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15 de junho de 2018, 18h47

Copa do Mundo e regimes ditatoriais: uma relação próxima e perigosa

Historicamente, governos de exceção se apropriam do principal evento mundial do futebol e tentam utilizar para esconder a realidade e transmitir ao povo a imagem de um desenvolvimento que não é real

O Brasil, quando a seleção conquistou o tricampeonato em 1970, no México, tinha em Médici o general de plantão – Foto: Arquivo O esporte, mais especificamente o futebol, por seu incrível poder de alcance social, capacidade de arregimentar multidões e pela forma como permeia o cotidiano e o imaginário não só do brasileiro, ao longo dos anos foi um dos instrumentos de marketing e mídia mais usados por governos ditatoriais. Historicamente, regimes de exceção, como forma de esconder a realidade e tentar transmitir para o povo uma imagem de um desenvolvimento que não é real, se apropriam do principal evento...

O Brasil, quando a seleção conquistou o tricampeonato em 1970, no México, tinha em Médici o general de plantão – Foto: Arquivo

O esporte, mais especificamente o futebol, por seu incrível poder de alcance social, capacidade de arregimentar multidões e pela forma como permeia o cotidiano e o imaginário não só do brasileiro, ao longo dos anos foi um dos instrumentos de marketing e mídia mais usados por governos ditatoriais. Historicamente, regimes de exceção, como forma de esconder a realidade e tentar transmitir para o povo uma imagem de um desenvolvimento que não é real, se apropriam do principal evento desse esporte, a Copa do Mundo, para disseminar essas ideias.

Fraga: “Se tínhamos a figura de um Pelé, sempre associado com posições políticas muito ‘moderadas’, quando não conservadoras, havia ali um Tostão, que era um homem muito intelectualizado, ou um Paulo César Caju, que sempre foi tido como um jogador rebelde”: – Foto: Arquivo pessoal

Há inúmeros exemplos e vamos citar alguns, contando com o auxílio do historiador Gerson Wasen Fraga, professor na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), campus Erechim, no Rio Grande do Sul. Há anos ele se dedica ao estudo e pesquisa das relações do futebol com a história. É autor de livros sobre o tema e já publicou uma série de artigos em que analisa o futebol brasileiro no período da ditadura militar (1964-1985).

Hitler

Na década de 30, a Europa vivia às voltas com a ascensão do nazi-fascismo na Alemanha, de Hitler; na Itália, de Mussolini; e na Espanha, de Franco. A Copa de 1938, disputada na França, já sofria com influências que extrapolavam o universo do esporte.

Com o objetivo de provar sua superioridade por meio do esporte, a Alemanha nazista anexou a Áustria meses antes do Mundial, pois os austríacos tinham uma das melhores seleções da época. No entanto, o craque da equipe, Matthias Sindelar, se recusou a jogar para Hitler e o supertime “ariano” fracassou. No ano seguinte, em 1939, o jogador foi encontrado morto, sem maiores explicações.

Fraga analisa o fato: “O discurso de dominação nazista passava, também, pela ideia de um ideal de perfeição física, que se aproximava do modelo da antiguidade clássica. Vejam as cenas iniciais de “Olympia”, o filme comemorativo da Olimpíada de 1936, dirigido por Leni Riefenstahl. Lá, é possível encontrar a ilustração perfeita disto. O esporte deveria servir para mostrar a superioridade ariana em todos os sentidos, inclusive, em sua perfeição física. Resumindo: os arianos deveriam ser os mais perfeitos, os mais belos e, naturalmente (no sentido pleno da palavra, pois seria consequência de sua natureza), os vencedores. E a seleção alemã de futebol da época não ficava fora dessa lógica”.

No caso emblemático do jogador Sindelar, o historiador explica: “A Áustria tinha uma cultura que a aproximava da Alemanha. Sua população poderia ser considerada (se formos flexíveis com o conceito de etnia), etnicamente próxima dos alemães. Mas a história recente da Áustria não lhe vinculava com a Alemanha, e, sim, com outra unidade política, o Império Austro-Húngaro, que fora desfeito após o fim da Primeira Guerra Mundial. O sentimento de nacionalidade austríaca tinha suas raízes ali, e não nos reinos que vieram a compor a Alemanha a partir de 1871. Não era natural, portanto, que os austríacos se vissem, do dia para a noite, como “alemães”’.

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E isso, segundo Fraga, soma-se ao peso que tem uma anexação imposta militarmente por um país vizinho. “Os alemães sabiam disso. Prova é que a partida que deveria marcar a despedida da seleção austríaca, contra a própria Alemanha, foi marcada pela tensão quanto à reação que os torcedores austríacos teriam na arquibancada. E, pelo que consta, a vitória austríaca naquela partida teria sido mais do que arranjada. Sindelar, como um homem de seu tempo e seu meio, tinha conhecimento das perseguições que eram impostas aos judeus e tomava posição diante disso. Tanto que ele, Sindelar, viria a ser investigado pelo governo nazista por suas posições políticas democráticas e a favor dos judeus”.

