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03 de setembro de 2019, 13h19

Adriana Calcanhotto chega à “Margem” para nos traduzir o imenso

Julinho Bittencourt: “A sonoridade, na contramão dos grandes discos de mercado, é orgânica e também mínima. Tudo é pensado para, no final, fazer um sentido único com as composições e o canto”

Foto: Reprodução

A cantora Adriana Calcanhotto, que vem lá da cidade beira-rio Porto Alegre, acaba de encerrar a sua trilogia sobre o mar, com o belo álbum “Margem”. Na capa, sem papas na imagem, a compositora, que vive à beira mar do Rio de Janeiro, aparece dentro d’água, cercada de lixo e garrafas pet por todos os lados.

A velha melancolia, como um dia definiu o colega Vitor Ramil, vinda da estética do frio, aparece mais uma vez por todas as partes, com influências marcantes de Coimbra, Portugal, para onde vai quando não está no inverno quase glacial do Leblon.

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O disco é de fato lindo, até mesmo para os padrões dos grandes álbuns da cantora e compositora. Com apenas nove canções, quase todas da própria Adriana, com a exceção de “O Príncipe das Marés”, de Péricles Cavalcanti, e “Os Ilhéus”, de Antonio Cicero e Zé Miguel Wisnik, “Margem” se arroga grandiosamente mínimo.

As canções são concisas e exatas. Não há desperdício de palavras ou notas. A grande leitora de poesia que sempre se pronunciou na autora transparece com força em suas composições. As palavras da canção “Tua”, título do álbum de Maria Bethânia de 2009, nos remete mais uma vez ao livro e poema épico de Ferreira Gullar dedicado a Che Guevara, já citado por Adriana na canção “Vambora”:

Dentro da noite voraz
Detrás do avesso do véu
Atravessa este verso
A vontade nua

Tua, tua
Tua e só tua

As canções da compositora, melodia e palavras, se projetam na sua voz em círculos perfeitos, onde quase não importa o gênero, bolero ou funk, todos se tornam uma coisa própria e única. Tudo é Adriana Calcanhoto, autora e intérprete, limpidez e beleza.

Ao mesmo tempo em que apresentam esta unidade inconfundível, as canções ouvidas de perto são absurdamente diferentes entre si. A compositora vai desde suas canções de amor carregadas de lirismo e sinceridade, como em “Margem” e “Era pra Ser”, até a total desumanidade do mar dos refugiados de “Ogunté”:

Crianças encalhadas na costa de Lesbos
Pacotes de cruzeiros pelas Ilhas Gregas
O plástico do mundo no peixe da ceia
O que será que cantam as tuas baleias?

A produção, da própria autora, tem uma premissa quase artesanal, onde são imprescindíveis os músicos Bem Gil e Bruno Di Lullo, que vêm excursionando com a cantora. A eles se juntou Rafael Rocha. A sonoridade, na contramão dos grandes discos de mercado, é orgânica e também mínima. Tudo é pensado para, no final, fazer um sentido único com as composições e o canto.

Neste momento, o álbum já rodou várias vezes e suas canções, sonoridade e beleza não cansam de impregnar o ambiente. O mar (ou mares) de Adriana Calcanhotto nos dá outros sentidos ao nosso. De maneira quase distraída, de tanto navegar, a autora consegue chegar a um mínimo de palavras e sons para nos traduzir o imenso.


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