segunda-feira, 21 set 2020
Publicidade

100 mil mortes por coronavírus: O que Bolsonaro fez enquanto isso?

Às vésperas do Brasil chegar a 100 mil mortes oficiais provocadas pelo novo coronavírus – confirmadas pelo Ministério da Saúde no sábado (8) -, o presidente Jair Bolsonaro voltou a suspeitar dos números da pandemia, dizendo que são inflados, e a dizer que fez o “possível e o impossível” para combater o Sars-Cov-2.

Apesar da declaração, o presidente é alvo de mais de 40 pedidos de impeachment – muitos deles apresentados em razão da postura adotada por ele diante da pandemia -, e possui em suas costas duas denúncias no Tribunal Penal Internacional por genocídio e crime contra a humanidade.

Enquanto Bolsonaro diz que “morre gente todo dia”, a pandemia registra números (que são vidas perdidas) que não se comparam nem à pandemia da gripe espanhola. A crise sanitária provocada pelo Sars-Cov-2 no Brasil já superou de longe a pandemia da gripe suína (2.146 óbitos entre abril de 2009 e janeiro de 2010) e já se aproxima do triplo do número de mortes provocadas pela gripe espanhola (35 mil entre 1918 e 1919).

A Fórum fez um apanhado de ações e declarações do presidente que ajudaram a desmontar a estratégia de isolamento social – criticada por ele desde o início – e a catapultar os índices da pandemia. Confira abaixo o levantamento, que relaciona a situação a cada 10 mil mortes.

10 mil mortes – Churrasco e “neurose”

No dia anterior ao que o Brasil atingiu a triste marca de 10 mil mortos, o presidente Jair Bolsonaro inventou que faria um churrasco para 3 mil apoiadores. O anúncio só foi desmentido pelo ex-capitão no dia seguinte, em 9 de maio – data da primeira “marca”. Apesar do recuo quanto ao festejo, o ex-capitão passeou de jet ski no Lago Paranoá e provocou aglomeração. A apoiadores ele disse o seguinte: “Isso é uma neurose, 70% vai pegar o vírus, não tem como”.

A “marca” de 10 mil chegou após o presidente ter falado que a doença era uma gripezinha em rede nacional e ter demitido o primeiro ministro da Saúde, Henrique Mandetta. Quando Mandetta caiu, em 16 de abril, eram 1.933 mortes. O ministro Nelson Teich saiu em 15 de maio, com 14,8 mil mortes.

O ex-capitão lançou também um “E, daí?” para os números da pandemia quando o Brasil ultrapassou a China na quantidade de vítimas fatais. “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”, disse em 28 de abril. Na ocasião, eram 5 mil óbitos registrados oficialmente. Em 21 de abril, ele ainda lançou a polêmica “eu não sou coveiro, tá?” quando questionado sobre as 2,5 mil mortes.

20 mil mortes – Protocolo da cloroquina

Após a queda de dois médicos do Ministério da Saúde, o presidente conseguiu, finalmente, estabelecer um protocolo para a hidroxicloroquina, em 21 de maio. A substância era pregada por Bolsonaro como a cura para o novo coronavírus. No mesmo dia, o país chegou a 20 mil mortes.

Pouco antes do balanço ser divulgado naquele 21 de maio, o ex-capitão disse a lideranças católicas que “houve uma propaganda muito forte” em cima da pandemia. “Trouxe o pavor para o seio da família brasileira. E obviamente nós sabemos da gravidade das pessoas idosas e daqueles que têm algumas doenças, uma vez sendo acometido pelo vírus”, declarou.

30 mil mortes – Maquiagem nos dados e veto a máscaras

Quando o Brasil registrava entre 30 e 40 mil mortes provocadas pelo novo coronavírus e caminhava para se tornar o segundo país com maior número de mortes, o Ministério da Saúde comandado interinamente pelo general Eduardo Pazuello decidiu mudar a metodologia. Em 5 de junho, a pasta parou de divulgar os números acumulados da doença e passou a colocar em sua plataforma apenas os registros diários.

Além disso, os números eram divulgados cada vez mais tarde, com um objetivo de tirar as atualizações dos principais telejornais. Com isso, foi formado um consórcio de veículos da imprensa que passaram a compilar os dados das secretarias. O ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta, classificou o período como “semana da maquiagem”.

