quarta-feira, 28 out 2020
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Quais lições o Coronavírus pode nos dar?

Por Gabriel Medina*

Estamos vivendo uma pandemia gravíssima, ainda que a maior autoridade do país não tenha se dado conta.

O COVID-19 se espalhou pelo mundo promovendo milhares de mortes, como temos visto na situação crítica que vive a Itália e toda a Europa, depois de deixar rastros de destruição e morte na China.

Na Itália a situação é grave e dramática. Não existe vaga para todos em um bom sistema de saúde, quase todo público, mas fragilizado com o avanço das políticas neoliberais que promovem a austeridade, com o desmonte das políticas sociais e favorecimento do mercado financeiro.

Por enquanto, no Brasil a expansão do vírus só não foi mais forte pela existência do Sistema Único de Saúde, o SUS, que possui uma vigilância epidemiológica estruturada capaz de criar processos de contenção e orientação para a população. Para nossa sorte, não temos um aloprado como Abraham Weintraub no Ministério da Saúde.

A situação vai se agravar no país e vamos ver o quanto nosso sistema de saúde vai responder, depois de sucessivos ataques e cortes sofridos. É necessário responsabilidade e compromisso de todos brasileiros para evitar um pico da infecção com uma curva muito acentuada, para não ter superlotação e falta de leitos para o atendimento, especialmente dos mais velhos.

Essa crise global deve trazer aprendizados para o Brasil e para o mundo. O primeiro é a importância de termos sistemas de saúde públicos, universais e de qualidade. Temos muito que caminhar com o SUS, mas sua existência é um alento, se comparado a países como os EUA com o sistema privado e pago. Contudo, a reflexão que precisamos fazer é lembrar o quanto de recurso foi retirado da saúde do Brasil nesses últimos anos, fruto da agenda golpista, que implementou reformas e medidas de corte de direitos em todas as áreas sociais.

Ainda no Governo Lula, a oposição (a mesma que encabeçou o impeachment da Dilma) derrubou a CMPF, imposto que era dedicado integralmente ao SUS, responsável por injetar 40 bilhões por ano na saúde pública. A outra foi a PEC do Teto, já no pós golpe com Temer no poder, congelou os recursos para saúde e educação pelos próximos 20 anos, mesmo diante do aumento da demanda pela necessidade de ampliar o acesso à educação dos jovens e dos idosos no campo da saúde, com o envelhecimento da população.

Com Bolsonaro são constantes os ataques ao SUS, iniciando pelo fim dos Mais Médicos, que deixou dezenas de municípios sem atendimento médico, a interrupção da política antimanicomial com a ampliação de leitos em hospitais psiquiátricos e fortalecimento das comunidades terapêuticas, das igrejas evangélicas e ataque a saúde indígena, só para citar alguns exemplos.

Estamos em um momento decisivo para enfrentarmos a desumanidade do neoliberalismo, que prioriza o lucro, a segurança para a livre circulação do capital e ceifa milhões de vida pelo mundo, como presenciamos nas várias barreiras migratórias impostas pelos países ricos. O dinheiro circula livremente sem taxas, mas as pessoas não!

Muitas pessoas irão morrer por falta de acesso a saúde, outras tantas vão ficar sem trabalho e renda, crianças não vão ter alimentação garantida com o fechamento das escolas. Quais são as saídas para esse colapso social?

Precisamos produzir uma contra narrativa à proposta de mais reformas, demonstrando que estas só prejudicam os mais pobres, retiram direitos e não promovem crescimento econômico, como temos visto no Brasil pós reforma trabalhista e previdenciária.

É o momento de voltarmos a defender o Estado como indutor do crescimento, reivindicar mais recursos para o SUS com o fim da PEC do Teto e pensar em formas de garantir uma renda básica universal para todos brasileiros, para garantir a sobrevivência em um mundo sem emprego para todos.

Precisamos defender a solidariedade social, organizar mutirões e brigadas para ajudar aqueles que serão mais afetados, arrecadar alimentos, materiais de higiene pessoal e garantir que nenhum brasileiro fique sem recursos básicos para vencer esse período de crise. Aliás, a capacidade de sobreviver a escassez por meio da colaboração e resistência faz parte da rotina de milhões de brasileiros pobres, do campo e da cidade.

Não podemos esquecer que o presidente Jair Bolsonaro tratou com desdém o vírus e quase contaminou o presidente dos EUA com sua irresponsabilidade e arrogância. Um presidente que não acredita na ciência e teve a ousadia de participar dos atos fascistas do dia 15 de março, atacando a democracia e colocando em risco a saúde do povo brasileiro, indo contra as orientações do Ministério da Saúde do seu próprio governo. Esse fato precisa despertar uma grande comoção nacional contra um presidente que não está à altura do cargo e não pode mais conduzir a nação!

O que estamos vivendo é a barbárie, fruto desta nova etapa do neoliberalismo, que já não se preocupa mais com a democracia e com a vida. O Brasil necessita de um outro projeto, de um outro presidente, de uma nova agenda.

Neste momento de desespero e de medo, o campo progressista precisa aproveitar essa crise para voltar a dialogar com a maioria da sociedade, com os mais pobres que serão os mais afetados, mostrar solidariedade na prática, com humildade e com ações efetivas de apoio. É tempo de construir alternativas à ignorância, com propostas para enfrentar a crise a partir das experiências vindas do povo brasileiro.

Gabriel Medina é psicólogo e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)

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