Neste domingo (16), o segundo dia de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), dedicado aos blocos de Ciências da Natureza e Matemática, contou com uma questão curiosa, que abordava o monstro-de-gila (Heloderma suspectum) — um lagarto “encontrado em um deserto dos Estados Unidos”, que produz um hormônio capaz de controlar os níveis de açúcar do próprio sangue.
O foco da questão era o reconhecimento de biomas brasileiros e a equivalência entre o bioma mais desértico do Brasil (a Caatinga) e o habitat natural do lagarto (confira abaixo).
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Créditos: Ministério da Educação - divulgação
No entanto, o motivo de o animal ser tão peculiar tem a ver com o medicamento que revolucionou o tratamento da obesidade: o Ozempic, injetável com princípio ativo de semaglutida, utilizado para tratar a diabetes tipo 2 em adultos.
Nos anos 1990, pesquisadores norte-americanos descobriram que o monstro-de-gila, lagarto nativo da América do Norte, tinha no seu veneno uma enzima incrível, capaz de controlar seu metabolismo e fazê-lo desacelerar.
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Na prática, a exendina-4, como foi chamada a enzima, serve para manter o lagarto nutrido por longos períodos de tempo — que podem chegar a um ano — com cerca de seis refeições totais.
Créditos: Wikipedia
Ao investigar os efeitos da enzima, os cientistas descobriram que ela tem efeitos similares aos do GLP-1, hormônio produzido naturalmente pelo intestino humano a fim de regular o nível de açúcar no sangue, essencial para o tratamento da diabetes tipo 2. O GLP-1 aumenta a secreção de insulina e retarda o esvaziamento gástrico, o que dá a sensação de saciedade comum aos remédios como o Ozempic.
O efeito da enzima presente no monstro-de-gila revelava outro aspecto poderoso: ela era capaz de permanecer durante períodos mais longos no organismo ,e foi usada, primeiro, para desenvolver um medicamento específico para a diabetes tipo 2: o Byetta, que controla a glicose aumentando a secreção de insulina pelo pâncreas.
Já a semaglutida, versão sintética desenvolvida pela farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk a partir da toxina do lagarto, que se tornou o princípio ativo do Ozempic e do Wegovy — outro famoso medicamento para obesidade —, é uma imitação potente do hormônio humano GLP-1, com a vantagem de ter tempo de ação mais duradouro.
“Ozempic e outros medicamentos que imitam o GLP-1 retardam o esvaziamento gástrico, o que aumenta a sensação de saciedade. A secreção de insulina aumenta porque existem nervos com receptores de GLP-1 próximos à parede do trato gastrointestinal. Isso envia mensagens para a parte inconsciente do cérebro, que as interpreta e envia mensagens de volta (via nervos) para o trato gastrointestinal e o pâncreas para secretar insulina”, explica Sebastian Furness, pesquisador da Universidade de Queensland, em artigo ao The Conversation.
Todos os medicamentos desenvolvidos a partir da exendina-4 são agonistas de GLP-1, o que significa que imitam o hormônio natural, com a diferença de atuarem de forma mais eficaz e por mais tempo.
Dentre os vários medicamentos surgidos desde o começo dos anos 2000, a fama do Ozempic se difundiu pela eficácia clínica com um impacto menor de custos, com uma molécula desenhada para resistir à degradação do corpo e que pode ser aplicada apenas uma vez por semana, algo inédito na classe de medicamentos similares.
A semaglutida também demonstrou eficácia consistente para outros males, como infarto e AVC, apesar de não ser um medicamento cardiovascular. Isso fez com que se tornasse, hoje, um dos medicamentos mais vendidos do planeta.
Só no primeiro trimestre de 2024, impulsionado pelas vendas de Ozempic e Wegovy, o faturamento global da Novo Nordisk ultrapassou os três bilhões de dólares, e espera-se que o mercado de medicamentos baseados em GLP-1 — que inclui o Mounjaro, mais nova adição à classe — chegue a mais de 9 bilhões de reais em 2026, segundo a Associação Médica Brasileira.