A britânica Ffyona Campbell tinha apenas 16 anos quando decidiu que caminharia distâncias que poucos adultos ousariam enfrentar. O que começou como um desafio pessoal acabou se transformando em uma jornada de 11 anos, 32 mil quilômetros e uma coleção de feitos que a colocaram entre as maiores caminhantes de longa distância da história.
Nascida em Totnes, no condado de Devon, em 1967, Campbell cresceu em uma família ligada à Marinha Real. A infância marcada por constantes mudanças — foram 24 casas e 15 escolas — ajudou a moldar uma jovem inquieta, pouco adaptada à vida convencional e determinada a testar seus limites físicos desde cedo.
Te podría interesar
A adolescência que virou travessia
Aos 16 anos, recém-saída de casa e da escola, Campbell conseguiu patrocínio suficiente para cruzar o Reino Unido de ponta a ponta, de John o’ Groats a Land’s End. Caminhando entre 32 e 40 quilômetros por dia, completou a jornada em 49 dias e conquistou um recorde: era a pessoa mais jovem a atravessar toda a Grã-Bretanha a pé.
O feito chamou atenção da imprensa britânica e abriu portas para novos desafios. Aos 18 anos, ela iniciou uma travessia pelos Estados Unidos, saindo de Nova York rumo a Los Angeles. Além do desgaste físico, enfrentou uma intensa agenda midiática imposta pelos patrocinadores, que exigiam entrevistas diárias ao final de longas caminhadas.
Te podría interesar
Aos 21 anos, Campbell decidiu atravessar a Austrália. Foram 3.200 milhas entre Sydney e Perth, percorridas em 95 dias — ritmo que superou o recorde masculino na época. Ela sofreu queimaduras severas, desidratação e bolhas profundas nos pés, mas insistiu em completar cada quilômetro.
Em 1991, iniciou sua travessia mais emblemática: cruzar a África a pé, da Cidade do Cabo a Tânger. O percurso de 16 mil quilômetros durou dois anos e exigiu enfrentamento de zonas de guerra, doenças, expulsões e um episódio em que sua equipe foi evacuada pela Legião Estrangeira Francesa durante uma revolta no Zaire. Determinada a não “perder nenhum passo”, ela retornou ao trecho original poucas semanas depois para continuar exatamente de onde havia parado.
Durante o trajeto pelo Saara, chegou a caminhar 4 mil quilômetros extras para contornar áreas de conflito. Sua chegada ao Marrocos, em 1993, atraiu cobertura internacional e ampliou a visibilidade de grupos que defendem populações indígenas, como a Survival International.
A volta ao mundo e a consagração
Em 1994, Campbell partiu de Algeciras, na Espanha, e seguiu pela Via de la Plata até atravessar França e Reino Unido novamente. Concluiu os últimos 1.300 quilômetros até John o’ Groats acompanhada por jovens da Raleigh International. O momento final foi registrado pela BBC.
Aos 27 anos, Ffyona Campbell já havia caminhado em três continentes e passou a ser celebrada como a primeira mulher a dar a volta ao mundo a pé — título, à época, amplamente reconhecido pela imprensa.
Anos mais tarde, a própria Campbell relataria que, durante a travessia dos Estados Unidos aos 18 anos, precisou aceitar caronas por estar muito doente para caminhar. O receio de decepcionar patrocinadores a levou a manter o episódio em segredo. Décadas depois, ela refez o trecho por conta própria, cobrindo a distância perdida e mais 2.400 quilômetros adicionais, relato que aparece em seu livro The Whole Story.
Da maratona ao mato: uma nova vida como caçadora-coletora
A convivência com povos indígenas — aborígenes, bosquímanos, pigmeus e nativos americanos — durante suas travessias transformou sua visão de mundo. Depois de concluir sua volta ao globo, Campbell voltou à Austrália para viver entre aborígenes e, mais tarde, retornou ao Reino Unido para estudar práticas tradicionais de coleta.
Ela passou a ensinar técnicas de forrageamento e sobrevivência por meio de sua empresa, a Wild Food Walks, e publicou The Hunter-Gatherer Way, obra que narra sua imersão em culturas ancestrais e seu esforço de trazer esse conhecimento para a vida moderna.