“A situação é dramática e o erro, do poder público, apesar dos alertas”, diz deputado federal do Amazonas

Para José Ricardo, o drama vivido em Manaus é resultado da morosidade dos governos federal, estadual e municipal. “O ministro da Saúde esteve em Manaus na semana passada e não tomou nenhuma medida, nenhum encaminhamento concreto”

O deputado federal José Ricardo do PT do Amazonas relatou em entrevista ao programa Fórum Onze e Meia nesta segunda-feira (18) o caos na saúde que a população do estado enfrenta sem oxigênio e vagas nos hospitais. “Estamos numa situação dramática”, diz ele, que lamenta que não faltaram avisos. “Tivemos muitos especialistas alertando sobre a segunda onda, da mutação do vírus, sobre a necessidade de manter as várias medidas relacionadas ao distanciamento, e isso não foi fiscalizado adequadamente. O erro é do governo federal, estadual e até municipal, que nunca coordenaram efetivamente.”

Zé Ricardo ressalta ainda que o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, esteve em Manaus na semana passada, e não tomou nenhuma medida, nenhum encaminhamento concreto. Pelo contrário, pressionou a prefeitura a adotar o que o governo Bolsonaro chama de “tratamento precoce”, com o uso de medicamentos como cloroquina, sem eficácia comprovada.

Ele lembra também das manifestações do setor comercial que pressionou o governador Wilson Lima (PSC) a voltar atrás e cancelar um decreto que previa o fechamento de shoppings, restaurantes e comércio não essencial por 15 dias a partir de 26 de dezembro. “Lamento que a justiça só tenha determinado o fechamento do comércio depois do ano novo. Houve morosidade do poder público, apesar dos alertas.” O governador liberou a abertura do comércio no dia 28, após os protestos. No dia 3 de janeiro, a justiça determinou o fechamento em resposta a uma Ação Civil Pública de oito promotores do Ministério Público do Estado do Amazonas.

Protesto contra o fechamento do comércio no dia 26/12 no centro de Manaus

Na semana passada, a notícia de que havia acabado o oxigênio nos hospitais repercutiu mundialmente. A capacidade de produção local não consegue atender a demanda atual. Segundo a empresa White Martins, produtora de oxigênio, a demanda disparou cinco vezes nos últimos 15 dias, chegando a 70 mil metros cúbicos por dia. No auge da primeira onda da pandemia, entre abril e maio do ano passado, o consumo era de 30 mil metros cúbicos por dia.

“É algo inimaginável, embora desde o ano passado já tenha alerta sobre isso. O drama é assim: na capital nós temos todos os hospitais com limite ou faltando, ou sendo abastecido por cilindro e não mais com tanque. No interior, está pior”, afirma.

De acordo com o deputado, apenas a capital do estado dispõe de Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), o que já era grave. “Não se fala mais em falta de UTI, agora é oxigênio. As pessoas estão morrendo em casa. Nunca vi filas tão grandes de pessoas nas portas de fábricas, para comprar oxigênio. Cilindros. Um desespero das famílias que tentam tratar em casa os doentes.”

Segundo o parlamentar, a situação não é pior por conta das doações de outros estados, de artistas, de empresas de outros segmentos, como de bicicletas, que estão disponibilizando cilindros, e a doação da Venezuela.

Até o domingo (17), o estado somava 230.644 casos, segundo o boletim da Fundação de Vigilância em Saúde. O número de mortes subiu para 6.191. Há 1.702 pacientes internados, sendo 1.123 em leitos (486 na rede privada e 637 na rede pública), 561 em UTI (255 na rede privada e 306 na rede pública).

A vacinação deve começar na próxima quarta-feira (20). “Todos estão esperando a vacina, mas as ações de prevenção precisam continuar fortes, enquanto ela não chega – e não vai chegar num primeiro momento pra todo mundo – tem que continuar de forma rigorosa”, finaliza.

Assista ao programa Fórum Onze e Meia desta segunda (18)


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Dri Delorenzo

Jornalista, especializada em Meio Ambiente e Sociedade (FESPSP) e mestre em Comunicação Digital pela UFABC. É editora executiva da Revista Fórum.