criado nas redes, ele diz que o viés de confirmação sempre vai existir. “O obscurantismo, o negacionismo e o revisionismo histórico sempre irão existir. Agora, para cada Leandro Narloch que surge, também surge um Laurentino Gomes. É papel do jornalismo desmascarar pessoas nocivas ao conhecimento científico e histórico”.

E questiona: “Mas quem faz isso? Muito poucos. É mais fácil tentar surfar essas ondas e tentar usá-las para ganho de audiência, como a CNN Brasil vem fazendo de maneira vergonhosa, do que desmascarar as mentiras escabrosas dessa gente. Nós só podemos vencer os obscurantistas, negacionistas e revisionistas com os jornalistas e a imprensa. Sem eles, não há sequer chance de batalha. É preciso destruir o terraplanismo científico e histórico e trazer à luz (e à popularidade) os verdadeiros cientistas, historiadores e comunicadores comprometidos com a verdade”, falou Felipe.

Ele acredita que o jornalismo deve se posicionar, “caso contrário, nós já perdemos. É hora de os bons jornalistas deste país pressionarem para que tenhamos menos CNN Brasil dando voz a Osmar Terra, Caio Miranda (Coppola) e Tomé Abduch e, ao contrário, expor as mentiras desses indivíduos para que tenhamos um repúdio coletivo a quem tenta reescrever a história e a ciência para fins políticos. Por isso, deixo meu apelo: jornalistas, ajam. O Brasil nunca precisou tanto de vocês”, finaliza o maior influenciador do país.


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