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19 de novembro de 2019, 16h47

A estreia de Plínio Marcos, 60 anos depois, no mesmo palco, em Santos

Na estreia de “Barrela”, em novembro de 59, as pessoas se retiravam chocadas com o tema, os palavrões, com o espetáculo

Plínio Marcos. Foto: Divulgação

Meu pai sempre contava. Era a história da vida dele. Muito amigo do Plínio Marcos desde moleque – nunca entendi como Seu Júlio podia ter um amigo tão doido! – resolveram participar do Festival Santista de Teatro Amador, que hoje é conhecido como Festa.

Eram todos meninos e a peça, primeira escrita pelo Plínio, contava a história de um garoto que era currado dentro de uma cela. Na noite do dia em que escrevo este texto, no mesmo local daquele dia 1º de novembro de 1959, o Centro Cultural Português de Santos, acontecerá uma remontagem do espetáculo, em homenagem aos seus 60 anos, com direção do amigo Tanah Corrêa. No elenco, vários outros tantos amigos de resistência do teatro santista.

Foto: Reprodução

Fiz as contas hoje e percebi que meu pai estava com 22 anos naquela noite. Mais novo que a minha filha mais nova. Minha mãe me contou que foi na estreia e via as pessoas se retirarem, chocadas com o tema, os palavrões, com o espetáculo.

Chocadas, enfim, com a crueza da dramaturgia de um garoto pobre, crescido no bairro operário do Macuco, em Santos, que mal tinha completado o curso primário, mas que, a partir daquele dia, iria mudar tudo. Iria revolucionar o teatro brasileiro ao levar para dentro dele o esquecido, o pobre, o excluído, o último dos últimos da nossa escala social.

Aqueles meninos não tinham ideia do que estavam aprontando.

Numa Santos que reunia intelectuais do nível de Patrícia Galvão, Geraldo Ferraz, Gilberto Mendes, Roldão Mendes Rosa entre outros, lá estavam eles. Em uma cidade que, pela sua luta operária, viria a ser reconhecida como a Baixada Vermelha, a ponto de ganhar um capítulo inteiro na saga “Subterrâneos da Liberdade”, de Jorge Amado, sobre os seus estivadores, Plínio e seus amigos se expunham com coragem. Enfim, em um porto que, anos depois, viria ser ancorado o vexame do navio presídio da ditadura, o Raul Soares, subiam ao palco aqueles garotos, prenhes de talento e coragem.

Aquela noite, pode a cidade saber ou não, tem uma importância vital e definitiva. Hoje, quando estes novos meninos capitaneados pelo Tanah subirem ao palco, junto deles estarão aqueles outros de tantos anos atrás. Junto deles estaremos todos os que sonhamos com um outro mundo possível, mais justo.

A capa do Programa da estreia da peça Barrela. Foto: Reprodução

Mas não se enganem. Estarão por lá também, como sempre estão em todas as partes, aqueles que, conforme contou minha mãe, se retiravam chocados do teatro. Aqueles que querem proibir o inevitável, o que salta aos olhos, o que não há como não ser visto. Proibir de ser visto para que nunca mude.

Mas Plínio nos mostrou e nos mostra até hoje. Aquele dia, como foi no decorrer de toda a sua trajetória, foi a estreia de um sem fim de bordoadas que levou, a cada espetáculo novo que apresentava.

Cresci ouvindo os detalhes, as nuances, imaginava o cenário, o choque que deve ter sido aquilo tudo. Através dos olhos brilhantes do Seu Júlio, de sua verve persuasiva e voz trovejante, por muitas vezes achei que superestimava aquilo tudo.

Hoje, há quase uma década de sua morte e a seis daquele dia, percebo o tanto inverti esses valores. Vou ao teatro ao seu lado e de todos eles. E também dos que vieram depois, os que já estavam antes e os que ainda chegarão. Vamos juntos, de mãos dadas, como disse Drummond.

Naquela sala, mais uma vez, vamos juntos rir dos imbecis e provocar os poderosos.


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