Passados cinco anos do início da pandemia da covid-19, poucos longa-metragens ousaram, até o momento, processar o drama vivido durante o período. Um dos raros exemplares dignos de nota foi a comédia “Borat: Fita de Cinema Seguinte", uma sátira ácida do conservadorismo dos EUA estrelada por Sacha Baron Cohen, no formato de falso-documentário. Responsável por obras-primas modernas do horror, o cultuado Ari Aster (“Hereditário”, “Midsommar - O Mal Não Espera a Noite”) tomou para si a ambição de tentar refletir sobre o período com uma abordagem mais fantasiosa, mas também com tons cômicos.
Exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema, “Eddington” é uma espécie de faroeste moderno. Ambientado em maio de 2020 em uma cidade fictícia do interior árido e ensolarado dos EUA, o longa-metragem enfoca um xerife local que está indignado com a obrigatoriedade de usar máscaras. Interpretado por Joaquin Phoenix, que repete a parceria com o diretor de “Beau Tem Medo”, o xerife resolve, então, se candidatar a prefeito, ameaçando a reeleição de Ted Garcia (Pedro Pascal), político de origem hispânica. Completam o elenco Emma Stone e Austin Butler.
Famoso por suas abordagens pouco convencionais, Aster se prolonga em uma salada de acontecimentos, em uma ânsia, talvez, de não dar conta de abordar tudo o que tem para falar: fake news, conservadorismo, supremacistas brancos, black lives matters, pandemia, violência e corrupção policial, teorias da conspiração, privilégio branco, charlatões espirituais, campanhas polìticas e a origem indígena das terras estadunidenses se misturam nesse faroeste de maneira interessante, mas, às vezes, pouco sutil.
O longa-metragem pode deixar a sensação de que quis abordar muitos assuntos, e acaba sendo superficial em alguns pontos. Entretanto, a experiência ainda é válida: ou não foi essa mesma a sensação de viver uma pandemia global em meio a fake news, políticos negacionistas e convulsão social? A sensação de tudo misturado ao mesmo tempo incomoda o espectador, assim como o ponto de vista ser o do xerife conservador, um anti-heroi pouco carismático.
“Eddington” tem momentos muito interessantes, porém, que podem passar batido. Um deles é a questão indígena, que frequentemente é abordada nos faroestes. Aqui, quando um assassinato acontece em uma casa na divisa entre dois condados, o do xerife e um indígena, a dúvida a respeito da jurisdição do crime evoca o debate sobre as terras. A cena é um exemplo também da dificuldade de diálogo, um tema recorrente no filme, onde cada grupo parece fechado em sua bolha.
O olhar ácido de Aster a respeito de tantos temas atuais e, por vezes, polêmicos, mostra um diretor que, consolidado seu prestígio, decidiu falar tudo o que pensa, doa a quem doer. E, embora muito fique solto e mal aproveitado, como a própria questão da pandemia em si e a subtrama da personagem de Stone, toda essa confusão e sobrecarga mental culmina no clímax violento e sem sentido - e nisso há que dar razão a Ari Aster, uma vez que um bang bang em pleno 2020 não deveria fazer sentido para começo de conversa, ponto.