A cultura das ruas chega ao topo do mundo com a dança da Fadinha

O surf e o skate, que sempre foram marginalizados e estigmatizados, chegam com pompa e circunstância ao pódio olímpico com suas respectivas trilhas sonoras

E, como se fosse por encanto, o Brasil se destaca nas duas novas modalidades olímpicas que estrearam este ano em Tóquio: skate e surf. Pra quem é daqui dessas plagas isso não é lá grande novidade. Os dois esportes, até então segregados e tratados muitas vezes como coisa de marginal, nos trouxeram medalhas, mas já nos davam prêmios muito antes.

Duas dessas medalhas, no skate, foram de prata. Uma conquistada pela fadinha Rayssa Leal, negra, maranhense e com apenas 13 anos, a mais nova atleta brasileira de todos os tempos a conquistar tal feito. A outra por Kelvin Hoefler, de 27 anos, criado no Guarujá, litoral de São Paulo, filho de policial com dona de casa.

A terceira, de ouro, foi conquistada pelo surfista potiguar Ítalo Ferreira, filho de dona de casa e de um pescador na pequena praia da cidade de Baía Formosa, no Rio Grande do Norte. Lá, ele ainda menino aprendeu a surfar nas tampas das caixas de isopor que o pai usava para guardar os peixes que pegava.

Três histórias que, a despeito do apelido de Rayssa, parecem ser mesmo oriundas de contos de fadas. Surf e skate não são e nem nunca foram coisa de marginal. Ao contrário disto, são esportes permitidos aos humildes, dados os pouco recursos que eles dispendem. Para praticá-los, assim como o futebol, ainda nossa força maior, ninguém precisa ser sócio de clubes, ter treinadores e equipamentos caros. Basta as ruas, as ondas, gramados, improviso e muita vontade.

As explosões desses esportes têm a sua trilha sonora correspondente, cada uma a seu tempo. É impossível ver as medalhas desses meninos do skate sem lembrar das canções do santista Chorão e da banda Charlie Brown Jr. De acordo com levantamento do blog Tenho Mais Discos que Amigos, foram 33 as vezes em que Chorão citou a palavra “skate” em suas canções.

A despeito disto, foram muitas outras as que o artista apareceu com o seu skate fazendo manobras em clipes e entrevistas de TV. Ele e sua banda foram alguns entre muitos dos responsáveis pelo desenvolvimento do esporte no Brasil.

Já o surf é coisa muito mais antiga e nos remete diretamente às praias da Califórnia, nos EUA e, consequentemente e sem pestanejar, a uma das maiores e mais emblemáticas bandas da história, os Beach Boys. Na esteira do rock and roll que se fazia então, os garotos criaram um subgênero irresistível que trazia guitarras com reverbs longos que emulavam o balanço das ondas. Somado a isso, vocais irreparáveis que acabaram por criar a trilha perfeita para o esporte.

Mais de meio século depois, a nossa Fadinha Rayssa viralizou nas redes antes de sua apresentação de prata ao improvisar passos ao som do funk “Não Nasceu pra Namorar”, dos MCs Zaquin e Rick. Curiosamente, assim como skate e o surf, um gênero que sempre foi alvo de preconceito.

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O filme que se viu passar nesses primeiros momentos gloriosos em Tóquio eram ecos que nos chegavam da cultura das ruas de todo o planeta. Algo que após superar décadas de narizes tortos e perseguição chegava finalmente ao topo do mundo.

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Julinho Bittencourt

Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.

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