AMOR

Banquete de Platão: o que o livro clássico do pai da filosofia nos ensina sobre o amor

Neste dia dos namorados, entenda a obra de Platão que atravessa os séculos um ensinamento único sobre desejo

Platão (348/347 a.C.).
Escrito en CULTURA el

Mais do que um diálogo filosófico, O Banquete, de Platão, é também uma das grandes obras literárias da tradição ocidental. Estruturado como uma sequência de discursos em homenagem a Eros, o deus do amor, o texto conduz o leitor a uma investigação sobre o verdadeiro sentido do amor, culminando na fala de Sócrates, que eleva o tema à esfera da filosofia. O amor, para Platão, não é apenas um sentimento, mas um impulso vital que nos aproxima do eterno — e, por isso, está intimamente ligado à prática filosófica.

A influência de O Banquete atravessou os séculos e alcançou diversas áreas do saber. Teólogos cristãos como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, escritores como Dante Alighieri em A Divina Comédia e pensadores modernos como Freud e Lacan foram marcados pela abordagem platônica do amor como desejo, ausência e impulso de transcendência.

A questão central da obra é: por que amamos? Qual é a origem e o objetivo da força amorosa? Platão se afasta dos discursos puramente poéticos ou idealizados sobre o amor para propor uma reflexão filosófica, capaz de revelar sua verdadeira natureza. E ao refletir sobre o amor, o filósofo grego também nos apresenta sua concepção de filosofia: não como posse de um saber, mas como a busca apaixonada por uma verdade que ainda não se tem.

Um dos momentos mais emblemáticos do texto é o mito contado por Aristófanes, segundo o qual, no início dos tempos, os seres humanos eram completos, com quatro braços, quatro pernas e dois rostos. Existiam três tipos: os masculinos duplos, femininos duplos e os andróginos. Por desafiar os deuses, foram cortados ao meio por Zeus, e desde então, cada pessoa passa a procurar sua outra metade. O amor, nesse mito, seria o desejo de reencontro e de fusão com o que foi perdido — uma busca pela unidade original, que só se completa na morte.

Sócrates, por sua vez, propõe uma visão mais filosófica do amor, baseada nos ensinamentos da sacerdotisa Diotima. Para ele, Eros não é propriamente um deus, mas um daimon, uma figura intermediária entre os humanos e os deuses. Isso porque Eros representa o desejo do que não se tem — o anseio pelo eterno, pelo divino, pela perfeição. O amor, então, é uma força que impulsiona o ser humano a superar sua finitude, a buscar formas de participar da imortalidade, seja pela geração biológica de filhos, seja pela criação de obras duradouras ou pelo cultivo do pensamento filosófico.

O Banquete de Platão, representado por Anselm Feuerbach (1873)

A filosofia, nesse contexto, é entendida como uma forma elevada de amor. Sócrates, como parteiro de almas, ajuda os jovens a dar à luz o conhecimento que já trazem em si, libertando-os das falsas opiniões. O amor, quando bem conduzido, pode ser uma experiência iniciática. A atração por um corpo belo leva o jovem a amar um só corpo, depois a perceber que todos os corpos belos compartilham uma mesma beleza. Com isso, ele começa a valorizar a beleza da alma, das ações, das leis, até alcançar a beleza das ciências e, por fim, a ideia pura do Belo.

Ao fim dessa jornada, o amante filosófico atinge a contemplação do Belo em si — absoluto, eterno, imutável. Essa revelação não apenas satisfaz o desejo amoroso em sua forma mais elevada, mas também concede uma forma de imortalidade, pois o contato com o eterno ultrapassa os limites da existência sensível.

Assim, O Banquete mostra que amar é buscar o que falta, é desejar ultrapassar a própria condição mortal. E nesse caminho, revela-se que o verdadeiro amor é filosófico: uma aspiração ao conhecimento, à beleza eterna e à sabedoria.

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