Há um outro fator, continua o historiador: Sindelar nascera no então Império Austro-Húngaro, mas a origem de sua família era eslava. “Portanto, ele seria tcheco, se fôssemos usar as fronteiras de hoje. E os eslavos, como se sabe, eram vistos pelos nazistas como mais uma sub-raça a ser conquistada”.

A morte de Sindelar é ainda um mistério e continuará sendo, de acordo com Fraga. No entanto, a hipótese de suicídio por gás parece muito plausível. “Diante do contexto que lhe cercava, onde todas as referências à sua identidade, à sua história, pareciam ruir sob as botas do nazismo, não é descabido pensar que o suicídio por inalação de gás se apresentasse para Sindelar como a opção derradeira. Mas isso é só uma hipótese. Na verdade, nunca saberemos de fato o que ocorreu”, avalia.

Na Copa de 1938, a Alemanha montou um “supertime” anexando os austríacos, mas fracassou, para tristeza de Hitler – Foto: Arquivo

Pra frente Brasil

Um dos casos mais icônicos da apropriação do futebol, mais especificamente da Copa do Mundo, por uma ditadura é a forma como foi tratada a conquista do tricampeonato pela Seleção Brasileira, em 1970, auge do regime militar no Brasil. O general de plantão à época, Emílio Garrastazu Médici, é considerado o protagonista de um dos períodos mais duros em termos de torturas e mortes, não apenas de militantes contrários ao regime, mas de qualquer pessoa que se atrevesse a pensar diferente.

A ditadura aproveitou a conquista do Mundial para tentar vincular um projeto vitorioso ao regime. Gerson Fraga analisa: “Como dito antes, o uso do esporte em geral, e do futebol em particular, como instrumento de propaganda pelos políticos, é uma prática antiga. É a velha ideia de que as pessoas farão a associação entre o desempenho esportivo e a situação política do país (“futebol, ópio do povo”). Mas sabe-se que, na prática, a coisa não funciona de forma tão simples”.

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A seleção de 1970, segundo o historiador, tinha uma especificidade na sua organização que refletia bem o espírito da época: a comissão técnica era toda militarizada. Depois do fracasso de 1966, a seleção brasileira, no Mundial da Inglaterra, embarcou para a Copa com uma preparação física e técnica a cargo dos militares. O próprio Carlos Alberto Parreira, então preparador físico, era militar.

“Mas isso significa que os jogadores tenham sido coniventes com o regime e tudo o que ele representava? Qual era a opção que eles tinham? O que fazer após a vitória? Dizer que o regime do general Médici não lhes representava? Recusar o aperto de mão dos governantes? É justo esperar que atletas tenham um comportamento de militantes políticos? Veja bem, eles podem ter esse comportamento, poderiam ter suas posições políticas, poderiam ter suas críticas ao regime. Ou poderiam até mesmo apoiar o regime. Eram pessoas de seu tempo, inseridas em seu tempo.
A ‘seleção’ era, na verdade, um grupo muito heterogêneo de pessoas. Se tínhamos a figura de um Pelé, sempre associado com posições políticas muito ‘moderadas’, quando não conservadoras, havia ali um Tostão, que era um homem muito intelectualizado, ou um Paulo César Caju, que sempre foi tido como um jogador rebelde. Assim, me parece algo injusto dizer que aqueles jogadores tivessem, em bloco, sido ‘coniventes’. Uma coisa é sua atuação como profissionais, como jogadores. Outra, são as festividades organizadas pela vitória. E outra, ainda, é a tentativa dos governos de capitalizar para si o sucesso das representações esportivas nacionais”, opina.

A seleção campeã de 1970 tinha uma especificidade na sua organização que refletia bem o espírito da época: a comissão técnica era toda militarizada – Foto: Arquivo

Los Hermanos

Outro exemplo clássico é a Copa do Mundo de 1978, disputada na Argentina, que vivia o auge da ditadura militar, sob a égide do general Jorge Rafael Videla. Houve, inclusive, segundo o que muitos dizem, um dos maiores escândalos da história do futebol no que se refere à manipulação de resultado, na goleada da Argentina sobre o Peru por 6 a 0, resultado que eliminou o Brasil e classificou os donos da casa à fase seguinte da competição. Não há provas até hoje de que tenha havido algum tipo de suborno, embora, muitos anos depois, o goleiro da seleção peruana, Quiroga, que nasceu na Argentina, tenha declarado “estar certo de que alguém ganhou dinheiro” com a goleada sofrida, segundo noticiou a Folha de S.Paulo.

