Para muita gente, o termo glossolalia pode soar estranho ou distante do cotidiano. O nome parece técnico, quase acadêmico, mas o fenômeno está muito mais presente na experiência religiosa brasileira do que se imagina. Quem já participou de um culto pentecostal, assistiu a transmissões de igrejas na TV ou circulou por comunidades marcadas pelo cristianismo carismático certamente já escutou a respeito de “falar em línguas”.
O que é glossolalia
Talvez você se lembre do vídeo da ex-primeira dama Michelle Bolsonaro, em que ela aparece falando em uma língua irreconhecível, ao comemorar a aprovação de André Mendonça à vaga no Supremo Tribunal Federal, após a sabatina no Senado. Na época, a explicação para a forma como Michelle celebrou o momento foi a de que ela estava se comunicando diretamente com Deus. Em declaração à imprensa, o teólogo e atual líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante, disse que a ex-primeira-dama estaria falando em línguas, em outras palavras, tratáva-se de um momento de glossolalia.
No entanto, esse fenômeno não começou com a bancada evangélica. O texto mais lembrado quando se discute o falar em línguas é o Pentecostes, em Atos 2. De acordo com o site Biblical Archaeology Society, o relato descreve que os discípulos “foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas” (At 2:4). A passagem foi amplamente reproduzida em manuscritos e iconografias ao longo dos séculos, consolidando-se como o marco inaugural do fenômeno no cristianismo.
Mas o que exatamente aconteceu ali ainda é objeto de disputa. Conforme explica o teólogo Ben Witherington III, o evento descrito em Atos 2 não seria glossolalia, mas xenolalia, isto é, o dom de falar línguas humanas reais desconhecidas pelo falante. O argumento se baseia na leitura do grego original: Atos 2:6 afirma que cada pessoa presente “os ouvia falar em sua própria língua”. Para Witherington, o milagre está na fala dos discípulos, não na audição da multidão.
Essa interpretação reforça uma confusão comum: glossolalia e xenolalia não são sinônimos.
O que é glossolalia e xenolália: qual a diferença?
A glossolalia consiste na emissão de sons, sílabas e frases sem correspondência com idiomas conhecidos. Para quem pratica, representa uma conexão direta com o divino. Para estudiosos, trata-se de um tipo de discurso automático que surge em estados emocionais intensos ou alterados. É um fenômeno real, o que muda é a interpretação.
Já a xenolália, termo frequentemente confundido com glossolalia, refere-se à suposta capacidade de falar uma língua estrangeira verdadeira sem nunca tê-la estudado. Enquanto a glossolalia é comum, a xenolália é rara e cercada de relatos controversos, quase sempre ligados a narrativas milagrosas.
Na prática, o “falar em línguas” funciona como elemento ritual, marcando momentos de êxtase coletivo e reforçando identidades comunitárias, especialmente em igrejas pentecostais.
O olhar acadêmico de "Glossolália: O Sentido da Desordem"
Se, no campo teológico, a glossolalia costuma ser analisada pelo viés da fé e do significado espiritual, a antropologia e a linguística procuram compreender como esse fenômeno atua na experiência social, simbólica e afetiva dos fiéis. Uma das pesquisas mais importantes sobre o tema é a dissertação “Glossolália: O Sentido da Desordem. A Simbologia do Som na Constituição do Discurso Pentecostal” (1989), de Selma Baptista, apresentada à Unicamp e amplamente citada por estudiosos das religiões brasileiras.
De acordo com Baptista, a glossolalia deve ser entendida como uma linguagem imaginária, isto é, um modo de expressão que não se organiza a partir de significados estáveis, mas da força sonora. Para a pesquisadora, o fenômeno “não tem função comunicacional no sentido linguístico tradicional”. Nesse caso, o valor da glossolalia não está em transmitir informações, mas em produzir uma experiência espiritual e emocional partilhada.
Segundo Baptista, o som da glossolalia rompe com a lógica que rege a linguagem cotidiana. Ao suspender regras de racionalidade, linearidade e silêncio, o fenômeno cria o que a autora chama de uma “experiência de limite”, um espaço onde o sagrado e o institucional se encontram. Esse trânsito simbólico permite que a glossolalia funcione como uma manifestação audível do “mistério doutrinal” da presença do Espírito Santo, segundo as tradições pentecostais.
A pesquisadora também observa que, dentro dos cultos, o “falar em línguas” reforça laços de pertencimento. O ato de glossolar consolida identidades, demarca fronteiras simbólicas e afirma a participação do fiel no grupo. É, nas palavras de Baptista, uma linguagem que “excede o que pode ser dito por palavras comuns”, e por isso atua na esfera do indizível, aquilo que a linguagem ordinária não dá conta de exprimir.
O estudo dialoga com autores como William Samarin, referência internacional sobre o tema. Samarin define a glossolalia como um “comportamento verbal estruturado de maneira não linguística”, composto por consoantes, vogais, pausas e variações de entonação que imitam padrões de fala, mas não formam uma língua real. A aproximação entre Baptista e Samarin reforça a tese de que o fenômeno não deve ser tratado como erro linguístico, e sim como uma prática cultural com regras próprias e significado simbólico.
A glossolalia sob o olhar da psicologia
Na psicologia, a glossolalia costuma ser interpretada como um fenômeno vinculado à emoção, ao contexto religioso e a estados alterados de consciência. Pesquisas mostram que, em situações de forte envolvimento espiritual, o ato de “falar em línguas” se torna mais provável porque o ambiente ritual favorece a desinibição vocal e emocional.
Segundo estudos reunidos pelo psicólogo Andrew Neher, durante a glossolalia há uma redução temporária do controle racional da fala. O cérebro flexibiliza padrões linguísticos habituais e permite que sons, ritmos e sílabas sejam produzidos de forma mais automática, quase musical. Trata-se de um estado comparável ao transe leve, em que a pessoa permanece consciente do contexto, mas entra num foco emocional intenso que facilita a vocalização espontânea.
Já o psiquiatra John Kildahl, um dos principais pesquisadores do tema nos Estados Unidos, analisou grupos de pentecostais glossolalistas e concluiu que eles relatam alívio psicológico, sensação de presença divina, fortalecimento emocional e maior capacidade de enfrentar dificuldades após a prática.
Para além da ideia de uma linguagem sobrenatural, o “falar em línguas” revela como fé, emoção e pertencimento se articulam na vida dos fiéis. Entre leituras teológicas, análises acadêmicas e observações psicológicas, o que emerge é menos um mistério linguístico e mais uma prática que expressa emoção, reforça identidades e sustenta experiências de comunidade e espiritualidade.