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04 de julho de 2020, 05h57

Exclusivo: Funcionários de empresa de telemarketing apontam possível contaminação por Covid em empresa no RN

Neste 4 de Julho, dia do teleoperador, a Fórum traz denúncias de trabalhadores da Teleperformance, uma das maiores multinacionais do setor com operação no Brasil

Foto: Agência Brasil

O dia 4 de julho é, desde 2000, definido como o Dia do Operador de Telemarketing. Em meio à pandemia do novo coronavírus, os trabalhadores que atuam no ramo, que possui altos índices de assédio moral no ambiente de trabalho – segundo a Fenattel e o Dieese -, têm sido expostos a novos riscos. Os call centers foram incluídos como serviço essencial no Decreto 10.282, publicado por Jair Bolsonaro em 20 de março.

Uma das maiores empresas de serviços de atendimento do Brasil, com 23 mil funcionários, a Teleperformance Brasil, filial da multinacional do ramo de telemarketing, vem sendo acusada por funcionários de não tomar as devidas medidas sanitárias em razão da pandemia do novo coronavírus.

A empresa, que possui escritórios em São Paulo e no Rio Grande do Norte, já foi inspecionada pelo Ministério Público do Trabalho do RN (MPT) e pelo Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações do RN (Sinttel/RN) em razão de denúncias e afirma que não há nenhum risco. “As autoridades de saúde e agências governamentais que inspecionaram os prédios da Teleperformance confirmaram que todos os requisitos legais e de segurança estão sendo atendidos”, diz a empresa.

No entanto, tanto o Sinttel quanto o MPT confirmaram que novos questionamentos têm surgido. “Depois dessa fiscalização, continuam chegando novas denúncias. Mas a pandemia é dinâmica, razão pela qual a investigação continua”, disse o procurador Aroldo Dantas, que apura o caso. “As coisas podem mudar todo dia, tem trabalhadores que continuam reclamando. Precisamos ter uma inspeção cotidiana e intensa”, declarou a presidenta do Sinttel/RN, Maria Iara Martins Paiva.

Um dos funcionários ouvido pela Fórum, que trabalha na sede de Parnamirim, na Grande Natal, comentou sobre uma possível disseminação da doença que teria ocorrido por certa negligência da empresa. Entre as atitudes criticadas está o compartilhamento de headsets (fones de ouvido) e problemas na limpeza dos pontos de atendimento – local onde os trabalhadores ficam durante o expediente. A empresa alega estar realizando higienização e seguindo as recomendações do Ministério da Saúde e as orientações da Associação Brasileira de Teleserviços (ABT), mas não convence os trabalhadores.

“Sempre antes de iniciar o turno, a gente pega um head set ‘aleatório’ pois não temos um fixo! É informado que sempre são higienizados, mas percebemos que não é uma higienização tão efetiva. A mesma coisa se encaixa na P.A. Não tem nada exclusivo, é quem chegar primeiro!”, disse. “É informado que estão fazendo a desinfecção do galpão, mas passamos o dedo na P.A e sai cinza de sujeira”, completou.

Ele relata que “uma funcionária testou positivo para covid-19, passou 14 dias em casa e voltou ainda com alguns sintomas, ao chegar na empresa nem médico tinha para atendê-la, quem a ‘atendeu’ foi um enfermeiro”. “Acabou voltando à operação pois foi considerada ‘apta’ para trabalhar. Por coincidência, 6 funcionários que sentavam próximos a ela saíram de atestado como ‘suspeitos’ na primeira semana que ela ficou de atestado”, relatou, apontando uma possível contaminação provocada nas dependências da empresa.

A ativista Brisa Bracchi, que tem acompanhado de perto a situação dos trabalhadores da Teleperformance por se tratar de uma das maiores do setor, também deu detalhes sobre a situação. Segundo ela, os suspeitos de infecção pelo novo coronavírus são afastados geralmente por 14 dias e retornam logo depois desse período, mesmo que ainda estejam apresentando sintomas.