O caso argentino tem um agravante, segundo Fraga. “A vitória brasileira em 1970 se deu longe de casa. Os holofotes não estavam sobre o território brasileiro ou o que ocorria aqui. O cenário era o México. Em 1978, o regime sangrento dos generais argentinos compõe o cenário da Copa. E mesmo as notícias sobre o que acontecia na Argentina já eram, de certa forma, conhecidas. Assim, os jornalistas que cobriram a Copa tiveram acesso direto, também, ao contexto argentino. As Mães da Praça de Maio, por exemplo, tornaram-se mundialmente famosas a partir deste momento”.

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Em relação ao famoso jogo entre Argentina e Peru, na avaliação do historiador, é um daqueles mistérios que, provavelmente, ficarão para sempre como lenda. Desconfia-se muito, mas não há como provar. “Podemos, a partir disso, afirmar que os jogadores argentinos foram ‘coniventes com o regime’?  São profissionais, exercendo seu trabalho, no ápice de sua carreira, e defendendo sua pátria, sua nação. Isso é muito diferente do que seria, por exemplo, um Sindelar vestindo a camisa da seleção alemã, com a qual certamente não tinha nenhuma ligação. Uma coisa é a atividade profissional. Outra, é a seleção como representação da nação, e outra, ainda, é a utilização de um resultado positivo por um governo ditatorial. Nesse último item, eu não posso esquecer, por exemplo, que o discurso governamental chegava até a população não pelos jogadores, mas pela mídia (esportiva ou não), que publicava e repercutia tal discurso”, defende.

Na Copa do Mundo de 1978, disputada na Argentina, o país vivia o auge da ditadura militar, sob a égide do general Jorge Rafael Videla – Foto: Arquivo

Malvinas

Os argentinos voltaram à evidência na década de 80. Em 1982, a ditadura militar dava seus últimos suspiros. Ainda assim, o país era governado pelo general Leopoldo Galtieri. Para tirar o foco dos problemas internos, ainda em consequência dos estragos provocados pelo regime, o governo iniciou a Guerra das Malvinas contra o Reino Unido, na tentativa de criar um clima de nacionalismo que encobrisse os problemas sociais e econômicos. A consequência foi uma derrota humilhante.

O resultado da Guerra das Malvinas reflete até hoje nas relações entre os dois países, o que acaba passando para o futebol. Por conta disso, os argentinos levaram um sentimento de vingança para a Copa do Mundo de 1986, também disputada no México, local de uma das partidas mais famosas da história dos Mundiais: Argentina 2 x 1 Inglaterra, com dois gols do astro Diego Armando Maradona. O primeiro, um dos mais bonitos entre todas as Copas, já o segundo, creditado por ele mesmo à “La mano de Dios”.

“Vamos por partes, porque essa questão é um pouco mais complexa do que parece. Quando da Guerra das Malvinas, a ditadura militar argentina já estava extremamente desgastada. Isso é sabido. A guerra, assim, poderia tirar o foco dos problemas que o regime já enfrentava. Por outro lado, as Malvinas são uma demanda antiga dos argentinos, muito anterior ao regime militar. Não é algo inventado pelos militares naquele momento, mas, sim, uma demanda histórica, que é buscada para legitimar uma verdadeira ‘aventura fadada ao fracasso’ nos mares do sul. Logo, uma coisa é a percepção da opinião pública argentina de que as Malvinas deveriam pertencer a seu país. Outra, é apoiar o regime militar”, analisa o professor.

Ainda assim, segue Fraga, “é evidente que as marcas da derrota na guerra tinham um peso grande em 1986, dada a proximidade do conflito, e que os gols de Maradona naquele jogo tiveram o sabor de uma inigualável desforra. Mas há um pequeno e importante detalhe que nos escapa: a grande rivalidade argentina não é exatamente com o Brasil, mas, sim, com a Inglaterra, vista historicamente como uma colonizadora informal da Argentina. Essa rivalidade já se expressara na Copa de 1966, em solo britânico, quando o jogador argentino Rattin, após ser expulso na partida contra os ingleses, saiu gesticulando para a arquibancada e ainda amassou (discretamente) a bandeira do Reino Unido que estava na marca de escanteio”.

Por tudo isso, o jogo entre argentinos e ingleses, em 1986, tinha esse componente, esse “tempero adicional” de desforra nacional que a questão das Malvinas impunha. “No entanto, é uma rivalidade mais antiga. E não pode ser confundida, também, com algum saudosismo ou apoio tardio dos argentinos ao regime militar”, completa o historiador.

Diego Maradona fez um dos gols mais famosos da história das Copas, em 1986: La mano de Dios – Foto: Arquivo

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