ESTILO DE VIDA

Ela atravessou o mundo caminhando: a trajetória emocionante da mulher que cruzou 3 continentes a pé

O que começou como um desafio pessoal acabou se transformando em uma jornada de 11 anos

Créditos: Reprodução/Youtube
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A britânica Ffyona Campbell tinha apenas 16 anos quando decidiu que caminharia distâncias que poucos adultos ousariam enfrentar. O que começou como um desafio pessoal acabou se transformando em uma jornada de 11 anos, 32 mil quilômetros e uma coleção de feitos que a colocaram entre as maiores caminhantes de longa distância da história.

Nascida em Totnes, no condado de Devon, em 1967, Campbell cresceu em uma família ligada à Marinha Real. A infância marcada por constantes mudanças — foram 24 casas e 15 escolas — ajudou a moldar uma jovem inquieta, pouco adaptada à vida convencional e determinada a testar seus limites físicos desde cedo.

A adolescência que virou travessia

Aos 16 anos, recém-saída de casa e da escola, Campbell conseguiu patrocínio suficiente para cruzar o Reino Unido de ponta a ponta, de John o’ Groats a Land’s End. Caminhando entre 32 e 40 quilômetros por dia, completou a jornada em 49 dias e conquistou um recorde: era a pessoa mais jovem a atravessar toda a Grã-Bretanha a pé.

O feito chamou atenção da imprensa britânica e abriu portas para novos desafios. Aos 18 anos, ela iniciou uma travessia pelos Estados Unidos, saindo de Nova York rumo a Los Angeles. Além do desgaste físico, enfrentou uma intensa agenda midiática imposta pelos patrocinadores, que exigiam entrevistas diárias ao final de longas caminhadas.

Aos 21 anos, Campbell decidiu atravessar a Austrália. Foram 3.200 milhas entre Sydney e Perth, percorridas em 95 dias — ritmo que superou o recorde masculino na época. Ela sofreu queimaduras severas, desidratação e bolhas profundas nos pés, mas insistiu em completar cada quilômetro.

Em 1991, iniciou sua travessia mais emblemática: cruzar a África a pé, da Cidade do Cabo a Tânger. O percurso de 16 mil quilômetros durou dois anos e exigiu enfrentamento de zonas de guerra, doenças, expulsões e um episódio em que sua equipe foi evacuada pela Legião Estrangeira Francesa durante uma revolta no Zaire. Determinada a não “perder nenhum passo”, ela retornou ao trecho original poucas semanas depois para continuar exatamente de onde havia parado.

Durante o trajeto pelo Saara, chegou a caminhar 4 mil quilômetros extras para contornar áreas de conflito. Sua chegada ao Marrocos, em 1993, atraiu cobertura internacional e ampliou a visibilidade de grupos que defendem populações indígenas, como a Survival International.

A volta ao mundo e a consagração

Em 1994, Campbell partiu de Algeciras, na Espanha, e seguiu pela Via de la Plata até atravessar França e Reino Unido novamente. Concluiu os últimos 1.300 quilômetros até John o’ Groats acompanhada por jovens da Raleigh International. O momento final foi registrado pela BBC.

Aos 27 anos, Ffyona Campbell já havia caminhado em três continentes e passou a ser celebrada como a primeira mulher a dar a volta ao mundo a pé — título, à época, amplamente reconhecido pela imprensa.

Anos mais tarde, a própria Campbell relataria que, durante a travessia dos Estados Unidos aos 18 anos, precisou aceitar caronas por estar muito doente para caminhar. O receio de decepcionar patrocinadores a levou a manter o episódio em segredo. Décadas depois, ela refez o trecho por conta própria, cobrindo a distância perdida e mais 2.400 quilômetros adicionais, relato que aparece em seu livro The Whole Story.

Da maratona ao mato: uma nova vida como caçadora-coletora

A convivência com povos indígenas — aborígenes, bosquímanos, pigmeus e nativos americanos — durante suas travessias transformou sua visão de mundo. Depois de concluir sua volta ao globo, Campbell voltou à Austrália para viver entre aborígenes e, mais tarde, retornou ao Reino Unido para estudar práticas tradicionais de coleta.

Ela passou a ensinar técnicas de forrageamento e sobrevivência por meio de sua empresa, a Wild Food Walks, e publicou The Hunter-Gatherer Way, obra que narra sua imersão em culturas ancestrais e seu esforço de trazer esse conhecimento para a vida moderna.

 

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