“Eles fazem uma espécie de videoconsulta e fornecem alguns atestados pra suspeitos – nem todos são de 14 dias e, quando são, as pessoas voltam com sintomas de Covid e o médico do trabalho libera a pessoa para trabalhar. Tivemos relatos de pessoas que voltaram a trabalhar sem sentir o paladar direito, por exemplo”, declarou. “A empresa têm medido a temperatura dos funcionários e só permite que as pessoas entrem usando máscara, mas isso não é o suficiente pra que medidas reais de cuidado sejam tomadas”, completou.

Bracchi destaca ainda o ambiente de forte assédio moral e a fragilidade do plano de saúde oferecido pela empresa aos trabalhadores.

Sindicato

Assim como o funcionário que conversou com a Fórum, Iara Paiva, do Sinttel, relata uma situação de uma funcionária que foi considerada de “risco” pelos trabalhadores. “Já houve casos de Covid na empresa. Em um deles, uma funcionária foi diagnosticada, e, ao retornar, foi considerada como risco após ser autorizada a trabalhar”, declarou.

A dirigente sindical disse à Fórum que a entidade tem monitorado a situação e lutado na Justiça para realizar inspeções periódicas com o objetivo de garantir medidas sanitárias adequadas na Teleperformance. “Desde março quando estourou o coronavírus nós procuramos todas as empresas para estabelecer medidas. A Teleperformance foi a última a nos retornar”, afirma Paiva.  

“Na primeira quinzena de abril, o MP nos orientou com várias medidas. Desde então a gente pede fiscalização interna. Recorremos ao MP que não nos atendeu. Esse processo de controle sanitário ocorre de várias fases. A primeira é definir o que fazer, agora eu acredito que estamos na fase de fiscalizar o avanço do risco epidemiológico”, afirmou.

Paiva afirma que, por mais que as fiscalizações realizadas no início da pandemia tenham apontado medidas adequadas, “há reclamações cotidianas” por parte dos trabalhadores da empresa. “A implantação inicial foi feita, mas pode ter havido um certo relaxamento”, afirmou.

“O sindicato tem denunciado ao MP, tem tratado com a diretoria que fica em SP e desde então estamos vigilantes e insistentes para coibir o risco epidemiológico”, finalizou Iara, que faz ainda um apelo para que a empresa oriente melhor os profissionais sobre formas de prevenção para evitar contaminação.

MPT

O Ministério Público também confirmou à Fórum que fiscalizações foram realizadas à pedido do órgão, mas que as investigações prosseguem. “As afirmações da empresa de que atende aos requisitos legais e de segurança se referem à fiscalização realizada no início da pandemia (em março). A pandemia é dinâmica, razão pela qual a investigação continua”, disse.

De acordo com o procurador do MPT que atua no caso, a apuração sobre as condições de saúde e segurança dos trabalhadores quanto à prevenção à Covid-19 na empresa ocorre por procedimento administrativo.

“Não há ação civil pública proposta no caso, mas uma notificação recomendatória, com várias medidas a serem tomadas, foi expedida. Continuamos acompanhando a situação e apuramos todas as denúncias que nos têm sido enviadas”, diz ainda.

Teleperformance

A Fórum entrou em contato com a empresa sobre a reclamação dos trabalhadores. Em nota, a Teleperformance garante que tem tomado medidas em prol da saúde dos funcionários diante da pandemia do coronavírus. A empresa lista os procedimentos adotados e afirma que “autoridades de saúde e agências governamentais que inspecionaram os prédios da Teleperformance confirmaram que todos os requisitos legais e de segurança estão sendo atendidos”.

