“Alvorada”, de Anna Muylaert e Lô Politi, acompanha os últimos dias de Dilma no Palácio

Fórum assistiu ao filme, que compreende o período entre julho e setembro de 2016, quando Dilma ficou afastada provisoriamente da Presidência até a decisão definitiva do Senado

Estreou nesta quarta-feira (14), durante o festival “É Tudo Verdade”, o aguardado filme de Anna Muylaert e Lô Politi, “Alvorada”. Após o chamado ciclo do “Cinema do Golpe”, o risco para o longa era ficar apagado diante do excesso de outros sobre o assunto, como “O Processo”, “Democracia em Vertigem” e “Excelentíssimos”.

A dura missão das diretoras era encontrar um viés que ainda não tivesse sido usado pelos antecessores. Bingo. A começar pelo protagonista, que não é nem a ex-presidente Dilma Rousseff nem nenhum outro político, mas sim o Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente.

Óbvio que Dilma é o centro de toda a tensão. Mas a câmera se fixa no Palácio, sua decoração, funcionamento, seus funcionários, salas, cozinha. Até mesmo nas poucas vezes em que a ex-presidenta fala diretamente para a câmera, o assunto esbarra no local: “Isso aqui não é lugar de morar”, diz.

O filme compreende o período entre julho e setembro de 2016, quando Dilma ficou afastada provisoriamente da Presidência, até que o seu impeachment fosse votado definitivamente no Senado. Durante esses meses, ela montou uma espécie de gabinete da resistência dentro da residência oficial, que ainda tinha o direito de ocupar.

A câmera acompanha, muitas vezes de maneira intrusa, o dia a dia do local, com entra e sai de políticos, juristas e movimentos populares. Dilma é filmada com a mesma intensidade que os funcionários, tanto os de carreira da Presidência quanto seus fiéis escudeiros, em sua maioria mulheres, que trabalham incessantemente a cada um dos movimentos que envolve o processo.

Dilma aparece interrompendo as filmagens em dois momentos, com gestos incisivos. Em uma das cenas que escapou, ela é flagrada dando uma enorme bronca no seu então já ex-ministro da Educação, Aloizio Mercadante, dando luzes à lenda a respeito do seu temperamento difícil.

Em outros momentos distintos, Dilma dá asas à sua também conhecida inteligência. Em um deles, afirma que jamais se transformará em “personagem” para as diretoras do filme: “vocês podem querer, mas não vão conseguir”. Em outro discorre sobre o mal e cita Milton e Saramago: “Eu admiro muito o personagem do diabo. Acho que o Mal é um produto da ficção. Nós somos muito frágeis para sermos tão maus”.

No mais pessoal de todos os seus depoimentos, diz que jamais perde o controle. Ela volta ao assunto a afirma ainda que “tudo se torna mais fácil quando não se tem nada a perder”. E a sessão do Senado, onde ela perderia de vez o cargo, é acompanhada pelos funcionários pelas câmeras de televisão instaladas dentro do Alvorada, em uma das cenas mais comoventes e simbólicas do filme.

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Dilma é deposta e a cena final é a da sua mudança. Um delicado despejo, onde funcionários anotam nas caixas o que vai pra que lugar, enquanto caminhões são carregados. Dilma se despede, em cena que poderia transbordar pieguice, mas que, no entanto, se mantém em um lirismo contido e firme, uma sutil homenagem à personagem.

Mais duas surpresas repletas de sutileza se seguem. Um urubu que se debate contra o vidro de uma das salas do Alvorada sem conseguir sair parece apresentar seus novos moradores. Em outra, moças responsáveis pela limpeza do local posam para foto na mesa presidencial. Acabava ali a breve ilusão do povo no poder.

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O pano de fundo de todo o filme, a música de Heitor Villa-Lobos e a arquitetura de Oscar Niemeyer, se encontram de maneira melancólica na moldura de Anna Muylaert e Lô Politi.  Sobem os letreiros enquanto segue o Brasil moderno que insiste em não dar certo nunca.

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Julinho Bittencourt

Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.

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