Fórum Educação
13 de março de 2020, 09h22

Países que, assim como o Brasil de Bolsonaro, negligenciaram o coronavírus, sofrem consequências

Quem se antecipou, como a China, Cuba e a Coreia do Sul, controlou a crise e quem a subestimou, como a Itália e os EUA, começa a pagar um preço caro

Foto: Reprodução

De tudo o que se fala sobre o coronavírus, uma coisa é certa. O governo brasileiro negligenciou e a coisa por aqui pode ser muito pior do que em vários outros países, graças ao atraso na tomada de medidas. O presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido-RJ), como é bem do seu estilo, sem nenhum embasamento teórico, subestimou o vírus na última terça-feira (10), ainda em Miami (EUA): “obviamente temos no momento uma crise, uma pequena crise. No meu entender, muito mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propala ou propaga pelo mundo todo”.

Em entrevista exclusiva à Fórum, publicada nesta quinta-feira, o médico sanitarista Pedro Tourinho afirmou que essa fala do presidente cria inclusive um problema político para o Brasil. “Provavelmente, daqui a alguns poucos dias, o governo pode ter que adotar medidas mais severas. E como ele vai fazer? Vai chegar pra todo mundo e dizer: ‘eu errei, falei besteira’?. Isso pode, inclusive, adiar a tomada de decisão do governo, o que é um grande problema. O Bolsonaro jamais deveria se manifestar se ele não tem conhecimento técnico ou não está pautado adequadamente por técnicos”, alertou.

Desgoverno

O exemplo de desgoverno de Bolsonaro e a afirmação de Tourinho são amplamente corroboradas por exemplos de vários outros países, entre eles os EUA, que têm sido amplamente divulgados pela imprensa ao longo dos últimos dias. Quem se antecipou, como a China e a Coreia do Sul, controlou a crise e quem a subestimou, como a Itália, começa a pagar um preço caro.

Em matéria publicada na Folha desta terça-feira, o repórter Gabriel Alves afirma que “a baixa velocidade do avanço em Singapura e em Hong Kong é atribuída ao estrito controle nas possíveis aglomerações. Celebrações religiosas, por exemplo, foram suspensas. Singapura fechou as fronteiras para pessoas vindas da China; em Hong Kong, os visitantes chineses têm que passar por quarentena”.

Já “no Japão”, prossegue o repórter, “escalado para sediar a Olimpíada de 2020, em Tóquio, a curva também progride devagar”.

O resultado na rapidez ou não na tomada de medidas, o próprio texto aponta. “Enquanto na Itália há 15.100 casos e 1.016 mortes, a Coreia do Sul tem perto de 8.000 casos e 66 mortes, de acordo com informações desta quinta (12)”.

O Irã tem tido especial dificuldade em lidar com a covid-19. Duas semanas atrás, assim como Bolsonaro no Brasil, o governo negou que a doença fosse um problema. Agora, com mais de 400 mortos, nem se sabe ao certo o tamanho da epidemia, que começou na cidade de Qom, por onde passam muitos peregrinos diariamente.

Trump

Já o economista-sênior e fundador do Centro de Pesquisa Econômica e de Política Pública (CEPR), em Washington, Dean Baker, afirmou em entrevista ao Valor, publicada nesta sexta-feira, que a disseminação do coronavírus nos Estados Unidos pode ter um impacto maior sobre a economia do que quando o epicentro era a China. Para ele, não só a resposta americana tem sido menos ágil do que a asiática, como sua economia é mais baseada em serviços, que são interrompidos para evitar o contágio.

“No momento em que falamos, não temos a menor ideia de quantas pessoas foram infectadas nos Estados Unidos, em parte porque temos muito poucos kits para fazer testes. Temos um presidente que está menos preocupado em realmente lidar com a crise de saúde e mais em manter baixos os números informados de casos”, disse.

Capacidade de disseminação

Todos esses fatores têm explicações que nos fazem voltar à entrevista de Tourinho. De acordo com ele, “nunca se deve olhar apenas a letalidade da doença, mas a sua capacidade de disseminação. Uma doença feito o ebola tem uma alta letalidade, mas o vírus tem uma baixa capacidade de se disseminar. Com cuidados básicos você contém. Já o coronavírus tem a capacidade de se disseminar pelo ar, com gotículas espalhadas pela tosse, por exemplo, e também sobrevive algum tempo em superfícies como corrimões, alças, balcões, mãos”, alerta.

O médico reafirma que foi por este fator que na China, por exemplo, foram adotadas medidas como a higienização em massa de transportes públicos, calçadas etc. tudo para poder matar o vírus. “Isso não é maluquice nem exagero. Então, quanto mais infectivo é o vírus, mesmo com letalidade baixa, o problema é maior”.

Tourinho lembra ainda que “cada pessoa doente contamina 2,5 pessoas saudáveis. Isso significa que sem medidas muito fortes de controle da disseminação deste vírus, a doença não para sozinha. Ela vai infectar todo mundo”.

Cuba

Ao final, o médico cita como exemplo de sucesso o caso cubano. Ele lembra que a capacidade de mobilizar a população para enfrentamentos deste tipo é imprescindível. “Cuba tem uma capacidade de organização em saúde pública que é impressionante. Provavelmente sem paralelo no mundo todo. Cuba conseguiu enfrentar e derrotar problemas que até hoje a gente apanha, como a dengue, por exemplo. Em Cuba não tem dengue. Um país que, do ponto de vista climático teria todas as condições para ter dengue, mas não tem. Este e só um dos exemplos que dizem respeito a um modelo mais amplo de organização da sociedade, contratação de serviços, o que inclui essa capacidade de controlar essas doenças”, encerra.

Até esta quinta-feira, de acordo com o Grannma, Cuba tinha quatro casos confirmados do coronavírus. Três italianos que estavam no país e um cubano que mora em Santa Clara, província de Villa Clara, casado com uma boliviana que vive em Milão, na Itália. Todos eles estão bem, isolados e sob estrita vigilância médica.


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