Para muitos povos amazônicos, o Mapinguari não é apenas um personagem do folclore: ele é um ser real, que ocupa e influencia o cotidiano das comunidades. Entre os Karitiana, povo de língua Arikém que vive no norte de Rondônia, não há dúvidas: o Mapinguari — chamado por eles de Owojo, Kida harara ou Kida so’emo — é um habitante perigoso das matas, cuja presença determina percursos, medos e modos de circular pelo território.
Quando a literatura, a televisão ou a internet tratam o Mapinguari como uma lenda amazônica, falam de algo muito diferente daquilo que os Karitiana descrevem. Para eles, a criatura não é crença — é um fato do mundo.
O que dizem os Karitiana
Os relatos coletados entre os Karitiana descrevem um ser de grande porte, coberto de pelos escuros, com dentes enormes, unhas capazes de rasgar árvores e um grito que ecoa pela mata. Seu corpo seria resistente a tiros — “como pedra”, dizem os caçadores — e seu hábito mais temido seria perseguir e devorar humanos.
A criatura habitaria uma caverna na Serra Moraes, área evitada pelos indígenas. Caçadores narram encontros assustadores, fugas desesperadas e marcas deixadas na floresta. Esses relatos moldam comportamentos: há regiões que simplesmente não são frequentadas para não cruzar com o monstro.
Para os Karitiana, esse ser faz parte da categoria dos kida (“bichos” perigosos, ogros), grupo que inclui espíritos, animais agressivos e criaturas sobrenaturais.
Por que a ciência se interessa pelo Mapinguari
A figura do Mapinguari desperta, há mais de um século, a curiosidade de pesquisadores que tentam relacionar relatos amazônicos com espécies extintas. Uma corrente defende que o monstro seria uma preguiça gigante — animal de três metros que viveu até cerca de 10 mil anos atrás.
O ornitólogo David Oren chegou a organizar expedições para encontrar vestígios desses megatérios vivos. A hipótese nunca foi comprovada.
Para antropólogos, entretanto, essa busca revela mais sobre o olhar ocidental do que sobre o ser em si. A tentativa de “provar” cientificamente o Mapinguari — seja como espécie viva, seja como história imaginária — desconsidera que ele pertence a um mundo real para os Karitiana, no qual ciência e mito não são categorias opostas.
O choque entre mundos
O que a ciência chama de “crença” é, para os Karitiana, experiência concreta. Reduzir a criatura a mito folclórico é tratar o conhecimento indígena como fantasia. Por outro lado, identificar o Mapinguari como fóssil vivo também desloca sua realidade para outra lógica — a da zoologia.
No fundo, esses enquadramentos ignoram o ponto central: o Mapinguari existe porque produz efeitos reais no mundo dos Karitiana. Afeta decisões, provoca medo, demanda cuidado. Isso basta para que seja tão real quanto qualquer outro elemento do território.
O monstro na mídia
Em 2011, uma equipe do National Geographic gravou entre os Karitiana um episódio da série Beast Hunter. A atração tratou o Mapinguari como uma versão brasileira do bigfoot, usando truques de narrativa televisiva e suspense.
A equipe teria prometido pagamentos a alguns participantes e não cumprido, o que gerou revolta entre os indígenas, que buscariam o Ministério Público Federal. Não houve comprovação científica da existência do monstro — mas isso nunca foi o ponto para os Karitiana.
Enquanto pesquisadores debatem hipóteses e “caçadores de monstros” exploram a Amazônia em busca de provas, moradores de aldeias e ribeirinhos seguem adaptando sua vida ao medo do Mapinguari. Em 2014, catadores de açaí relataram ter encontrado a criatura na Reserva Sumaúma, em Rondônia. Abandonaram a colheita e juraram não voltar.
Fontes:
- Velden, F. F. V.. (2016). Realidade, ciência e fantasia nas controvérsias sobre o Mapinguari no sudoeste amazônico. Boletim Do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 11(1)
- National Geographic: New Amazon Frog Named After Mythical Monster