CRÔNICA DE DOMINGO

A paixão da princesa pelo bobo da corte

Como a paixão entre a princesa e o bobo no reino do Faz de Conta cai na real (com duplo sentido)

Créditos: Domínio Pùblico
Escrito en CULTURA el

Era uma vez um reino com um rei, uma princesa, um bobo da corte, a corte... e o povo, que pagava por tudo aquilo. Ou seja, um reino comum.

Só não era comum ali o Bobo. Era o mais incrível bobo da corte de todos os reinos. Ele cumpria sua função como poucos, pois sabia de todos os podres do reino e os jogava na cara do rei com humor e leveza, a tal ponto que o rei ria toda vez que era chamado de tirano, de explorador do povo.

 

— Hahaha! Esse Bobo é terrível! — divertia-se o Rei.

 

Todos — por motivos diferentes, é claro — admiravam o Bobo. Quer dizer, todos menos um, ou melhor, uma — a Princesa.

Única filha do rei, ela estava proibida de assistir às apresentações do Bobo, enquanto fosse menor de idade. Assim, por 17 anos e 364 dias, ela só conhecia o Bobo de ouvir falar. E de imaginá-lo.

A expectativa da chegada do "grande dia" em que poderia enfim assistir ao Bobo que enchia sua cabeça de fantasias era grande.

No dia do aniversário de 18 anos da Princesa houve uma festa formidável no Palácio. Príncipes de países estrangeiros foram convidados, na expectativa real (com duplo sentido) de um futuro casamento de acordo com os interesses do reino — o que significa, na prática, os interesses do rei.

Na hora do Bobo, o Rei fez questão de frisar que ele deveria caprichar, pois aquela era a primeira apresentação para a Princesa.

E o Bobo caprichou. Falou cobras e lagartos e outros répteis do Rei e do reino, principalmente da exploração real (com duplo sentido) da população.

A cada verdade que lhe era lançada na fuça real, o Rei dava gargalhadas.

A princesa não. Ela ouvia coisas que nunca lhe haviam passado pela cabeça. E não via graça nenhuma naquilo. Graça mesmo ela só via no Bobo, como era corajoso, tinha uma voz maravilhosa e além do mais era lindo.

Mais do que tudo, a apresentação do Bobo lhe fez cosquinha num lugar onde ela jamais havia sentido antes. Uma cosquinha gostosa, que crescia quanto mais o Bobo falava e que chegou ao ápice quando ele se ajoelhou à frente dela e disse:

 

— A Princesa aceita o Bobo em casamento?

 

Gargalhada geral no Palácio. O Rei chegou a cair do trono de tanto rir e teve de ser levantado pelos puxa-sacos reais, que sempre gravitavam no entorno para recolher algumas migalhas à espera de favores maiores.

A gargalhada foi tão grande que quase ninguém percebeu o êxtase que tomou conta da Princesa, que ela vocalizou em gemidos profundos, cada vez mais intensos, até que desmaiou.

Depois disso, o Rei chegou a pensar em proibir a Princesa de assistir às apresentações do Bobo. Mas ela reagiu com veemência e o Rei cedeu, porque qual pai não cede ao apelo de sua única filha? 

A Princesa não apenas assistia a todas as apresentações do Bobo, como chegou a pedir ao Rei que a deixasse ter encontros particulares com ele.

O Rei chamou então os dois e deu sua autorização real assim:

— Vocês podem conversar sobre tudo, mas nunca esquecendo que a função do bobo da corte é divertir. O Bobo pode tudo, menos falar sério.

No quarto da Princesa, com uma criada supervisionando, o Bobo percebeu que a Princesa estava encantada por ele. E que o efeito que suas palavras de críticas em relação ao reino e às injustiças com a população ("Um reino rico com um povo pobre") pareciam calar fundo no coração da Princesa.

Mas ela só sentia cosquinha naquele lugar que a deixava sem defesas diante do Bobo.

Quando ele passou a fazer mágicas e com elas tocar o corpo da Princesa, para tirar  moedas de seu ouvido, fazer aparecer e desaparecer objetos de suas mãozinhas de princesa, as cosquinhas aumentaram de tal forma que certa vez a Princesa não resistiu e beijou o Bobo.

Os encontros entra a Princesa e o Bobo ficaram cada vez mais calientes. A Criada era colocada de costas no quarto da Princesa, porque assim ela pediu, argumentando que se visse algo teria de contar ao Rei.

Um dia, a porta do quarto se abriu violentamente e entraram o Rei e sua guarda pessoal. A Criada havia confessado o que ouvia ao Rei e este resolveu verificar.

A entrada do Rei pegou o Bobo e a Princesa no meio do ato, com a Princesa cavalgando o Bobo para aumentar e descarregar sua cosquinha.

Com a entrada do Rei com sua guarda houve um silêncio sepulcral após a pergunta real:

 

— Mas o que é que está acontecendo aqui?!

 

Era difícil explicar a Princesa cavalgando sobre o Bobo em cima da cama. Tensão.

O Bobo se lembrou do aviso do Rei de que o Bobo pode tudo, menos falar sério, foi rápido e sussurrou para a Princesa uma ordem: "Ria! Ria! Ria!".

E a Princesa começou a rir, rir, rir, e a gargalhar, gargalhar, gargalhar, ainda pulando sobre o Bobo, aumentando a cosquinha, e ria, ria, com tal força que o Rei começou a rir também e com ele a guarda real, todos numa imensa gargalhada.

Assim se passarem os dias que se transformaram em meses, com os encontros entre a Princesa e o Bobo numa paixão avassaladora. 

No reino, a história da paixão da Princesa pelo Bobo era o assunto principal da rádio fofoca, a mais poderosa de todos os reinos.

Quando o Rei soube da notícia, não resistiu, teve um ataque cardíaco e morreu.

A Princesa agora era a Rainha. 

O Bobo ficou feliz. Enfim poderiam se casar e transformar a vida do reino.

O Bobo disse a ela de todos os planos que tinha para o reino e que tanto a encantavam nos encontros que tinham: a criação de escolas e postos de saúde para a população, uma reforma agrária, uma escuta real (com duplo sentido) dos anseios do povo.

Mas aquilo que encantava a Princesa ofendeu a agora Rainha.

No dia seguinte o Bobo perdeu a cabeça na guilhotina, por haver cometido o único pecado não permitido ao Bobo: o de falar sério.

Palavras da Rainha.

Antonio Mello é autor de "ELA" e "Madame Flaubert" e escreve no Blog do Mello e aqui na Fórum. Saiba mais