Confira a nota enviada pela Teleperfomance, na íntegra:

“Com uma equipe de mais de 23.000 colaboradores no Brasil, a Teleperformance suporta consumidores de diferentes segmentos de mercado, incluindo serviços essenciais como saúde, bens de consumo,
transporte e logística, financeiros e seguros. A atividade realizada pela nossa equipe permite que milhões de cidadãos tenham acesso a serviços importantes por meio de vários canais, incluindo canais de voz e digitais, sem a necessidade de sair de casa. Ao fornecer esses serviços, a Teleperformance contribui para que menos consumidores precisem sair de casa, reduzindo a expansão da pandemia.

A Teleperformance está seguindo todas as diretrizes e recomendações do Ministério da Saúde, bem como as regras publicadas pela Associação Brasileira de Teleserviços (ABT). As autoridades de saúde e agências governamentais que inspecionaram os prédios da Teleperformance confirmaram que todos os requisitos legais e de segurança estão sendo atendidos. Além disso, a equipe médica da empresa está monitorando e apoiando de perto todos colaboradores caso tenham alguma dúvida ou precisem de suporte.

A Teleperformance faz questão de reforçar que a saúde e a segurança dos seus colaboradores são nossa maior prioridade. Seguem abaixo algumas ações que vem sendo feitas dentro dos prédios da Teleperformance:

  • Há dispensers com álcool gel em todas as áreas comuns e refeitórios e sabonete antibacteriano nos banheiros;
  • Um dos primeiros procedimentos adotados foi liberar todos os colaboradores classificados como grupo de risco;
  • A equipe de limpeza foi mais que dobrada para realizar a limpeza profunda e higienização de todos os postos de trabalho, equipamentos e das áreas comuns;
  • Todos os espaços comuns e operacionais estão com sinalização indicando e garantindo o distanciamento social (ex.: bloqueio de mesas, adesivo de chão, etc.);
  • Todos os prédios passam diariamente por processo de higienização utilizando o método de nebulização hospitalar;
  • É feita a aferição de temperatura de todas as pessoas que acessam os nossos prédios;
  • Distribuição de máscara para toda nossa equipe que entrar nos nossos prédios;
  • O uso de máscara dentro das dependências da empresa é obrigatório, inclusive durante o atendimento;
  • Fornecemos face shield para os colaboradores cuja atividade de trabalho inclui mais interatividade com as pessoas, como a área de suporte de TI (help desk), equipe de saúde, e segurança;
  • Possuímos uma equipe médica para dar suporte a todos os colaboradores que precisarem de qualquer orientação.

A Teleperformance prioriza o bem-estar e a segurança de toda a sua equipe, tanto daqueles que estão trabalhando nos seus prédios, quanto daqueles que estão trabalhando em suas casas. Atualmente temos menos de 30% dos nossos colaboradores trabalhando em nossos prédios, se comparado com o
que tínhamos antes da pandemia. A Teleperformance vem atuando para garantir a segurança de toda sua equipe, bem como para garantir a manutenção de empregos e a renda de seus colaboradores.

Desde o início da pandemia já contratamos mais de 1.200 colaboradores utilizando processo digital de recrutamento e treinamento. As pessoas podem fazer todo o processo seletivo em segurança nas suas casas, assim como podem continuar trabalhando em suas casas”

Confira as notas do MPT, na íntegra:

“O Ministério Público do Trabalho apura, por meio de um procedimento administrativo, as condições de saúde e segurança dos trabalhadores no tocante à prevenção à Covid-19 na empresa Teleperformance. Algumas inspeções foram realizadas por órgãos de fiscalização, após requisição do MPT.  Não há ação civil pública proposta no caso, mas uma notificação recomendatória, com várias medidas a serem tomadas, foi expedida. Continuamos acompanhando a situação e apuramos todas as denúncias que nos têm sido enviadas.

As afirmações da empresa de que atende aos requisitos legais e de segurança se referem à fiscalização realizada no início da pandemia (em março). Depois dessa fiscalização, continuam chegando novas denúncias. Mas a pandemia é dinâmica, razão pela qual a investigação continua.”


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