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31 de março de 2020, 13h01

Para jurista, Bolsonaro pode responder em corte internacional e pegar até prisão perpétua

Wladimyr Camargos falou com exclusividade à Fórum sobre as consequências jurídicas da postura do presidente diante da crise do coronavírus: “crime contra a humanidade”

Foto: Divulgação

O professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutor em Direito Constitucional pela Universidade de Brasília (UNB), Wladimir Camargos, conversou com a Fórum, nesta terça-feira (31), sobre tese que postou em sua conta do Twitter, onde afirma que o presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido-RJ) pode responder a processo criminal no exterior por conta de sua postura em relação à crise do coronavírus.

“A pena poderia ser até de prisão perpétua”, diz o jurista.

Camargos explica que a Corte adequada para tal processo seria o Tribunal Penal Internacional (TPI), que, de acordo com ele, também tem sede em Haia, o que faz com que muitos façam confusão com o Tribunal de Haia.

A Procuradora-Geral atual é a advogada Fatou Bensouda, natural de Gâmbia, na África Ocidental, com experiência em acusações de genocidas no Tribunal da ONU para Ruanda. “Ela conseguiu condenar altos oficiais militares e ministros que atuaram no massacre dos tutsi”, afirma.

Ele lembra que qualquer pessoa pode provocar o TPI para que abra o processo. “A Procuradora-Geral está neste momento encaminhando uma investigação contra os possíveis crimes de Israel contra os direitos humanos na Palestina. Mesmo com toda a pressão israelense e norte-americana, ela está continuando com as investigações”, avisa.

Estatuto de Roma

O Brasil é um dos 60 países que ratificaram o tratado que instituiu o Estatuto de Roma. Se obriga, assim, à jurisdição do TPI. “O processo se inicia direto no TPI, em Haia, na Holanda e depende de a Procuradoria decidir abrir a investigação”, avisa.

Camargos diz ainda que “se o TPI aceitar a denúncia da Procuradoria em um hipotético processo contra o presidente Bolsonaro, sua condenação poderia resultar em prisão perpétua. O Brasil seria obrigado a entregá-lo para julgamento. Não há que se falar em extradição”.

Ele afirma que “também não há imunidade pelo fato de ser chefe de estado, conforme prevê o art. 27 do Estatuto de Roma. Sobre isso, já existe o precedente da abertura de inquérito contra o então líder líbio Muamar Kadafi no próprio TPI”.

Crime contra a humanidade

O jurista entende que a ação poderia ser em razão de crime contra a humanidade ou de genocídio, como dispõe o art. 5° do Estatuto. “Porém, em qualquer hipótese, prevalece o caráter subsidiário do TPI, ou seja, ele só irá atuar se se comprovar que o Brasil se omitiu em processar os supostos crimes”, alerta.

Ameaças

Camargos foi ameaçado após expor a sua tese nas redes sociais. Ele reagiu às ameaças friamente: “Como vem acontecendo com as pessoas que defendem os direitos humanos, militantes de extrema-direita usam as redes sociais para ameaçá-las e propagar ódio. Eu não me sinto acuado. Vou continuar. Não vou dar atenção a eles”, encerrou.

Veja abaixo o tuíte de Wladimyr Camargos:


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