O que o brasileiro pensa?
12 de maio de 2020, 11h41

O papel das organizações no pós-pandemia, por José Virgílio

Com a pandemia, organizações correm o risco de fechar. Com isto, milhões de crianças, jovens, adultos e idosos ficarão ainda mais à margem

Foto: Prefeitura Municipal de Santos

 Por José Virgílio Leal de Figueiredo*

“Sei que nada será como antes, amanhã” – Milton Nascimento e Ronaldo Bastos

“O mundo mudou, e aquele mundo (de antes do coronavírus) não existe mais. A nossa vida vai mudar muito daqui para a frente, e alguém que tenta manter o status quo de 2019 é alguém que ainda não aceitou essa nova realidade”, declarou o biólogo e pesquisador Atila Iamarino em entrevista à BBC Brasil de 28 de março.

Ele é doutor em microbiologia pela Universidade de São Paulo e pós-doutor pela Universidade Yale. Virou uma das fontes mais utilizadas pela imprensa para debater a crise causada pela disseminação do covid-19. É sensato, equilibrado, consciente e competente.

Dificilmente seremos os mesmos. O distanciamento social nos leva a repensar e refletir a maneira que vivemos, nos relacionamos, as nossas prioridades. Não entro nem na questão dos mais ricos. Pessoas de classe média, perderão, logicamente. Passarão algum “aperto”, cortarão gastos, deixarão de ter um ou outro luxo. Mas ainda assim conseguirão manter uma certa qualidade de vida, terão o que comer, internet boa. Terão mais condições de enfrentar o desemprego, mas ainda assim subsistirão.

Cerca de 15 milhões de pessoas vivem em extrema pobreza no Brasil. Índice que aumenta ano a ano – devido ao desemprego crescente e ao desmonte dos programas sociais – e piorará com a pandemia. É preciso um olhar especial para essa grande parcela da população que mal tem conseguido ter acesso ao auxílio emergencial de R$ 600, passando por situações humilhantes, desumanas.

Neste contexto, mais do que nunca as organizações sociais desempenhem papel fundamental. São elas que acompanham o cotidiano de milhões de pessoas. Muito além de trabalharem a inclusão, a cidadania, com cursos, oficinas, projetos dos mais variados, muitas vezes são o porto seguro para quem busca alguma oportunidade, algum vislumbre de futuro.

Entidades têm feito campanhas de arrecadação de kits de higiene, cestas básicas, máscaras e dinheiro para amenizar o choque da pandemia. Entendem, profundamente, as demandas, necessidades e carências destes bairros.

Entretanto, a maioria das organizações sociais vem perdendo apoiadores, são profundamente afetadas pela crise. Muitas dependem de parcerias privadas, outras do poder público, algumas reúnem ambos os tipos de elo e outras tentam sobreviver de maneira totalmente independente, à base de doações. Ao correrem o risco de fechar, milhões de crianças, jovens, adultos e idosos ficarão ainda mais à margem.

Governantes devem estar atentos à essa situação. Apoiar as organizações e, juntos, pensarem projetos de reestruturação das comunidades. Uma alternativa é intensificar a capacitação, com cursos profissionalizantes, visando a inserção ou reinserção no mercado de trabalho. À curto prazo, garantir a sobrevivência, o direito à alimentação, à saúde, fazer a conscientização da necessidade de distanciamento social. O tempo corre e o estrago já é grande. Não viremos as costas a quem mais precisa.

*José Virgílio Leal de Figueiredo é presidente do Instituto Arte no Dique. O instituto atende crianças em área de vulnerabilidade social, em grande parte moradores do Dique da Vila Gilda, em Santos (SP). Artistas de renome como Gilberto Gil, Moraes Moreira, Sergio Mamberti, Lecy Brandão, Wilson Simoninha, Hamilton de Holanda, Armandinho Macedo, Luiz Caldas, Geraldo Azevedo, Luciano Quirino, entre outros, já se apresentaram no espaço que já atendeu mais de 15 mil pessoas em 17 anos de funcionamento.

Hoje o Arte no Dique faz parte do projeto Scholas Ocurrentes, do Vaticano. Outras informações em www.artenodique.com.brwww.facebook.com/artenodique e www.youtube.com/artenodiquetv


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