A totalidade dos dados voltou apenas após decisão do ministro Alexandre de Moraes tomada em 9 de junho.

A marca de 30 mil foi superada em 2 de junho, um dia depois do PDT apresentar a primeira denúncia contra Bolsonaro no Tribunal Penal Internacional (TPI), de Haia. No mesmo dia 2, o ex-capitão disse que a morte “era o destino de todo mundo”. No dia 9 de junho, ele realizou diversos vetos em projeto de lei aprovado pelo Congresso que tornavam obrigatório o uso de máscaras de proteção em igrejas, comércios e escolas.

40 mil mortes – Invasão de hospitais

O Brasil chegou a marca de 40 mil mortes em 11 de junho, no mesmo dia, o presidente Jair Bolsonaro, durante live presidencial, pedir para seus apoiadores “dar um jeito” de invadir hospitais para filmar os leitos destinados aos pacientes com coronavírus. Segundo ex-capitão, ninguém morreu de falta de leitos e o número de mortes por coronavírus foi inflado para “ganho político” contra ele.

No dia seguinte, um grupo invadiu o Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, referência no tratamento da Covid-19 no Rio de Janeiro. Segundo informações do jornalista Arthur Leal, do Jornal O Globo, seis pessoas – que seriam parentes de um homem que morreu por falta de leito – invadiram o hospital e gritavam que queriam checar os leitos para ver se estavam realmente ocupados.

50 mil e 60 mil mortes – Protestos de junho e “Maioria não sente nada”

No mês de junho, o Brasil alcançou as marcas de 30 mil, 40 mil, 50 mil e se aproximou de 60 mil mortes – confirmadas em 1º de julho. Diante da disparada da doença, intensos protestos antifascistas, antirracistas e pró-impeachment sacudiram um país. O presidente chegou a dizer que os atos eram uma “terceira onda” da pandemia. Em 21 de junho, um grande ato foi realizado em Brasília e em diversas cidades homenageando os 50 mil mortos – confirmados no dia 20 – pedindo o fim do governo Bolsonaro.

Em 19 de junho, um dia antes da “marca” de 50 mil -, o presidente voltou a minimizar a doença. “Você pode até ter pego (coronavírus) e nem sabe. Quase 90% não sentem quase nada. Nem sintoma de gripe tem”, disse em conversa com apoiadores.

Em 6 de julho ele tentou vetar obrigatoriedade de máscaras em presídios.

70 mil e 80 mil mortes – “Não existe como evitar. Só se você ficar isolado”

Entre 70 mil e 80 mil mortes, o presidente anunciou, em 7 de julho, que estava infectado com o Sars-CoV-2. O ex-capitão aproveitou a oportunidade para exaltar a hidroxicloroquina como cura para o novo coronavírus. Os 70 mil mortos foram confirmados em 10 de julho e os 80 mil mortos em 20 de julho. Bolsonaro anunciou a cura no dia 25.

No dia 20, em conversa com apoiadores, ele admitiu que a única forma de evitar o contágio é com o isolamento. “Não existe como evitar. Só se você ficar isolado. Quem está vivendo em sociedade vai pegar, mais cedo ou mais tarde vai pegar. Não tem como evitar as mortes”, declarou.

No período, o presidente ainda aproveitou para vetar o acesso a água potável a indígenas, em 8 de julho. Em 26 de julho, ele foi novamente denunciado por genocídio ao Tribunal Penal Internacional, de Haia, na Holanda.

90 mil mortes – “Tem medo de quê? Morre gente todo dia”

No dia 31 de julho, dois dias depois do país atingir a triste marca de 90 mil mortes provocadas pelo Sars-CoV-2, o ex-capitão falou para as pessoas “enfrentarem” o vírus. “Infelizmente, acho que quase todos vocês vão pegar um dia. Tem medo do quê? Enfrenta!”, declarou em visita à cidade de Bagé (RS). “Lamento. Lamento as mortes. Morre gente todos os dias de uma série de causas. É a vida, é a vida. Minha esposa agora está [contaminada]. Depois de quase um mês que peguei o vírus, ela pegou”, completou.

Lucas Rocha
Lucas Rocha
Jornalista da Sucursal do Rio de Janeiro da Fórum.