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“O racismo anti-negro fez mal ao Brasil. E continua fazendo”, afirma Nei Lopes

Sambista, músico e estudioso da cultura afro-brasileira conversou com a Fórum sobre o racismo estrutural e a ancestralidade negra

Nei Lopes.Créditos: Reprodução de vídeo/TV Brasil
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Referência de uma vasta obra que atravessa a música, a literatura e a pesquisa sobre a cultura afro-brasileira, Nei Lopes, de 83 anos, é uma das vozes mais potentes na defesa da memória e da resistência negra no Brasil. Com décadas dedicadas ao samba e à história dos povos africanos no Brasil, lançando mais de 300 canções e 50 livros, o escritor e compositor conversou com a Fórum sobre a essência das escolas de samba e a importância da ancestralidade.

Autor de Bantos, Malês e Identidade Negra, obra que reinterpreta a a resistência dos povos africanos na formação no Brasil, Lopes conta que escreveu o livro para "tentar mostrar que a Força dos Bantos escravizados e na Diáspora foi maior que a dos Malês, que de repente, no Brasil, começaram a ser mitificados, na década de 1980”, explica. Ao revisitar a história dos bantos, o autor propõe um olhar decolonial sobre as origens da cultura afro-brasileira, reivindicando o lugar de saberes que moldaram o país, mas foram silenciados. A obra é tema da edição especial do Clube de Leitura CCBB 2025, dedicada ao Mês da Consciência Negra.

Nesta quarta (12), o Centro Cultural Banco do Brasil contará com a presença de Lopes e o historiador Luiz Antonio Simas, que se encontram para um diálogo sobre identidade, ancestralidade e as matrizes culturais do país. Nesta edição, o público foi responsável pela escolha das obras em debate: “Bantos, Malês e Identidade Negra”, de Lopes, e “O Corpo Encantado das Ruas”, de Simas.

“Seu interesse principal foi a retificação de um erro histórico que foi dar ao segmento dos escravizados do grupo Bantos sua real importância na história brasileira, em número, e qualidade de sua mão de obra. Esses novos dados tiravam os Bantos da condição de ‘Ancestrais Esquecidos’ a que os estudos africanos, segundo opinião geral, os relegava. E um dos mais entusiasmados foi o saudoso senador Abdias do Nascimento, líder inconteste da militância negra no Brasil”, avalia Lopes.

Entre o samba, a escrita e a pesquisa, Nei enxerga um fio condutor: a valorização das raízes negras, e fala sobre sua trajetória. “O que eu mais desejo, com o meu trabalho, é, cada vez mais, revelar como Racismo anti-negro fez mal ao Brasil. E como continua fazendo”, afirma.

De acordo com ele, o racismo anti-negro é um conceito sociopolítico que abarca todas as dimensões do preconceito racial, "Considera-se racismo antinegro tratar a pessoa de pele escura de forma diferente, inferiorizando-a em razão da sua cor, raça, etnia, religião ou procedência nacional. É uma definição sociopolítica, fundada na herança colonial da sociedade brasileira e sustentada pelas estruturas de poder e dominação", destaca.

Para ele, as escolas de samba guardam uma força simbólica que ultrapassa a festa: “Hoje em dia, as escolas de samba não são mais o que Paulo da Portela desejava. Então, no meu entender, o que elas na verdade transmitem, muito bem, é a importância do Samba (pelo menos em uma de suas facetas: a do ritmo alucinante) como uma das três mais importantes forças da música global, juntamente com o jazz e o complexo da música afrocubana.”

A fala ecoa um entendimento de que o samba, mais do que gênero musical, é herança e linguagem ancestral. Nei traduz esse elo com a sua própria história: “Ancestralidade é a força passada de pai pra filho. Eu tenho um casal de netos que gosta do samba tanto quanto eu e o pai deles gostamos. E conhecem muito o samba, inclusive pesquisando, além de tocar", acrescenta.

Quem é Nei Lopes

Compositor, cantor, escritor e um dos maiores estudiosos da cultura afro-brasileira e africana na Diáspora, nascido em 1942. Autor de uma obra extensa e diversa, sua trajetória atravessa a música popular, a literatura e a pesquisa histórica, sempre com foco nas matrizes africanas e na valorização da ancestralidade negra. Bacharel em Direito e Ciências Sociais pela Faculdade Nacional de Direito da antiga Universidade do Brasil, atual UFRJ, Lopes construiu uma produção literária que ultrapassa 30 livros, entre suas obras mais notáveis estão Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (Selo Negro, 4ª ed., 2011), Dicionário da Antiguidade Africana (Civilização Brasileira, 2011), História e Cultura Africana e Afro-brasileira (Barsa Planeta, 2009, Prêmio Jabuti), Novo Dicionário Banto do Brasil (Pallas, 2003 [2012]), Partido-Alto, samba de bamba (Pallas, 2005) e romances como Mandingas da Mulata Velha na Cidade Nova (Língua Geral, 2009), A lua triste descamba (Pallas, 2012) e Oiobomé, a Epopeia de Uma Nação (Agir, 2010).

A contribuição também se estende ao campo acadêmico e cultural. Em 2010, apresentou na Academia Brasileira de Letras a conferência O negro na literatura brasileira: autor e personagem, publicada na Revista Brasileira (nº 66, jan.–mar. 2011). No ano seguinte, participou da Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em diálogo com o escritor angolano Pepetela — encontro repetido em 2012, na Tarrafa Literária, em Santos, ao lado de José Eduardo Agualusa.

Pesquisador atento à presença africana no português do Brasil, seu Dicionário Banto do Brasil (1996) serviu de base para o levantamento de bantuísmos incorporados ao Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (Ed. Objetiva, 2001). No mesmo ano, Nei participou do projeto musical Ouro Negro, em tributo ao maestro Moacir Santos, escrevendo letras interpretadas por artistas como Gilberto Gil, Milton Nascimento, Djavan, João Bosco e Ed Motta.

Reconhecido também como sambista de primeira linha, seu álbum Partido ao Cubo (2005) foi eleito o melhor disco de samba no Prêmio da Música Brasileira. Nesse mesmo ano, a Pallas Editora publicou O samba do Irajá e de outros subúrbios: um estudo da obra de Nei Lopes, tese de mestrado do antropólogo Cosme Elias (UERJ). Em 2009, foi lançada sua biografia Nei Lopes, escrita pelo jornalista Oswaldo Faustino, inaugurando a coleção Retratos do Brasil Negro da Selo Negro.

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