A súbita popularidade dos chaebols — como são chamados os megaconglomerados familiares sul-coreanos —, muito impulsionada pelos doramas que dramatizam a vida de herdeiros poderosos, envolvidos em disputas de sucessão e empreendimentos bilionários, faz imaginar sobre a origem desse modelo econômico.
Muito antes de se tornarem protagonistas de romances, os chaebols (cujo termo significa literalmente "clã da riqueza" ou "dinastia do dinheiro") foram o alicerce da profunda transformação econômica sofrida pela Coreia do Sul após a Segunda Guerra Mundial.
Te podría interesar
Um país predominantemente rural até o início da década de 1960, a Coreia do Sul viu sua economia se industrializar em tempo recorde a partir de 1961, quando um golpe militar organizado pelo general sul-coreano Park Chung-hee levou à renúncia de Yun Bo-seon e encerrou o período da Segunda República sul-coreana (naquela que seria chamada pelos militares de "a revolução de 16 de maio").
O que é chaebol?
Inspirados nos zaibatsu japoneses (grandes conglomerados financeiros e industriais surgidos no Japão pré-Segunda Guerra Mundial), os chaebols são megaconglomerados industriais administrados por um mesmo grupo familiar, que controlam dezenas ou até centenas de empresas importantes para a economia sul-coreana.
Te podría interesar
Embora não exista uma definição única, o pesquisador Chan Sup Chang, da School of Business Administration do Lander College, descreve os chaebols como “grandes empreendimentos formados por múltiplas corporações”, e a Fair Trade Commission (KFTC), autoridade que regula a competição na Coreia do Sul, os define como um grande grupo empresarial sob “controle comum”.
Mas, na prática, isso significa que um pequeno núcleo familiar, geralmente os descendentes do fundador, exerce influência direta sobre todas as empresas do grupo por meio de estruturas como propriedade cruzada e participações acionárias majoritárias.
Os chaebols se tornaram, ao longo das décadas, um modelo de capitalismo familiar altamente concentrado, apoiado e institucionalizado pelo Estado sul-coreano, e foram decisivos para transformar a Coreia do Sul em uma das economias mais avançadas do mundo.
A ascensão dos conglomerados familiares
A primeira grande iniciativa do novo governo militar sul-coreano, após o golpe de Estado de 1961, foi o lançamento do plano quinquenal de 1962, criado para impulsionar grandes grupos empresariais familiares, os chaebols. A ideia era simples, mas ousada: captar empréstimos internacionais, direcionar crédito estatal e usar esses recursos para erguer uma indústria exportadora robusta, reduzindo a dependência dos EUA num contexto de Guerra Fria.
Não havia limite de atuação: um mesmo conglomerado podia produzir carros, construir navios, fabricar geladeiras e investir em siderurgia. Era justamente isso que o Estado incentivava: escala, diversificação e capacidade de assumir riscos.
Segundo o Korean Productivity Center, os 100 maiores chaebols controlam, hoje, cerca de 823 empresas, e nomes como Samsung, Hyundai Motors, LG e SK Holdings continuam formando o núcleo econômico do país. A lógica familiar permanece central: “O prestígio familiar é vital para o estilo de gerenciamento sul-coreano”, explica Chan Sup Chang.
Na década de 1960, porém, a Coreia do Sul ainda era um país devastado pela guerra e sem recursos técnicos ou financeiros para desenvolver indústrias pesadas.
Ao mesmo tempo, enfrentava pressão dos EUA para se afastar do governo militar, o que levou Park Chung-hee a convocar eleições em 1963, embora vencidas por ele próprio. Os dois primeiros planos quinquenais cumpriram seu objetivo imediato: construir rapidamente infraestrutura, proteger indústrias locais e oferecer subsídios agressivos àquelas consideradas campeãs nacionais.
Um crescimento acelerado e seus efeitos colaterais
O modelo gerou um crescimento sem precedentes. A Coreia do Sul se tornou referência em eletrônicos, automóveis, construção naval e tecnologia. Mas o ritmo acelerado veio acompanhado de problemas, como o endividamento excessivo, dependência de poucos grupos oligopolistas, corrupção e uma economia sujeita a poucos interesses.
Nos anos 1990, o desequilíbrio ficou insustentável. A busca por expansão era tão frenética que, às vésperas da crise asiática, o endividamento corporativo dos maiores chaebols ultrapassava 300% dos orçamentos dos conglomerados. Empresas inchadas, com dezenas de subsidiárias e pouca transparência contábil, competiam mais por tamanho do que por lucratividade.
A crise de 1997 e o colapso dos gigantes
Quando a crise cambial iniciada na Tailândia se espalhou pelo Leste Asiático, a Coreia do Sul sentiu o impacto de imediato. Com dívidas massivas em dólar e reservas insuficientes, o país precisou recorrer ao FMI. O won despencou, e os conglomerados mais frágeis entraram em colapso.
O caso mais emblemático foi o da Daewoo, então o segundo maior chaebol do país, cuja dívida ultrapassava US$ 80 bilhões antes da falência. A Kia Motors teve de ser adquirida pela Hyundai, e a Hanbo Steel caiu após um gigantesco escândalo de corrupção que envolveu políticos, ministros e executivos — um marco negativo na história econômica do país.
A crise obrigou o governo a impor reformas: reduzir a alavancagem, limitar a proximidade entre Estado e conglomerados, exigir maior transparência e incentivar governança corporativa moderna. Mas, paradoxalmente, os maiores grupos saíram fortalecidos. Compraram ativos de empresas falidas, receberam investimentos estrangeiros e consolidaram ainda mais seu poder.
O poder dos chaebols hoje
Em 2023, apenas quatro famílias — Samsung, SK, Hyundai Motors e LG — controlavam 40,8% do PIB da Coreia do Sul, segundo a Comissão de Livre Concorrência. No total, os chaebols continuam responsáveis por até dois terços da riqueza produzida no país, agora sustentados por capital globalizado e cadeias de valor digitais.
Mesmo quando não detêm a maioria das ações, as famílias fundadoras preservam o comando. “Os descendentes dos fundadores muitas vezes mantêm o controle”, afirma a Britannica Money, um traço que ajuda a explicar por que os dramas envolvendo herdeiros e sucessões continuam tão presentes não só na vida real, mas também na ficção televisiva.