Estudo que deu base ao TrateCov tem zero citação e é considerado irrelevante

Aplicativo que o governo tirou do ar dava o diagnóstico e depois receitava medicamentos sem eficácia comprovada para a covid-19, como hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina e os antibióticos azitromicina e doxiciclina

Durante seu depoimento à CPI do Genocídio, nesta terça-feira (25), a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde Mayra Pinheiro citou como “relevante” o estudo “The AndroCoV Clinical Scoring for COVID-19 Diagnosis” (O Escore Clínico AndroCov para Diagnóstico da Covid-19), que serviu como base para o TrateCov.

O estudo, no entanto, tem zero citação na Web of Science, site que fornece acesso baseado em assinatura a vários bancos de dados abrangentes de citações para muitas disciplinas acadêmicas diferentes.

Além disso, o estudo, de autoria de médicos conhecidos por defenderem o “tratamento precoce”, entre eles o endocrinologista Flavio Cadegiani, tem falhas de metodologia, segundo especialistas que o analisaram a pedido da BBC News Brasil.

Um dos problemas é que, para recrutar participantes, os organizadores do estudo ofereceram em troca medicamentos do chamado “tratamento precoce”.

Um dia antes da publicação do artigo revisado por pares, em 6 de janeiro, o ministério anunciou que lançaria o TrateCov. O lançamento da plataforma foi feito no dia 11 de janeiro, em Manaus. A plataforma tinha como objetivo auxiliar médicos a identificarem casos de Covid-19 e dava pontuações para pacientes de acordo com seus sintomas para diagnosticar a doença.

Com o diagnóstico pronto, a plataforma do governo sugeria a prescrição de medicamentos ineficazes ou sem eficácia comprovada para a covid-19, como hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina e os antibióticos azitromicina e doxiciclina.

Dez dias depois do lançamento do aplicativo, sob críticas, o governo tirou o TrateCov do ar, alegando que um hacker tinha colocado o protótipo indevidamente no site do Ministério da Saúde.

O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello reiterou a versão do hacker e disse em depoimento na CPI da Covid que o aplicativo foi uma iniciativa de Mayra Pinheiro.

O Ministério da Saúde respondeu, através da Lei de Acesso à Informação, se tratar de um aplicativo baseado no estudo de Cadegiani. Mas ele próprio reitera que não teve conexão com o desenvolvimento do aplicativo.

“Sequer fui chamado, convidado, etc, para dar qualquer tipo de opinião, suporte. Pela data de lançamento do aplicativo, é provável que o estudo foi usado pelo governo quando ainda era um ‘pré-print’ (sem revisão por pares)”, afirma Cadegiani.

Ele defende que tivesse havido uma “validação externa para utilização” do estudo antes de que fosse usado pelo governo e que um único estudo não “seria em si suficiente para basear um programa para um governo todo”. Para o endocrinologista, “o mais grave desta versão do TrateCoV foi oferecer um kit de tratamento a partir de um diagnóstico clínico que foi proposto por um único estudo”.

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Julinho Bittencourt

Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.

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