O novo álbum LUX, de Rosalía recoloca a artista catalã no centro da conversa global sobre música e comportamento. Lançado na última semana, o disco mostra uma mudança de rota da cantora, com uma sonoridade mais contida, introspectiva e espiritual. A obra vem sendo celebrada por críticos e fãs como o trabalho mais maduro de sua carreira. O álbum foi elogiado até pelo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que declarou que “Espanha está no topo do cenário musical mundial” graças à artista.
Descrito pelo New York Times como “um álbum sobre o feminino divino, a fé e as brutalidades do amor”, LUX apresenta letras em 13 idiomas, entre eles espanhol, catalão, inglês, latim, ucraniano e árabe. O projeto é resultado de mais de dois anos de trabalho, período em que Rosalía se dedicou a estudar novas línguas, ritmos e tradições musicais. “Foi um exercício de intuição e curiosidade”, contou em entrevista ao podcast Popcast, do jornal norte-americano. “Queria entender como outras línguas funcionam e o que muda quando você tenta sentir o mundo através delas.”
Produzido por Rosalía ao lado de Noah Goldstein (ex-produtor de Kanye West) e Dylan Wiggins (SZA, Justin Bieber), o álbum traz arranjos da Orquestra Sinfônica de Londres e da compositora Caroline Shaw, vencedora do Prêmio Pulitzer. O resultado é um som grandioso, com influências de ópera e música clássica, mas que também preserva a ousadia pop que marca a trajetória da artista. “É um disco sobre rendição”, disse Rosalía. “É o primeiro que fiz sem medo do fracasso.”
Em busca da transcendência
Depois do sucesso de Motomami (2022), que redefiniu os limites entre o pop, o reggaeton e a experimentação sonora, Rosalía agora aposta em uma estética mais minimalista e emocional. Em LUX, as letras exploram temas como solidão, fé, amor e autocontrole, com uma sonoridade que mistura o flamenco contemporâneo à música eletrônica, à tradição vocal espanhola e à orquestração sinfônica. O álbum alterna momentos de silêncio e densidade, com arranjos que evocam corais e instrumentos de câmara, o que a revista "Paste" descreveu como um “pop orquestrado de ressonância erudita”.
Nas redes sociais, fãs e críticos destacaram o contraste entre a energia explosiva de Motomami e a serenidade de LUX. Enquanto o álbum anterior parecia afirmar a liberdade e a sensualidade feminina com intensidade, o novo trabalho revela uma artista em busca de silêncio e transcendência. O primeiro single, Berghain, referência ao clube noturno de Berlim, fala sobre o vazio das festas e a busca por sentido em meio à velocidade da fama.
A estética visual também reflete essa mudança. Nos clipes e imagens de divulgação, Rosalía aparece sozinha, em ambientes neutros e minimalistas, com figurinos simples e iluminação suave, reforçando o caráter espiritual do disco. É uma virada que parece dialogar com um desejo mais amplo de desaceleração, tanto artístico quanto pessoal.
Celibato voluntário
Além da nova sonoridade, o público se interessou por uma revelação recente da cantora. Rosalía afirmou estar solteira e vivendo um período de abstinência sexual voluntária, o que ela mesma chamou de “volcel”, junção das palavras voluntary e celibate. A declaração, feita à Rádio Primavera Sound, viralizou nas redes e reacendeu o debate sobre a escolha consciente de pausar a vida afetiva e sexual.
Saiba mais no vídeo a seguir:
O termo “volcel” tem sido usado por uma geração que busca romper com a ideia de que é preciso estar sempre disponível emocionalmente. “O desejo é flutuante. Às vezes, dar um tempo é uma maneira de se reconectar com o corpo e o prazer”, afirmou a sexóloga Rita Abundancia ao jornal "El País". No caso de Rosalía, o gesto também parece simbólico. Ao declarar que “não há mais espaço para paixões platônicas”, a artista sinaliza um afastamento da idealização romântica, tema que perpassa as letras do novo álbum.
A força da introspecção
A imprensa espanhola tem tratado LUX como um novo momento de maturidade artística. O Público destacou que o álbum “confirma o domínio de Rosalía sobre sua narrativa”, enquanto o El País apontou que ela “transforma o silêncio em força criativa”. Já críticos internacionais ressaltam o caráter experimental da obra, que desafia as fronteiras entre o pop, o erudito e o espiritual.
Desde El Mal Querer (2018), que levou o flamenco às pistas de dança e tocadores de streaming, Rosalía se consolidou como uma das artistas mais inovadoras do pop global. Com LUX, ela parece fechar um ciclo e abrir outro, entre sintetizadores suaves, pausas longas e letras que falam sobre solitude e fé, a cantora mostra que, depois de revolucionar o som, agora quer redescobrir o silêncio. E, em uma era repleta de estímulos, essa talvez seja sua declaração mais ousada até agora.