Bolsonaro fala em guerra química para insinuar que China criou vírus em laboratório e defende cloroquina

Para Osmar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI do Genocídio, nova declaração de Bolsonaro sobre a China "vai piorar muito" a situação do titular do Planalto; "Não era a hora de cutucar ninguém"

Enquanto o ex-ministro da Saúde, Nelson Teich, falava aos senadores da CPI do Genocídio nesta quarta-feira (5) que deixou o governo por conta da insistência de Jair Bolsonaro em incentivar o uso da cloroquina contra a Covid, o presidente participava de um evento sobre o 5G no Palácio do Planalto em que seguiu defendendo o uso da substância e ainda atacou aqueles que criticam o chamado “tratamento precoce”, que além de não ter eficácia contra a doença do coronavírus pode oferecer riscos a quem se submete a ele.

“Canalha é aquele que é contra o tratamento precoce e não apresenta alternativa. Esse é um canalha. O que eu tomei, todo mundo sabe. Ouso dizer que milhões de pessoas fizeram esse tratamento. Por que é contra?”, disparou Bolsonaro, em referência à cloroquina.

O presidente ainda defendeu o uso em massa do medicamento durante o colapso de Saúde em Manaus no início de 2021. “Espero que a experiência de Manaus com doses cavalares de hidroxicloroquina seja completamente desnudada pelos senadores. Por que não se investe em remédio? Por que é barato demais? É lucrativo para empresas farmacêuticas ou para laboratórios investir no que é caro? Nós conhecemos isso”, declarou.

Durante depoimento à CPI do Genocídio, Nelson Teich, assim como fez seu antecessor, Luiz Henrique Mandetta, criticou a postura de Bolsonaro em defender o remédio que não é recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Essa falta de autonomia ficou mais evidente em razão das divergências com o governo quanto à eficácia e extensão da cloroquina no tratamento de Covid-19. Enquanto minha convicção pessoal, baseada em estudos, era de que naquele momento não existia eficácia para liberar, existia um entendimento diferente do presidente, que era amparado por outros profissionais, até pelo Conselho Federal de Medicina. Isso foi o que motivou minha saída. Sem liberdade de conduzir o ministério conforme minhas convicções, decidi deixar o cargo”, disse Teich.

Mandetta, por sua vez, revelou na terça-feira (4) que o governo Bolsonaro chegou a avaliar um decreto para alterar a bula da cloroquina para que o remédio fosse indicado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e ainda afirmou que a compra da substância por parte do governo poderia incorrer em improbidade administrativa.

“Guerra química”

No mesmo discurso no Palácio do Planalto, além de defender a cloroquina, Bolsonaro espalhou ainda mais desinformação ao sugerir que a China criou o coronavírus em laboratório e estaria encampando uma “guerra química”, tese que é rechaçada pela OMS.

“É um vírus novo, ninguém sabe se nasceu em laboratório ou nasceu por algum ser humano ingerir um animal inadequado. Mas está aí. Os militares sabem o que é guerra química, bacteriológica e radiológica. Será que não estamos enfrentando uma nova guerra? Qual o país que mais cresceu o seu PIB? Não vou dizer para vocês” declarou.

O presidente da CPI do Genocídio, senador Osmar Aziz (PSD-AM), repercutiu durante a sessão do colegiado desta quarta-feira a declaração de Bolsonaro sobre a China e sugeriu que o fato deve piorar a situação do titular do Planalto.

“Acho que essa declaração de hoje vai piorar muito. Hoje foi ruim. Falou em guerra química. E nós estamos nas mãos deles. Não era a hora de cutucar ninguém”, disse o parlamentar.

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Ivan Longo

Jornalista e repórter especial da Revista Fórum.