O termo “capitalismo tardio” se tornou central para compreender as mudanças na estrutura do capitalismo mundial após o fim da Segunda Guerra. É nesse período que dinâmicas internas à economia — desde a ascensão de um Estado de bem-estar social (welfare state) até a expansão das tecnologias de produção e consumo em massa — redesenham o papel do Estado, das empresas e das relações sociais, que se tornam cada vez mais mediadas e fetichizadas pelo capital.
Partiu do economista Werner Sombart um dos primeiros usos da expressão capitalismo tardio, associando-a ao suposto declínio do sistema capitalista a partir da Primeira Guerra Mundial.
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Décadas depois, a noção se consolidou ao ser retomada por pensadores marxistas, particularmente na interpretação neo-ortodoxa de Ernest Mandel, com sua tese de doutorado Late Capitalism, em 1972, e por autores da Escola de Frankfurt, que procuravam explicar como o capitalismo sobrevivera às crises devastadoras da “Era da Catástrofe”, como a denominou o historiador Eric Hobsbawm: o período entre as duas grandes guerras mundiais, a Grande Depressão de 1929 e o colapso dos impérios que estruturavam o Velho Mundo (substituídos por formas modernas de neoimperialismo).
No pós-guerra, no entanto, o cenário mudou. A reconstrução econômica, o pleno emprego, a ampliação dos direitos sociais e a intervenção crescente do Estado alimentaram a sensação de que a instabilidade crônica do sistema poderia ser controlada. Foi esse “capitalismo organizado” que se tornou objeto de estudo de autores como Mandel, Jürgen Habermas, Herbert Marcuse e Theodor W. Adorno.
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Afinal, o que é o capitalismo tardio?
Ernest Mandel, que inicialmente o chamou de “neocapitalismo”, definiu o capitalismo tardio como a terceira fase do imperialismo, ou um desdobramento da época imperialista de capitalismo monopolista. Sua obra se enquadra no esforço de explicar o período do pós-guerra mantendo o instrumental teórico marxiano clássico.
Para conectar a teoria marxista à história e explicar oscilações de longa duração, Mandel recorre à teoria das ondas longas de Kondratiev. Essas ondas, de aproximadamente 50 anos, explicam a alternância entre períodos de expansão e de estagnação do sistema econômico, quando o capitalismo passa por aumento das rendas do capital e do consumo, mas então se fecha em hiperinflação, especulação e crises de superprodução.
A onda longa ascendente do pós-guerra (iniciada entre 1940 e 1948) foi impulsionada, segundo o autor, por fatores exógenos à economia, como a derrota histórica da classe trabalhadora entre as décadas de 1930 e 1940, com a ascensão do fascismo e do nazismo na Itália e na Alemanha, a destruição de sindicatos, conselhos e organizações de esquerda e a consolidação de um Estado cada vez mais autoritário, o que permitiu a retomada da taxa média de lucro dos capitalistas.
O período que se chama de capitalismo tardio é marcado, também, pela ascensão de uma nova revolução tecnológica, já não mais estruturada apenas em termos industriais, mas em novas possibilidades de automação (que definem o aumento da produtividade e a diminuição do trabalho humano), na eletrônica, em novas fontes energéticas e na inteligência artificial, responsável pelas chamadas “rendas tecnológicas”, fontes extraordinárias de lucro.
Um traço emblemático do capitalismo de competição monopolista é que ele se torna cada vez mais dependente de inovações que diminuam o tempo total de trabalho humano, e, consequentemente, cria as bases de sua própria contradição, uma vez que a extração do trabalho humano continua a ser a única fonte de remuneração e valorização social no modelo capitalista (a partir de sua venda como força de trabalho no mercado e da extração do tempo excedente como fonte de lucro).
Capitalismo regulado pelo Estado?
Em Problemas de legitimação no capitalismo tardio (1973), o filósofo Jürgen Habermas argumenta que as mudanças pós-1945 transformam não apenas a economia, mas o modo como o Estado se relaciona com a sociedade.
Como o mercado já não é capaz de estabilizar o sistema sozinho, o Estado assume um papel central na regulação, no investimento e na mediação das crises. Apesar de conseguir evitar colapsos produtivos, o Estado se torna vulnerável a déficits fiscais, inflação e tensões permanentes com o mercado.
Para Adorno, um dos pais da teoria crítica, o Estado interventor não representa ruptura, mas a continuidade lógica de um sistema que busca garantir sua própria sobrevivência às custas do antagonismo social crescente e de uma massificação da cultura. O resultado é o “fechamento do universo político”: alternativas emancipatórias tornam-se invisíveis, sufocadas pelo consumismo, pela propaganda e pela administração total da vida.
É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?
Cinco décadas depois, as teorias do capitalismo tardio reaparecem em debates sobre crise climática, financeirização, automação, pós-verdade, plataformas digitais e desigualdades crescentes. A sensação de “fase terminal” acompanha todas as metamorfoses do capitalismo, da crise de 1929 ao colapso financeiro de 2008. O que muda é a forma da crise e as possibilidades de renovação do sistema.
O novo formato dessa crise é a incorporação de novos mediadores do trabalho: a plataformização da economia, uma forma de extrair valor sem a compra direta de bens de capital no mercado.
O capital, nesse caso, vem do próprio trabalhador — de seu automóvel, seu celular, de investimentos públicos em infraestrutura. É uma forma de o capitalista se apropriar dos lucros, diminuir o tempo absoluto de trabalho na composição das rendas e, simultaneamente, participar da captura de rendas financeiras no mercado de ações, sem dispender investimentos em estoques ou reservas.
As possibilidades de emancipação parecem cada vez mais distantes. Em Capitalist Realism: Is There No Alternative? (2009), o filósofo britânico Mark Fisher sintetiza esse diagnóstico numa frase que se tornou símbolo de uma era: “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?”.
Fisher evidencia que o capitalismo neoliberal se converteu numa narrativa convincente, apesar de suas contradições e de seu funcionamento disfuncional: o capitalismo teria conseguido se apresentar como a única realidade possível — o que ele chama de “realismo capitalista”. Mesmo crises econômicas aparecem como desvios corrigíveis, não como sinais de exaustão do modelo.
A lógica da destruição produtiva de Schumpeter reaparece a cada novo ciclo: novas formas de extrair valor são inventadas, mas os pressupostos permanecem os mesmos, e a contradição perdura.
Fisher — assim como o teórico do “cansaço”, Byung-Chul Han — identifica também uma dimensão subjetiva do capitalismo tardio: a epidemia contemporânea de depressão, ansiedade e esgotamento.
Em vez de reconhecer causas estruturais como competição extrema, precarização laboral e trabalhos desestimulantes, o capitalismo tardio individualiza a culpa, numa ideologia cada vez mais disciplinante.
Para transformar o capitalismo — ou superá-lo —, seria preciso romper a sensação de inevitabilidade que o sustenta. Essa ruptura, para Fisher, não é apenas política, mas atravessa as dimensões cultural, afetiva e narrativa. Daí seu conceito de “ficções científicas da economia”: imaginar novas configurações sociais e econômicas, usando a ficção científica como laboratório para novos mundos possíveis.
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