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03 de maio de 2020, 09h31

Sem nunca ter autorizado Revalida, Bolsonaro usa presidente do CFM para atacar governadores do Nordeste

Seguindo orientação do comitê científico, liderado pelo médico e cientista Miguel Nicolélis, governadores do Nordeste querem que médicos formados no exterior atuem sob supervisão de outros profissionais em "brigadas de emergência" na batalha porta a porta contra o coronavírus

Jair Bolsonaro e Mauro Ribeiro, presidente do Conselho Federal de Medicina (Foto: CFM)

Em publicação na manhã deste domingo (3) no Twitter, Jair Bolsonaro usou o presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Mauro Ribeiro, para desferir novos ataques a governadores do Nordeste, que em resolução aprovada em abril no consórcio formado para o combate ao coronavírus buscam médicos formados no exterior para trabalhar sob supervisão de outros profissionais em brigadas de prevenção e combate à Covid-19, principalmente no interior, onde faltam equipes para atender a população.

“CFM/CRMs e o REVALIDA. O Presidente Jair Bolsonaro apoia o Dr. Mauro Ribeiro, Presidente do Conselho Federal de Medicina, contra a proposta dos governadores do nordeste”, diz o tuíte, compartilhando vídeo do presidente do CFM, que ataca o uso de profissionais formados no exterior, que não passaram pelo Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos (Revalida).

No entanto, o próprio médico admite que o governo Bolsonaro nunca autorizou a realização do Revalida, que não é realizado desde 2017 no país, com a desculpa de que o exame causou milhares de ações judiciais.

“O último Revalida foi em 2017, concluído em 2019. Esse revalidando ficam criticando o MEC. O Revalida é feito pelo MEC junto com o INEP, não é uma prova do Conselho Federal de Medicina. E porque o MEC levou dois anos pra concluir o Revalida, porque os revalidandos entraram com mais de mil ações contra o Inep”, diz Ribeiro.

A publicação contraria a opinião do próprio Bolsonaro, que em novembro de 2018 atacou uma proposta do então futuro ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, de fazer uma certificação no estilo Revalida a cada cinco anos para testar a qualidade dos médicos.

Ele (Mandetta) tá sugerindo o Revalida até com uma certa periodicidade. Eu sou contra porque vai desaguar na mesma situação que acontece com a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Nós não podemos formar jovens no Brasil, em cinco anos, no caso dos bacharéis de Direito, e depois submetê-los a serem advogados de luxo em escritórios de advocacia. Advogados de luxo não, boys de luxo de escritório de advocacia”, disse à época.

Ataques ao Nordeste
O coro de Bolsonaro com o presidente do CFM, que já criticou “os governos do PT por popularizarem a medicina“, tem um alvo claro: a política de combate porta a porta proposta pelo conselho científico comandado pelo médico e cientista Miguel Nicolélis para combater o coronavírus no Nordeste.

A proposta, aprovada pelos nove governadores da região que fazem parte do Consório Nordeste de Combate ao Coronavírus no dia 17 de abril, colocaria os médicos formados no exterior para trabalhar em Brigadas Emergenciais de Saúde sob a supervisão de outros profissionais em uma política de combate porta a porta da doença.

Em entrevista ao Fórum Onze e Meia, Nicolelis diz que a batalha contra o coronavírus no Nordeste só será vencida superando o déficit de profissionais de saúde na região, que chega a 15 mil, mesmo número estimado de médicos que aguardam um novo exame Revalida para exercer a profissão no país.

Assista a entrevista de Miguel Nicolélis à Fórum


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