A poesia de Vladir Lemos em “Os Dias em Mim”

O jornalista esportivo, conhecido pelo programa Cartão Verde, da TV Cultura, abre a gaveta e nos mostra em livro seus versos cheios de beleza e de mar

Que Vladir Lemos é um craque do comentário esportivo, acrescida aí uma enorme capacidade de produzir, redigir e apresentar programas, todo mundo sabe. Sempre sensato e ligeiro em seus apartes, Vladir – como todo bom jornalista que se preze – tem o poder da síntese.

O que quase ninguém imaginava, até agora pelo menos, é que sua sensibilidade para enxergar de forma certeira os lances que envolvem por dentro e por fora as quatro linhas do campo também se traduzem em outra modalidade: a poesia.

Foto: Capa

Vladir é poeta de mão cheia desde sempre. Ainda menino, lá pelos idos de 1988, lançou em parceria com o amigo Marco Loretti “Dois poetas frente ao espelho”. Depois disso, por força das circunstâncias, mergulhou na sua paixão de sempre, tanto pessoal quanto profissional, e publicou vários títulos sobre o futebol, entre eles “Juízo, Torcida Brasileira”, “Como me tornei santista” e o imprescindível “A magia da Camisa 10”.

A poesia, no entanto, resistiu na alma de Vladir, que aguardou algumas décadas para chegar a este lindo e lírico “Os Dias em Mim”, recém lançado pela Dobro Literatura. Suspeito, mergulho nos versos do autor identificado com as suas duas pontas. Uma delas, já revelada em prosa esportiva pelo Santos F.C. de Pelé e outros craques. Por outra, o apaixonado pelo mar e pela cidade de Santos, local que se identifica como originário, pois chegou por lá menino, nascido em São Paulo.

Seus versos navegam mar adentro com a calma de quem conhece desde sempre o espaço. Uma melancolia persistente que confunde o seu espaço de estar com o de ser: “Sou de Santos que podia ser Guanabara, podia ser Baia de Todos os Santos, Veja, Sou de Santos embora não seja, sinto saudades do mar, do ar salgado, divindade, Sou de Santos, dos amantes do oceano atlântico, dos barcos, das velas, do cais, do mar”.

Ao mar, sempre presente, Vladir transforma a sua luta pela palavra certa em metalinguagem. Compartilha com o leitor quase como quem conta cada passo pra chegar no verso: “Palavras vão e vêm como a maré, Frases são como oceanos, Oceano de palavras vagas como as que moram em alto-mar”.

O poeta tão atento à vida ao redor revela, subitamente, e para surpresa do leitor, o completo alheamento ao que vê: “Assobio o dia entre olhares confusos, e não sei em que paisagem posso encaixar o mundo que trago em mim”.

A tríade que compõe “Os Dias em Mim”, que começa com o mar (o espaço), passa pela palavra (o meio), se completa com o ser e sua relação com o outro de maneira límpida no curto poema “Juízo”: “Não sabemos ao certo o que somos/assim sendo, quem sabe/diante dos meus olhos/dizer quem sou/condenando-me a ser/para sempre/esse juízo que faz de mim”.

“Os Dias em Mim” tem um único e sério problema. É curto demais. Quando começamos a nos habituar com a sua voz aparentemente despreocupada e ao mesmo tempo densa, o livro acaba e deixa o gosto de quero mais. E então, dá vontade de revirar as gavetas do poeta travestido de apresentador e esperar pelo que ainda há por lá.

Que venha em breve.

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Julinho Bittencourt

Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.

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