O Morro da Providência, na Gamboa, região central do Rio, é mais do que um marco geográfico. É o território que inaugurou o conceito de favela no Brasil e sintetiza, em sua formação, a história das desigualdades urbanas do país. Embora já aparecesse nas plantas oficiais da cidade desde o século XIX, sua ocupação definitiva só começa no fim daquele século, num momento em que o Estado abandonava simultaneamente soldados de guerra e pessoas recém-libertas da escravidão.
Em 1897, os combatentes que voltavam da Guerra de Canudos chegaram ao Rio sem receber o pagamento prometido e sem a moradia garantida pelo governo. A solução encontrada foi ocupar uma colina próxima ao porto, então cercada por pedreiras e distante das áreas valorizadas da cidade. Ao mesmo tempo, a abolição da escravatura empurrava milhares de ex-escravizados para habitações precárias. Muitos deles viviam em cortiços superlotados, como o famoso Cabeça de Porco, demolido anos depois durante as reformas conduzidas por Pereira Passos. Despejadas, essas famílias seguiram o fluxo dos soldados e subiram as encostas da Providência, consolidando a comunidade.
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De morro-esconderijo à memória digital
O nome Morro da Favela nasce dentro dessa mistura de trajetórias. Os soldados, vindos de Canudos, batizaram o local em referência ao Morro da Favela existente no sertão baiano, coberto pelo arbusto faveleira. A partir dali, o termo se espalha e passa a nomear outras ocupações semelhantes nas décadas seguintes.
A vida na Providência, porém, carregava contradições duras. Muitos moradores trabalhavam na pedreira instalada no próprio morro, num processo descrito como “favela autofágica”: para sobreviver, destruíam lentamente o lugar onde viviam. A situação atingiu seu ponto mais dramático em 1968, quando uma explosão matou 36 pessoas — corpos que nunca foram encontrados. Nas duas primeiras décadas do século XX, a região já era tratada como uma das áreas mais violentas da cidade. Ainda assim, ergueu seus símbolos, como o Oratório inaugurado em 1901, tombado pelo município e preservado até hoje.
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Mais de 120 anos depois do início dessa ocupação, o Morro da Providência segue como espaço de resistência, cultura e produção de memória. E agora prepara um novo marco histórico. Em outubro, durante a 8ª edição do Festival Galeria Providência, foi lançado uma plataforma digital que reunirá o acervo histórico completo da comunidade — fotos, documentos, entrevistas, registros de moradores e materiais sobre a trajetória do morro desde o século XIX.
O novo portal inclui também uma área institucional dedicada ao Projeto Galeria Providência, responsável pelo festival e por diversas ações culturais e sociais desenvolvidas ao longo do ano. Nesse espaço, moradores encontrarão informações sobre atividades, oportunidades e serviços oferecidos no território.