CINEMA

“A Natureza das Coisas Invisíveis” é um coming of age sobre luto e finitude

Longa-metragem de estreia de Rafaela Camelo foi apresentado na Generation Kplus do Festival de Berlim e premiado na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Cena de “A Natureza das Coisas Invisíveis”.Créditos: Divulgação
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O olhar de duas garotas para a finitude da vida é tema de “A Natureza das Coisas Invisíveis”, longa-metragem de estreia de Rafaela Camelo. A obra enfoca uma amizade que se formou no mais improvável dos lugares, um hospital, para falar sobre luto, imaginação e amadurecimento. Exibido no Festival de Berlim, na seção Generation Kplus, o filme chega aos cinemas nesta quinta-feira (27), após receber o Prêmio da Crítica de Melhor Filme Brasileiro e o Prêmio Prisma Queer de Melhor Filme Brasileiro na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Nesta semana, também foi agraciado na categoria melhor longa-metragem no 33ª edição do Festival MixBrasil.

“A Natureza das Coisas Invisíveis” partiu da premissa de pensar o cinema como um espaço para processar a experiência do luto. “Sinto que o projeto ganhou corpo quando decidi focar mais na experiência íntima das personagens do que em um conflito que servisse como motor da trama”, explica Rafaela. “Eu busquei por algo mais introspectivo, mais contemplativo, que falasse sobre a experiência do luto atravessando mulheres de diferentes gerações”. Entre as referências da cineasta, estão clássicos como “O Espírito da Colmeia” (1973), de Víctor Erice, e “Fanny e Alexander” (1982), de Ingmar Bergman, ambos contados a partir dos pontos de vista de duas crianças. “E ‘As Coisas Simples da Vida’ (2000) é provavelmente o filme que eu mais amo na vida: me transformou de tal maneira que, de algum modo, vejo traços dele em tudo o que escrevo”, completa a diretora, a respeito do filme de Edward Yang.

Para essa história de coming of age, “A Natureza das Coisas Invisíveis” passa longe de questões comuns nesse tipo de narrativa, como o bullying, o primeiro beijo ou a sexualidade, para falar sobre a descoberta da morte. “Elas não deixam de ser crianças. O que acontece não é a perda ou passagem da infância, e sim a abertura de um novo território emocional: é a primeira vez que acessam esse tipo de experiência”, explica a cineasta. Diante das respostas incompletas ou insatisfatórias dos adultos, as garotas recorrem à imaginação. “Para mim, era muito importante que a imaginação não fosse tratada como sinal de ingenuidade. É sim uma forma legítima de organizar o mundo e de buscar sentido em experiências que são intangíveis”, afirma Rafaela. “O arco de amadurecimento delas nasce justamente desse movimento: da tentativa de conciliar o que veem e sentem com a capacidade infantil de transformar, interpretar e criar significados próprios.”

Protagonismo trans

Um dos pontos centrais do filme é a personagem Sofia (Serena) ser uma menina trans - e que é também interpretada por uma. “Penso que o fato dela ser uma criança fez com que eu me identificasse”, conta a atriz. “Sobre ser eu a contar a história da Sofia, foi muito legal porque eu sempre sonhei em atuar no cinema. Foi uma oportunidade linda!”

Já a história da amizade entre Sofia e Glória (Laura Brandão) reverberou dentro e fora das telas. “Nossa amizade sempre foi e sempre será muito pura e eu acho que a Glória tem admiração sobre a coragem da Sofia de ser quem ela realmente é”, explica Laura. “Entendo que a minha personagem aprendeu o verdadeiro sentimento de amizade, porque ela e a Sofia se dão muito bem. Acho também que ela aprendeu a lidar com o luto de uma forma mais ‘simples’.".

Um dos momentos mais emblemáticos da narrativa é quando a questão da morte perpassa não apenas a despedida da bisavó de Sofia, mas também a de sua antiga identidade, Bento. “Eu diria que ambos os lutos estão relacionados com transição. Um luto relacionado à passagem de um plano espiritual para outro, o outro luto de uma identidade para a outra”, explica Serena. “Pelo fato de Sofia já ter transicionado, para ela a identidade do Bento já era passado. As outras pessoas é que precisavam entender o que aconteceu.”

A diretora explica a abordagem do roteiro para a questão da transgeneridade da protagonista. “Senti que não era importante para essa história falar sobre o processo de transição, em nenhum momento a personagem sofre violência ou tem sua identidade questionada. Sofia está vivendo sua vida e sua infância, mas é surpreendida pela doença da Bisa. E esse é o seu maior dilema”, explica. “Pode parecer óbvio, mas pessoas trans não passam a vida inteira refletindo sobre o próprio gênero. Resumir uma personagem a sua identidade, qualquer que seja, é muito limitador”.

Ao longo da pesquisa para o filme, a cineasta ouviu relatos de famílias de crianças trans. “Pouco me surpreendeu perceber que justamente as mulheres dessas famílias - mães, avós - são em sua maioria as responsáveis pelo cuidado. Logo, falar sobre a maternidade trans me pareceu um bom caminho”, explica. Ela reforça que, a cada etapa do processo, foi descobrindo coisas novas sobre gênero e transgeneridade. “Quem não vive a experiência da transgeneridade na pele e quer falar sobre o tema tem que estar muito atento para ouvir, se questionar e assumir a própria ignorância. Senão corre o risco de fazer um filme que não contribui para o debate sobre um tema importantíssimo”, conclui a cineasta.

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